sábado, 26 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 3)



DOIS:
DESERÇÂO

Eles tiveram que ir até Tassel, a velha Tassel que eles ainda tinham como sua verdadeira casa.

As Plantas tinham arremessado suas mudas (embora exatamente como isso foi feito permanecia um mistério, pois as Plantas não apresentaram o menor sinal de flores e corpos de frutificação) sobre e
ao redor dos campos com tamanha liberdade que tinham finalmente conquistado todos os esforços humanos de manter-se no local. Eles, os seres humanos, haviam se estendido longe demais: a sua cidade e as fazendas não poderiam ser fronteiras.

Nos três primeiros anos, haviam conseguido se manter, ou parecia assim – pulverizando as Plantas com venenos que o Governo tinha desenvolvido. A cada ano, enquanto o Governo e seus laboratórios duraram, para cada veneno novo, as Plantas desenvolviam imunidades quase tão rápido quanto eram inventados. Mas mesmo assim haviam pulverizado somente os campos. Nos pântanos e ao longo da margem do lago selvagem, nas florestas e ao longo da  estradas, as mudas cresceram além do alcance de qualquer inimigo, além do machado e haviam muitas plantas e poucos machados para tornar isso uma iniciativa concebível. Onde quer que as Plantas cresciam, não havia luz suficiente, nem água suficiente, nem mesmo solo o suficiente para mais nada.

Quando as árvores velhas e arbustos e gramíneas foram preteridas e morreram, a erosão destruiu a terra.
As fazendas não, é claro, ainda não. Mas em apenas três anos, as Plantas foram cercando os campos e pastos, e depois foi só uma questão de tempo.
Pouco tempo na verdade. As Plantas primeiro mordiscaram, depois morderam e, durante o verão de seu quinto ano, elas simplesmente invadiram a cidade.
Tudo que restou foi essa sombria ruína.

Buddy tinha um certo prazer elegíaco em vir até ali. Havia até mesmo um lado prático para ele. Escavando nos destroços ele muitas vezes foi capaz de encontrar ferramentas velhas e folhas de metal, até mesmo livros.
O tempo para comestíveis era passado, no entanto. Os ratos e saqueadores à sua maneira vindos de Duluth há muito tempo limparam o pouco que tinha sido deixado para trás após a mudança para Nova Tassel. Então, ele desistiu da busca e fui sentar nos degraus da Igreja Congregacional, que graças aos esforços contínuos de seu pai, foi um dos últimos edifícios na cidade a permanecer intacto.

Havia, lembrou, um carvalho, um carvalho alto e arquetípico carvalho, à direita da Planta que tinha quebrado a calçada na borda do que costumava ser o parque da cidade. Durante o quarto inverno, eles usaram o carvalho como lenha. E muitos olmos também. Não havia, sem dúvida, falta de olmos.
Ele ouviu à distância, o lamento lúgubre de Gracie sendo puxada de volta à cidade amarrada ao final de uma corda. A perseguição tinha sido demais para Buddy.
Suas pernas doiam. Ele questionou se a raça Hereford fora extinta. Talvez não, pois Gracie estava grávida, ela ainda era jovem, e se ela desse luz a um bezerro, havia esperança para sua raça, embora fosse apenas um vislumbre. Que mais se pode pedir além de um vislumbre?

Ele imaginou também, quantos enclaves tinham resistido tanto quanto Tassel. Nos últimos dois anos os saqueadores tinham sido a única ligação da vila com o mundo lá fora, mas mesmo os saqueadores já não apareciam tanto quanto antes. Era provável que as cidades tinham chegado ao seu fim.

Ele ficou extremamente grato que não estava lá para testemunhar isso, pois mesmo a cadavérica e pequena Tassel deixava-o melancólico. Ele não teria pensado antes que poderia se importar tanto assim. Antes do advento das Plantas, Tassel fora tudo que ele desprezava, a pequenez, a mesquinhez, a dolosa ignorância e um código moral tão contemporâneo como o Levítico. E agora ele chorou como se tivesse sido Cartago a cair para os romanos e coberta com sal, ou Babilônia, aquela grande cidade.

