sábado, 12 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 1)






“Passou a colheita, findou o verão, e nós não estamos salvos."
Jeremias 8, 20


Para Alan Iverson






UM
O pródigo

Conforme a menor e em seguida as estrelas maiores desapareceram com o raiar do dia, a massa imponente da floresta que cercava o milharal reteve por um pouco, a escuridão da noite. Uma leve brisa soprava do lago, farfalhando as folhas do milho jovem, porém as folhas da floresta escura não se mexiam. Agora a parede leste da floresta brilhava verde-acinzentado, e os três homens à espera no campo, sabiam, embora não pudessem ver, que o sol já estava alto.

Anderson cuspiu - o dia de trabalho tinha oficialmente começado. Ele começou a percorrer o caminho até a inclinação suave em direção à parede leste da floresta. A quatro fileiras de distância de cada lado, seus filhos seguiram-o - Neil, o mais novo e maior à direita, e Buddy à esquerda.

Cada homem carregava dois baldes vazios de madeira. Nenhum deles usava qualquer calçado ou camisa, pois era verão. Suas roupas estavam em frangalhos. Anderson e Buddy tinham chapéus de abas largas de ráfia bruta, como os chapéus que se usam nas festas e feiras estaduais. Neil de óculos de sol, mas sem chapéu. Os óculos eram velhos, a ponte do óculos tinha sido quebrada e remendada com cola e uma tira da mesma fibra da qual os chapéus tinham sido feitos. Seu nariz era marcado, onde ele repousava.

Buddy foi o ultimo a chegar ao topo da colina. Seu pai sorria enquanto espera que o alcançasse.
O sorriso de Anderson nunca era um bom sinal.

"Está dolorido de ontem?”
"Estou bem. Desaparecerá quando eu começar a trabalhar."
Neil riu. "Buddy está com dor porque ele tem que trabalhar. Não é assim, amigo?"
Foi uma brincadeira. Mas Anderson, cujo estilo era lacônico, nunca ria das piadas, e Buddy raramente achava engraçadas as piadas feitas por seu meio-irmão.
"Você não entendeu?" Neil perguntou. "Dolorido. Buddy está dolorido porque ele tem que trabalhar."
"Nós todos temos de trabalhar" disse Anderson, e isso terminou com a piada.
Eles começaram a trabalhar.

Buddy retirou o tampão de sua árvore e inseriu um tubo de metal onde o tampão estivera. Abaixo da torneira improvisada ele pendurou um dos baldes. Puxar os tampões era um trabalho árduo, e tinham feito isso a semana toda. A seiva que escorria do buraco agia como uma cola. Este trabalho parecia sempre durar apenas o tempo suficiente para a dor de seus dedos, pulsos, braços, costas, voltar, mas nunca para abatê-lo.

Antes do terrível trabalho de carregar os baldes começar, Buddy parou e olhou para a seiva escorrendo pelo tubo como mel verde-limão para dentro do balde. Estava saindo devagar hoje. Até o final do verão esta árvore estaria morta e pronta para ser cortada.

Vista de perto, não se parecia muito com uma árvore. Sua pele era lisa, como o caule de uma flor. Uma árvore desse tamanho teria rachado através da pele sob a pressão de seu próprio crescimento, e seu tronco seria áspero com uma casca. Dentro da floresta você poderia encontrar árvores de grande porte, que tinham atingido o limite de seu crescimento e começaram finalmente a formar algo como uma casca. Pelo menos seus troncos, apesar de verdes, não estavam úmidos ao toque como esta.

Essas árvores ou Plantas, como Anderson chamava, tinham seiscentos metros de altura, e suas maiores folhas eram do tamanho de outdoors. Aqui na orla do milharal eram mais novas, não chegavam a dois anos e de apenas cento e cinquenta metros de altura. Mesmo assim, aqui como na floresta profunda, o sol apareceu por entre a folhagem ao meio-dia tão pálido como o luar em uma noite nublada
.
Tirem o cano!" Anderson gritou. Ele já estava no campo com seus baldes cheios de seiva, a seiva  transbordava dos baldes de Buddy também.
Porque é que nunca temos tempo para pensar? Buddy invejava a capacidade de Neil de fazer as coisas, de girar a roda da sua gaiola, sem saber como ela trabalhava.
"Vamos logo!" Neil gritou de longe.
"Vamos logo!" Buddy ecoou, sabendo que seu meio-irmão também tinha sido pego em seus próprios pensamentos, quaisquer que fossem.

