sábado, 2 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 4)




TRÊS:
UM PACOTINHO DE ALEGRIA

Havia algo de ratazana em Maryann Anderson. Era a cor de ratazana de seu cabelo: um cinza-escuro sem brilho. Havia algo de ratazana, quando sua mente estava ocupada em outras coisas, e seus lábios se separavam, revelando largos incisivos amarelados. Pior ainda, ela tinha, na idade de 23 anos, um débil bigode felpudo. Ela era pequena, não mais que um metro e sessenta e magra: O polegar de Buddy  e o dedo médio podiam envolver completamente seu braço.

Mesmo suas boas qualidades eram de rato: Ela era alegre, trabalhadora e se contentava com sucatas. Embora ela jamais tivesse sido uma beleza, ela poderia ter pensado que era. Ela era submissa. Ela não se intrometia.

Buddy não a amava. Houve momentos em que sua passividade o enfureceu. Ainda assim, era tão difícil encontrar uma falha em Maryann, quanto era difícil encontrar alguma coisa especial para admirar nela. Buddy confortavelmente tinha a certeza de que ela nunca seria infiel, e enquanto seus desejos fossem atendidos, ele realmente não se ressentia de Maryann ser sua esposa.

Maryann, por sua vez, não poderia retribuir essa indiferença. Ela era servilmente dedicada ao marido e irremediavelmente apaixonada, do jeito que uma garota poderia ser apaixonada por ele. Buddy tinha sido sempre capaz de produzir uma espécie de devoção por auto-sacrifício, um tipo diferente de sacrifício, e os seus altares, de certo modo, estavam escuros com o sangue de suas vítimas. Mas nunca  tinha tentado exercer essa influência sobre Maryann, que só lhe interessava por um breve momento e depois de maneira não amorosa, mas por ser digna de pena.

Foi durante o outono do quarto ano, quando as plantas tinham vindo, e Buddy tinha acabado de voltar a Tassel. Um grupo de saqueadores, Maryann entre eles, tinha conseguido vir de Minneapolis. Em vez de invadirem, eles tinham sido tolos o suficiente para vir para a aldeia e pedir comida.
Foi algo inédito. A regra invariável era de que saqueadores fossem executados (a fome transformava cordeiros em lobos), mas uma pequena controvérsia surgiu por causa da aparente boa vontade dos prisioneiros. Buddy tinha sido um entre aqueles a favor de liberá-los, mas seu pai, e a maioria dos homens, insistiu na execução.

"Então, ao menos vamos poupar as mulheres." Buddy tinha dito, sendo ainda bastante sentimental.

"A única mulher que ficará livre é aquela que você escolher como esposa," Anderson tinha dito, improvisando uma lei, como era seu jeito. E inesperadamente e por pura obstinação, Buddy escolheu uma delas, nem mesmo a mais bela, e fez dela sua esposa. Os outros 23 saqueadores foram executados, e os corpos foram descartados.

Maryann não falava a não ser que falassem com ela, mas em seus três anos juntos, Buddy tinha captado o bastante para se convencer que seu interior não era mais interessante do que a sua superfície.

Seu pai tinha sido um funcionário de banco, pouco mais do que um contador, e ela tinha trabalhado durante um mês como estenógrafa antes do mundo entrar em colapso. Embora ela tivesse ido a uma escola paroquial e mais tarde a Santa Brígida, onde fez o curso comercial, o catolicismo nunca lhe foi mais do que indiferente, na melhor das hipóteses, com ondas de fervor nos feriados. Em Tassel ela foi capaz de adotar o ar caseiro e apocalíptico do Congregacionalismo de Anderson sem o menor escrúpulo.
Mas a distinção especial de Maryann não foi sua conversão, mas uma nova habilidade que ela tinha introduzido em Tassel. Uma vez, quase por acaso, tinha feito um curso noturno de cestaria em Cayo. Algo em Maryann, algo bastante fundamental, havia respondido a simplicidade deste ofício antigo. Ela experimentou com juncos grossos e gramíneas do pântano, e quando começou a escassez, Maryann saiu por conta própria e começou a descascar os troncos lisos verde das Plantas e rasgando suas folhas grandes em ráfia. A partir deste dia, quando os caminhões do Governo não apareceram mais com a caridade da manhã, ela passou a fazer seu cestos e chapéus e sandálias e tapetes de boas-vindas. As pessoas pensavam que era uma bobagem, e consideraram uma fraqueza. Era a única coisa que o pobre rato tinha feito bem mais do que a satisfação em ter escapado a atenção deles.