Talvez não fosse o cadáver da cidade que ele pranteava, mas todos os outros cadáveres combinados. Certa vez, mil e tantas pessoas tinham vivido aqui, e todas, senão meros 247 deles, foram mortas. Como sempre os piores haviam sobrevivido e os melhores tinham morrido.

Pastern, o ministro Congregacional, e sua esposa Lorraine. Eles tinham sido bons para Buddy durante aquele ano, antes dele deixar a Universidade, quando a vida tinha sido uma longa rixa com seu pai, que queria que ele fosse para a escola de agricultura de Duluth. E Vivian Sokulsky, sua professora da quarta série. A única mulher mais velha da cidade com um senso de humor ou um grão de inteligência. E todos os outros também, sempre os melhores deles.

E agora Jimmie Lee. Racionalmente não se podia culpar as plantas pela morte de Jimmie. Ele havia sido assassinado, embora como ou por quem, Buddy não imaginava. Ou por quê. Acima de tudo, por quê? A morte e as Plantas eram parentes próximos, de tal forma que não se podia sentir a respiração de um sem parecer ver a sombra do outro.

"Olá estranho."
A voz tinha um timbre musical muito forte, como a voz de contralto em uma opereta, mas a julgar pela reação de Buddy, poderia se pensar ser demasiado desagradavel.

"Olá, Greta. Vá embora."

A voz riu, uma risada rouca que teria atingido as últimas fileiras de qualquer teatro, e Greta se aproximou, tão enérgica quanto seu riso, que agora cessara. Ela estava diante de Buddy como se estivesse apresentando uma queixa perante o tribunal.

Prova A: Greta Anderson, braços cruzados e os ombros para trás, projetando os quadris para frente, com os pés descalços plantados na terra, como raízes. Ela merecia roupas melhores que a camisa de algodão que usava. Em tecidos mais ricos e cores mais vivas e com cuidados certos, o tipo de beleza de Greta poderia sobrepujar a qualquer outra, mas agora ela parecia apenas velha.

"Eu quase nunca mais o vejo. Sabe que nós somos praticamente vizinhos de porta. Só que não temos porta. Não te vejo faz uma semana. Às vezes eu acho que você tenta me evitar."
 "Às vezes eu tento, mas você pode ver por si mesmo que não funciona. Agora, por que você não vai fazer o jantar de seu marido como uma boa esposa? Tem sido um dia ruim para todos."

"Neil está deprimido. Espero que seja chicoteado hoje à noite, e eu não vou estar em casa - ou devo dizer na tenda? - quando ele chegar. Quando ele voltou para a cidade,  amarrou a corda no cativeiro de Studs para tentar fazer parecer que não foi culpa dele que Studs pulou a cerca. Clay e meia dúzia de outros viram ele fazendo isso. Ele vai pagar por isso."
"Que idiota!"
Greta riu. "Você disse, não eu."

Com uma naturalidade fingida, ela se sentou no degrau abaixo dele.

"Sabe Buddy, eu venho muito aqui também. Eu fico tão sozinha na nova cidade, nem é realmente uma cidade, é mais como um acampamento de verão com as barracas e tendo que carregar água do córrego. Oh, é tão chato. Você me entende. Sabe melhor do que eu. Eu sempre quis ir morar em Minneapolis, mas primeiro tinha o pai, e em seguida... Mas eu não preciso te dizer isso."

Tinha ficado bem escuro na cidade em ruínas. Uma chuva de verão começou a cair sobre as folhas das Plantas, mas apenas algumas gotas penetraram a sua cobertura. Era como estar no spray soprado do lago.
Depois de um silêncio considerável (durante o qual ela havia se recostado para descansar os cotovelos no degrau de Buddy, deixando o peso de seu cabelo espesso e queimado pelo sol puxar a cabeça para trás, de modo que enquanto falava, ela olhava para as folhas longínquas da Planta), Greta soltou outra risada bem modulada.

