quinta-feira, 10 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (4/5) - Thomas M. Disch




[Ler 3/5]

A escala de tempo é outro aspecto do Sublime, o fato de que você pode olhar para trás na história da mesma maneira que você pode olhar no espaço, ou você pode olhar avante na história através das dimensões, como as projeções de Stapledon através de eras e eras de futuridade. Wells foi o primeiro escritor a explorar a história humana universal que remonta ao período dos homens das cavernas ou mesmo a formação geológica da Terra. É um novo sentido da história que temos, as dimensões de tempo, que precisa ser comemorado de alguma forma, ser entendido, compreendido e pensado.
Então esse é outro aspecto de sublimidade, a histórica.

Mas ainda há mais uma, e é onde a palavra realmente tem seu peso. Antes de paisagens serem consideradas Sublimes (de acordo com Reynolds) Michelangelo foi creditado como sendo o grande pintor sublime. Isso também se relaciona com o que era suposto haver e que Rafael e outros não tinham: ‘terribilitá’, uma palavra italiana maravilhosa; ‘Terribility’ (terrabilidade) não funciona em inglês da mesma forma que ‘terribilità’ em italiano. Significa que você olha para um Michelangelo e você se relaciona com a imagem que está vendo: uma imagem humana tão poderosa e tão profundamente significativa que você olha para ela e sente algo além do humano na imagem humana, algo semelhante a Deus. E, é claro, era o que Michelangelo estava pintando: imagens de deuses.

Agora, pintar um retrato de um deus assim não é fácil. Você não precisa sequer ser cristão para entender o que a imagem humana pode ser ilimitadamente significante para os seres humanos, pois ela pode condensar tudo o que é significativo e maravilhoso, a alma quebrando-se em uma imagem - ou um conto.

O sublime humano pode ser encontrado tanto na literatura quanto na pintura.

Os artistas Michelangelo e Reynolds não podem ser comparados com outros pintores: mas com Homero e Milton. Atualmente os romancistas raramente escrevem sobre deuses, raramente escrevem sobre heróis no sentido de pessoas vestindo algo apropriado para um baile à fantasia. A não ser por heróis militares e cowboys, cada um tem seu próprio uniforme, os heróis dos romances modernos tendem a ser pessoas comuns.

Há também aspectos da observação ligados ao ritual de evocação dos heróis extraordinários de fantasia. Parsifal, de Wagner, tem um pouco em comum com a Missa Solene em latim. Ou a Society for Creative Anachronism, que organiza justas para aqueles rituais que anseiam por uma participação mais energética.

Eu tenho minha própria sugestão de um ritual que poderia ser devolvido e renovado nos dias de hoje: a construção de pirâmides. Sinto que foram negligenciadas por bastante tempo. Certa vez eu estava em uma catedral na Itália, e ela parecia tão fácil de fazer. Era uma catedral nova e não muito bem construída. Não havia muito que distingui-la como uma obra de arquitetura, e eu não pude deixar de pensar: ‘Ei, eu poderia fazer isso!’ Então pensei que talvez não pudesse de verdade, mas eu certamente poderia fazer algo!

No entanto, se você não tem uma religião, provavelmente não iria querer construir uma catedral, porque estaria preso a todo um sistema com o qual não concorda.

Mas quanto a pirâmides, você teria a satisfação de construir algo sem ter que ser um verdadeiro crente. Então escrevi um artigo, propondo que construíssem pirâmides em Minnesota, e que foi publicado e muito bem recebido. Liguei para voluntários e recebi um monte de e-mails de pessoas que queriam construir pirâmides em Minnesota, e de voluntários para serem uma espécie de escravos para tal. Infelizmente, ninguém escreveu se oferecendo para financiá-la, e paramos ai. Eu devia ter me ocupado organizando uma angariação de fundos, pois assim haveriam pirâmides hoje em Minnesota, e não seria apenas um devaneio meu.


Ficção científica como uma Igreja (5/5)