Em Tassel, o brilho de Maryann já não estava escondido. Sua cestaria transformara de alguma maneira a vida da aldeia. Depois do verão fatal, quando as plantas invadiram os campos, os moradores (os cinco mil que sobraram) apanharam tantas peças que podiam carregar e foram para as margens do Lago Superior, a poucos quilômetros de distância do rio Gooseberry. O lago estava recuando em um ritmo prodigioso, e em várias áreas, a água estava dois ou três quilômetros distante da antiga linha de pedras da costa. Sempre que a água recuava, as mudas sedentas surgiam, afundando as raízes e o processo acelerava-se.

Naquele outono e durante o inverno, os sobreviventes (e seu número, assim como o lago, foi sempre  encolhendo) trabalhavam na limpeza de uma área tão grande quanto eles poderiam esperar realisticamente manter seus próprios campos no próximo ano. Então eles começaram a plantar suas próprias raízes. Havia pouca madeira, somente o que tiraram da cidade velha. A madeira das plantas era menos substancial do que o bálsamo, e a maioria das árvores nativas da região já tinha apodrecido. Os moradores tinham o barro, mas não a habilidade para fazer tijolos, e as pedras estavam fora de questão. Então passaram o inverno em uma cabana de palha grande, cujas paredes e teto eram tecidas sob a supervisão de Maryann. Foi um novembro frio e miserável, mas qualquer pessoa pode manter seus dedos aquecidos tecendo. Houve uma semana em dezembro, quando os painéis da Câmara comum foram destruídas. Mas em janeiro já tinham aprendido a fazer uma trama que aguentava a pior nevasca, e em fevereiro a Câmara comum era completamente aconchegante. Tinha até um tapete de boas vindas em cada uma das portas.

Ninguém jamais lamentou admitir o rato inteligente na aldeia. Exceto, ocasionalmente, o marido do rato.

"Por que não tem jantar?", Perguntou ele.
"Eu passei o dia com a Senhora. Ela está chateada por Jimmie Lee. Jimmie era o seu preferido, você sabe. Seu pai não ajudou muito também. Ele falou o tempo todo sobre a ressurreição. Ele deve saber agora que ela não acredita no mesmo que ele."
"Uma pessoa precisa ter o que comer."
"Eu estou preparando Buddy. Tão rápido que eu puder. Buddy, há algo que..."
"O Pai está melhor?"
"...eu queria te dizer. Nunca sei como o seu pai está se sentindo. Ele está agindo como sempre. Ele nunca perde o controle. Neil será chicoteado hoje a noite...Eu suponho que você ouviu falar sobre isso?"
"Bem feito. Se ele tivesse deixado a porta fechada, a coisa toda não teria acontecido."
"Que coisa Buddy? Como uma pessoa pode ser queimada em cinzas no meio da floresta? Como pode?"
"Você me pegou. Não parece possível. E as vacas...Sete toneladas de carne transformadas em cinzas, em menos de dez minutos."
"Foi um raio?"
"Não, a menos que tenha sido o raio de Deus. Eu suspeito que foram saqueadores. Eles inventaram um novo tipo de arma."
"Mas por que eles iriam querer matar as vacas? Eles querem roubar as vacas e matar pessoas."
"Maryann, eu não sei o que aconteceu. Não me faça mais perguntas."
"Tem algo que eu queria dizer a você".
"Maryann!"

Melancolicamente, ela voltou a agitar o mingau de milho na panela de barro que se aninhava sobre as brasas, ao lado, envoltos em palha de milho, haviam três peixes que Jimmie Lee tinha pego de manhã na beira do lago.

A partir de agora, não haveria leite, nem manteiga para adicionar na farinha de milho, eles teriam de se contentar com mingau, com um ovo batido ocasionalmente. Uma das coisas agradáveis sobre estar casada com um Anderson sempre foi o alimento extra. A carne extra. Maryann não tinha que questionar de onde vinha, só tinha que receber o que a Senhora, esposa de Anderson, oferecia. Bem, pensou ela, ainda há porcos e galinhas e um lago cheio de peixes. O mundo não chegou ao fim. Talvez os caçadores possam trazer o suficiente, após a colheita para compensar os Herefords. Alguns anos atrás, a caça tinha sido tão boa que não se falou mais de virar nômades como os índios estavam acostumados. Então, os veados começaram a desaparecer. Houve um inverno de lobos e ursos, e então foi como nos velhos tempos. Exceto para os coelhos. Os coelhos podem comer a casca das plantas. Os coelhos eram bonitos, do jeito que mexiam seus narizes. Ela sorriu, pensando nos coelhos.

"Buddy", disse ela, "há algo que eu deveria falar com você."