Buddy não pode deixar de admirar seu riso. Era como se fosse a especialidade dela, uma nota que ela pudesse chegar que outra contralto não podia.

"Você se lembra da vez que você colocou vodka no suco da reunião de jovens do meu pai? E todos nós começamos a dançar aqueles discos horriveis e velhos dele ? Oh, aquilo foi o máximo, foi tão divertido! Ninguém mais, além de você e eu, sabia dançar.Foi uma coisa terrível. A vodka, quero dizer. O Pai nunca soube o que aconteceu."
"Jacqueline Brewster sabia dançar bem, se me lembro bem."
"Jacqueline Brewster é uma otária."
Ele riu, e isso se tornara muito menos habitual para ele, o riso era grosseiro e um pouco estridente.
"Jacqueline Brewster está morta", disse ele.
"É verdade. Bem, acho que além de nós dois ela era a melhor dançarina que havia."

Depois de outra pausa, ela começou novamente com um grande show de vivacidade.
"E daquela vez que fomos para a casa de velho Jenkins, fora da Estrada Municipal,lembra disso?"
"Greta, não vamos falar sobre isso."
"Mas foi tão engraçado, Buddy! Foi a coisa mais engraçada do mundo. Lá estávamos, nós dois naquele sofá velho e barulhento. Pensei que iria cair aos pedaços, e ele lá em cima tão apagado que nunca soube de nada."
Apesar de tudo, Buddy bufou.
"Bem, ele era surdo."Ele pronunciou a palavra da maneira da cidade, com um longo ‘u’.
"Oh, nós nunca vamos ter momentos como aquele de novo."
Quando se virou para olhar Buddy, seus olhos brilharam com algo mais do que lembranças.

"Você era um selvagem. Não havia nada que o parasse. Era o rei da colina, e eu a rainha, não? Não era Buddy? "Ela agarrou sua mão e apertou-a. Antigamente suas unhas teriam cortado sua pele, mas as unhas tinham ido embora e sua pele era mais grossa.
Ele puxou a mão e se levantou.
"Pare com isso, Greta. Isso não leva a nada."
"Eu tenho o direito de lembrar. Foi dessa maneira que aconteceu , e você não pode me dizer que não foi assim. Eu sei que não é mais assim. Tudo o que preciso fazer é olhar ao redor para ver isso. Onde está a casa de Jenkins agora, hein? Alguma vez você já tentou encontrá-la? Ela se foi, simplesmente desapareceu. E o campo de futebol? Cada dia um pouco mais de tudo se perde. Fui ao MacCord outro dia, onde eles costumavam ter os mais belos vestidos da cidade. Não havia nada. Nem um botão. Parecia o fim do mundo, mas eu não sei, talvez estas coisas não sejam tão importantes. As pessoas é que são mais importantes. Mas todas as melhores pessoas se foram, também."
"Sim", disse Buddy: "Sim, se foram."
"Salvo alguns poucos. Quando você foi embora, eu vi tudo acontecer. Alguns deles, os Douglas e outros, foram para as cidades, mas foi bem no início do pânico. Eles voltaram, como você, aqueles que conseguiram. Eu queria ir, mas depois Mãe morreu e o Pai ficou doente e eu tive que cuidar dele. Ele lia a Bíblia o tempo todo. E orou. Ele me fez ficar de joelhos ao lado de sua cama e orar com ele. Mas sua voz não era tão boa, então, eu geralmente acabava orando por mim. Eu pensei que seria engraçado se rezasse para Papai, e não para Deus. Mas não havia ninguém a essa altura que pudesse rir. O riso tinha acabado de secar, como rio Split Rock. A estação de rádio tinha parado de transmitir, exceto notícias, duas vezes ao dia, e quem quer ouvir as notícias? Aquelas pessoas da Guarda Nacional tentando nos obrigar a fazer o que o Governo queria. Delano Paulsen foi morto na noite em que eles enfrentaram a Guarda Nacional, e eu fiquei uma semana sem saber disso. Ninguém quis me falar, porque depois que você partiu, Delano e ficamos juntos. Eu acho que talvez você nunca soube disso. Assim que papai ficou bom, ele casou nós dois. As plantas pareciam estar em toda parte. Elas quebraram as estradas e a rede de água. O lago velho era apenas um pântano, e as Plantas cresciam lá também. Tudo era terrivelmente feio. É bonito agora, em comparação.
Mas a pior parte era o tédio. Ninguém se divertia. Voces tinham ido embora e Delano estava morto e papai, bem, você pode imaginar. Eu não devia admitir isso, mas quando ele morreu, foi uma espécie de alívio. Então seu pai foi eleito prefeito e realmente começou a organizar tudo, dizendo-lhes o que fazer e onde viver, e eu pensei: 'Não haverá espaço para mim'. Eu estava pensando na arca de Noé, porque o pai costumava ler de vez enquanto. Eu pensei: 'Eles vão embora sem mim.' Eu estava com medo. Acho que todo mundo estava com medo. A cidade devia ser assustadora também, com todas aquelas pessoas morrendo. Eu ouvi sobre isso. Mas eu estava realmente com medo! Como você explica isso? E então seu irmão começou a vir visitar-me. Ele tinha uns 21 anos e não era muito feio, pelo ponto de vista de uma garota. Exceto por seu queixo. Mas eu pensei: 'Greta, você tem a chance de se casar com Japhet'.
"Quem?"
"Japhet. Ele foi um dos filhos de Noé. Pobre Neil! Quero dizer, ele realmente não tinha a mínima chance, não?"
"Eu acho que você já lembrou o bastante".
"Quero dizer, ele não sabia nada sobre garotas. Ele não era como você. Tinha 21 anos, e eu não acho que ele pensasse em meninas. Ele disse mais tarde que foi seu pai quem me recomendou! Você consegue imaginar isso! Ele estava criando-o como um touro!"