Dos três homens que trabalhavam no campo, Neil certamente tinha o melhor corpo. Exceto por um queixo retraído, que dava uma falsa impressão de fraqueza, era forte e bem proporcionado. Era quase quinze centímetros mais alto que o pai ou Buddy, ambos homens baixos. Seus ombros eram mais amplos, o peito maior, e seus músculos, embora não tão definidos como Anderson, eram maiores. Não havia no entanto, nenhuma economia em seus movimentos. Quando ele entrava, era correndo. Quando se sentava, era largado. Ele suportava a pressão do dia de trabalho melhor do que Buddy simplesmente porque ele tinha mais material para suportar Nisso ele era bruto, mas pior do que ser bruto, Neil era burro, e pior do que ser burro, era vil.

Ele é malvado, Buddy pensou, e ele é perigoso. Buddy desceu pelo caminho do milho, um balde cheio de seiva em cada mão e seu coração transbordante com má vontade. Isso lhe conferia uma espécie de força, e ele precisava de toda a força que conseguiu reunir, de qualquer fonte. Seu café da manhã tinha sido leve, e almoço, ele sabia, não seria o bastante, e não haveria jantar.
Mesmo a fome, tinha aprendido, tinha seu próprio tipo de força: a vontade de arrancar mais alimentos do solo e tirar mais solo das Plantas.

Não importava o quanto de cuidado que ele tomava, a seiva acertava as pernas de suas calças enquanto ele andava, o tecido rasgado e preso à sua perna. Mais tarde, quando o dia estaria quente, o corpo todo estaria coberto com a seiva. A seiva secaria, e quando ocorresse, o tecido engomado iria arrancar os cabelos do corpo, um por um. Mas não era o pior, graças a Deus, o corpo tem um número finito de cabelos, mas ainda haviam as moscas que enxameavam sobre sua carne para se alimentar da seiva. Ele odiava as moscas, que não pareciam ter um número finito.

Quando chegou ao pé do declive no meio do campo, Buddy baixou um balde no chão e começou a alimentar as plantas jovens sedentas com o outro. Cada planta recebeu cerca de um quilo do grosso e verde nutriente e com bons resultados. Não era Quarto ainda, e muitas plantas já estavam na altura
dos joelhos. O milho teria crescido bem nos solos ricos atrás do lago, em qualquer caso, mas com a alimentação adicional extraida da seiva roubada, as plantas vicejavam fenomenal, como se estivessem no centro de Iowa em vez do norte de Minnesota. Este parasitismo inconsciente do milho servia a outra
finalidade além disso, para que o milho crescesse, as Plantas de cuja seiva haviam bebido morriam, e cada ano o limite de campo poderia ser aumentado um pouco mais.

Tinha sido idéia de Anderson usar as Plantas contra elas mesmas dessa maneira, e todo milho no campo era um testemunho de seu ardil. Olhando para as longas fileiras, o velho sentia-se como um profeta, diante da visão de sua profecia. Seu lamento agora era de que ele não tinha pensado nisso antes, antes da diáspora de sua aldeia, antes que as Plantas tivessem tomado sua fazenda e as fazendas de seus vizinhos.
Se apenas...
 
Mas isso era história, água debaixo da ponte, leite derramado, e, como tal, pertencia a uma noite de inverno na Sala Comum quando havia tempo para se lamentar. Agora, e pelo resto do dia, havia trabalho a fazer. Anderson olhou em volta para seus filhos. Eles seguiam atrás, ainda esvaziando seus baldes, o segundo balde, sobre as raízes do milho.

