sexta-feira, 11 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (5/5) - Thomas M. Disch



[Ler 4/5]

Não quero sugerir que o paralelo que estou observando, entre a FC e a religião, é sempre uma coisa boa. Há aspectos da religião que causaram problemas, historicamente falando. Por exemplo, houve a Inquisição, numa época em que se você tivesse noções que pudessem ser consideradas heréticas, isso certamente lhe traria problemas.

A religião é freqüentemente organizada para criar problemas para  pessoas que têm ideias erradas. Na FC também. Há influências ortodoxas na FC e eu senti em minha própria experiência, e outros também sentiram. Como a maioria dos hereges, tenho a tendência em pensar em ortodoxia como sendo uma oposição ao livre exercício da imaginação. Os ortodoxos, naturalmente, pensam que são defensores da verdade.

Acho que quando falamos de arte versus religião (se não estamos considerando a religião um ramo da arte) o imperativo artístico é o de fazer coisas novas, criar uma imagem que não é apenas um eco do bem sucedido de ontem, e se opõe necessariamente à outra sentença, ou seja, fazê-lo de novo da mesma forma.

Como escritor, o que muitas vezes se sente dos editores, e as vezes dos leitores, é que se deve repetir algo: se é tão bom, então faça-o como você fez da última vez.Isso geralmente é feito, as pessoas, parece-me, escrevem substancialmente o mesmo livro novamente. O processo é chamado ortodoxia, e o resultado pode ser um livro de bolso ou um ícone. A maioria dos romances de bolso ortodoxos são baseados em um livro chamado 'The Hero with a Thousand Faces', de Joseph Campbell. Campbell mostra como todos os mitos podem ser resumidos em um mito para todos os fins.Moisés é a mesma história de Teseu, e isso é o mesmo para todas as outras histórias famosas. Assim, uma vez que há somente uma história para contar, os escritores só precisam escrever esta história. E qual é essa história? Aventura!

Pegue qualquer uma delas, como 'Lord Vallentine’s Castle' de Robert Silverberg, e sob sua pintura nova há o chassi de 'The Hero with a Thousand Faces'. Silverberg, é claro, não tem a única cópia do livro de Campbell. A minha ‘The Brave Little Toaster’ é um conto de aventura investigativa com o mesmo enredo. Não há necessariamente nada de errado nisso, todos os escritores na verdade, provavelmente vão escrever uma, algum dia, talvez até sem saber, porque é um padrão muito básico, mas não é o único padrão para se contar uma história. Experimente dizer isso para um pintor de ícones ortodoxos, e você só terá um olhar vazio em resposta.

Há outro aspecto de sempre contar a mesma história, e não é uma questão do enredo, mas da moral da história. Tem sido por vezes sugerido que eu sou um niilista, e sinto que isso equivale a dizer que sou um herege. Niilistas não acreditam em nada, e isso significa que há, portanto, algo em que acreditar, ou seja, uma posição ortodoxa. 

O meu niilismo parece resumir-se entre aqueles que me apontam como tal para um livro chamado 'OS GENOCIDAS' no qual a Terra é destruída por invasores alienígenas. Eu não quero sugerir no livro que a terra deva ser destruída por invasores alienígenas, ou que venha a ser destruída, ou mesmo que nós merecemos esse destino. Eu queria escrever o que se pode chamar de uma tragédia épica, e ao mesmo tempo que pode ser uma ambição um pouco pretensiosa (para um pequeno livro), a noção de que qualquer um poderia escrever uma tragédia foi um erro da minha parte, que eu compreendi desde então. Não estou me contradizendo, preste atenção, mas quando o Grande Inquisidor me tinha sob seu poder, ele me apontou que os problemas não deveriam existir na FC, a menos que eles estejam lá para serem resolvidos, e que os homens podem olhar para um futuro de imortalidade e que é bem possível, que nenhum de nós vá algum dia morrer.

Embora não esteja convencido, não me oponho ao Grande Inquisidor, e outros de sua fé, publicando livros que expressam a ortodoxia, a visão alegre da imortalidade destinada a humanidade, e a conseqüente irrelevância da experiência trágica, mas acho que os hereges devem ser autorizados a distribuir seus panfletos e publicar seus romances também.

Tudo isso resume-se a uma declaração a favor do pluralismo, e que parece ser um fundamento bastante inglês. Historicamente a Inglaterra foi o primeiro país em que várias religiões aprenderam a viver lado a lado com êxito. Com certeza eles ainda se reúnem, algumas vezes, em congressos ecumênicos, ou se não lá, vivem todos na mesma aldeia e zombam uns das igrejas dos outros, amigavelmente, no espírito pacífico e pluralista, o espírito de uma boa convenção.

De modo que este parece ser o meu final feliz. Exceto, e me ocorre a dúvida, se eu poderia com base nestas idéias, qualificar-me como um pensador religioso. E se assim for, se eu poderia solicitar a vocês, tornarem-se membros da minha própria congregação. Os benefícios fiscais seriam simplesmente maravilhosos para mim.



Ficção científica como uma Igreja - 'On SF' por Thomas M. Disch.