Buddy começou a caminhar para longe dela.
"O que eu deveria ter feito? Me diz! Eu deveria ter esperado por você? Colocar uma vela acesa na janela?"
"Você não precisa de uma vela, quando está carregando uma tocha." 
Novamente o riso lirico, mas farpado com estridência não dissimulada. Ela se levantou e caminhou em sua direção. Seus seios, que eram dignos de nota antes, eram sensivelmente menores.

"Bem, você quer saber por quê? Você tem medo de ouvir a verdade. Se eu te dissesse, você não acreditaria, mas eu vou te dizer de qualquer maneira. Seu irmão é um quilo de macarrão molhado. Ele é completa e totalmente incapaz de cumprir com suas obrigações."
"Ele é meu meio irmão", disse Buddy quase automaticamente.
"E ele é metade de um marido para mim."

Greta estava sorrindo estranhamente, e de alguma forma tinham chegado a estar de pé frente a frente, a centímetros de distância. Ela tinha apenas que ficar na ponta dos pés para alcançar os lábios dele. As mãos dela não o tocavam.

"Não" ele disse se afastando dela. "Acabou. Foi há muito tempo. Foi há oito anos. Nós éramos crianças. Adolescentes".
"Oh, cara, você perdeu a coragem!"
Ele bateu nela com força suficiente para derrubá-la ao chão, mas justiça seja feita, ela pareceu até saborear o golpe.
"Isso" disse ela, a música sumiu da sua voz, "É tudo que Neil pode fazer. E devo dizer que entre os dois, ele faz isso melhor".

Buddy deu uma risada, sólida e bem-humorada, sentindo um pouco do sangue de garanhão velho subindo. Ah, ele tinha esquecido da magnífica sagacidade dela. Com certeza a única que sobrou com senso de humor, ele pensou. E ainda era bonita. Talvez ficassem juntos novamente.
Eventualmente.

Então ele se lembrou que não era um dia para se ficar bem humorado, e o sorriso deixou seus lábios e o garanhão aquietou-se e retornou ao estábulo.



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