“Vamos!", gritou. Então, voltando-se para a colina com seus dois baldes vazios, ele deu um sorriso fino, sem alegria, o sorriso de um profeta, e cuspiu através do espaço entre os dentes da frente, uma fina corrente do suco da Planta que mascava.

Ele odiava as Plantas, e o ódio lhe dava forças.

Eles trabalharam, suando ao sol, até meio-dia. As pernas de Buddy estavam tremendo da tensão e de fome. Mas cada viagem até as fileiras de milho era mais curta, e quando ele voltou para as Plantas, houve um momento (e cada um maior do que a anterior), antes da baldes estarem cheios, quando ele podia descansar.

Às vezes, apesar de não gostar do sabor vagamente anis, ele enfiava o dedo no balde e lambia a calda agridoce. Não nutria, mas dissipava sua fome. Ele poderia ter mastigado a polpa de talha do floema do tronco, como seu pai e Neil faziam mas "mastigar" lembrava-lhe da vida que ele havia tentado escapar  dez anos antes, quando deixou a fazenda indo para cidade. Sua fuga havia falhado, tão certo como a
próprias cidades tinham falhado em se manter. No passado, tal como na parábola, ele teria ficado satisfeito com as cascas que os porcos comiam, e voltou para Tassel e para a fazenda de seu pai.

Fiel à forma, o bezerro engordado tinha sido morto, e se o seu regresso fosse uma parábola, teria sido um final feliz. Mas foi a sua vida, e ele ainda era, em seu coração, um filho pródigo, e houve momentos em que ele desejava ter morrido de fome na cidade.

Mas em uma disputa entre a fome na barriga e predileções da mente, a barriga tinha mais chances de ganhar. A rebeldia do filho pródigo tinha sido reduzida ao uso de certas palavras e coisas pequenas: como uma obstinada recusa em usar a palavra ‘naum’ e um desprezo pela música country, um ódio por "mastigar", e uma repugnância para o caipira, o caipira e o cacarejar mudo. Em uma palavra, Neil.

O calor e o cansaço de seu corpo conspiraram para direcionar seus pensamentos para canais menos conturbados, e como ele ficou olhando para os baldes enchendo lentamente, na sua mente surgiram as imagens de outros tempos. Da Babilônia, aquela grande cidade.

Ele se lembrava de como à noite, as ruas se assemelhavam a rios de luz e como os brilhantes, anti-sépticos carros escorriam pelos rios. Uma hora após a outra, o som não diminuia, nem as luzes se apagavam. Haviam os drive-ins, e quando o dinheiro era pouco, as lanchonetes de fast-food. Garotas de shorts serviam-o em seu carro. Às vezes os shorts tinham franjas brilhantes que saltavam sobre as coxas bronzeadas.

No verão, enquanto os caipiras trabalhavam nas fazendas, haviam praias com iluminação artificial, e sua língua seca enrolava agora lembrando como entre o labirinto de tambores de óleo vazios apoiando a balsa de mergulho, ele tinha beijado Irene. Ou alguém. Os nomes não importavam mais.

Fez outra viagem para baixo e quando alimentava o milho, lembrou os nomes que não importavam mais  agora.

Ah, a cidade fervilhava de meninas. Poderia ficar em uma esquina, e em uma hora centenas delas passariam por ele.  Centenas de milhares de pessoas!

Lembrou-se da multidão no inverno, no auditório aquecido no campus da universidade. Ele usava uma camisa branca. O colarinho apertado no pescoço. Em sua imaginação, ele afrouxou o nó de uma gravata de seda. Seria listrada ou lisa? Pensou nas lojas cheias de ternos e jaquetas.
Ah, as cores! A música e depois os aplausos!

Mas o pior de tudo, pensou descansando junto à Planta, é que não havia ninguém com quem falar.
A população total de Tassel era de duzentos e quarenta e sete, e nenhum deles, nenhum deles, conseguia entender Buddy Anderson. Um mundo havia se perdido, e eles não estavam cientes disso.

Nunca fora o mundo deles, mas por um breve tempo, fora de Buddy, e tinha sido belo.



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