Maryann estava falando sobre algo, que era quase um evento em si, mas a mente de Buddy depois de um dia como este, não parecia se concentrar nas coisas muito bem. Ele estava pensando em Greta novamente: a curva de seu pescoço quando jogara a cabeça para trás, nos degraus da igreja. A ligeira protuberância de seu pomo de Adão. E os lábios dela. De alguma forma ainda tinha batom. E se ela tivesse usado só para ele?
"O que você dizia?" Ele perguntou a Maryann.
"Nada. Oh, nada."

Buddy sempre pensou em Maryann como a esposa ideal para Neil. Ela tinha o mesmo queixo, a mesma falta de humor, a mesma impassível laboriosidade. Ambos tinham os dentes da frente como os de um coelho ou um rato. Neil, que era desprezivel, não encontraria defeito na passividade de Maryann. Com Maryann na cama, Buddy sempre lembrava da aula de ginástica no último ano, quando o Sr. Olsen obrigáva-os a fazer cinquenta flexões a cada dia. Mas, aparentemente, estas coisas não significavam muito para Neil.

Tinha sido um choque voltar e encontrar Greta Pastern casada com seu meio-irmão. De alguma forma ele estava contando encontrá-la esperando por ele.
Ela tinha sido uma parte importante de Tassel que ele tinha deixado para trás.
Havia sido uma situação delicada, as primeiras semanas. Buddy e Greta tinham mantido tudo menos segredo, durante o último ano de Buddy em Tassel. O namoro era discutido em toda esquina e cerca da cidade. Greta, a única filha do pastor, e Buddy, o filho mais velho do mais rico e maior fazendeiro do município, de toda Lake County.

Era de conhecimento de todos que Greta tinha passado de um irmão da família Anderson para outro, e havia a expectativa geral que algo ruim estava por acontecer.

Mas o filho pródigo que voltou para Tassel não era o mesmo filho pródigo que havia deixado-a. Entretanto, ele tinha perdido um terço do seu peso trabalhando nas turmas do Governo , e sido massacrado em seu caminho para Tassel a partir de Minneapolis, unindo-se a matilhas de salteadores ou combatendo-os conforme a ocasião oferecia. Até o momento que chegou a Tassel, ele estava muito mais interessado em salvar sua própria pele do que em ficar sob as saias de Greta.

Assim, além de ser um gesto humanitário, tinha sido prudente se casar com Mary Ann. Buddy casado parecia muito menos propenso a quebrar a paz da aldeia do que Buddy solteiro, e ele poderia passar por Greta na rua sem causar uma onda de especulação.

"Buddy?"
"Me fale mais tarde!"
"O mingau está pronto. è tudo."
Que boba, pensou. Mas uma cozinheira passável. Melhor ao menos, do que Greta, o que era um consolo.  
Ele despejou o mingau fumegante, amarelo em sua boca, demonstrando a Maryann que ele estava satisfeito. Ela o viu pegar duas colheres de mingau e os três peixes, então ela comeria o que restava.

Eu vou dizer-lhe agora, enquanto ele está de bom humor, ela pensou. Mas antes que ela pudesse dar uma palavra, Buddy foi até a saida da barraca.

"Deve estar na hora das chicotadas" disse ele.
"Eu não quero ver. Isso me deixa doente".

"Nada diz que uma mulher tem que ir." E com um meio sorriso para animá-la, ele saiu da tenda. Mesmo se ele fosse sensível (que ele não era), ele teria que estar lá, como todos os homens da aldeia acima dos sete anos de idade. Uma boa surra pode incutir quase tanto medo do Senhor no coração dos espectadores, como no coração do açoitado.

Na praça diante da Câmara, Neil já estava amarrado ao pelourinho. Suas costas nuas.
Buddy fora um dos últimos a chegar.
Anderson, com o chicote na mão, estava em prontidão. Demasiada rigidez em sua postura .. Buddy sabia o que devia estar custando ao velho continuar como se não fosse nada mais do que um fiasco, vinte chicotadas e mais nada.

Quando Anderson teve que chicotear Buddy, ou Neil, ele encarava a dor de forma imparcial, nem mais nem menos do que ele teria que distribuir a qualquer outra pessoa para o mesmo delito. Seu toque era tão preciso como um metrônomo. Mas esta noite, após a terceira chicotada, seus joelhos dobraram e ele desabou no chão. Houve um suspiro no círculo de espectadores, e em seguida, Anderson estava de pé novamente. A cor tinha fugido do seu rosto, e, dando o chicote a Buddy, sua mão tremia.

"Você continua", disse ele comandando.
Se o velho tivesse lhe entregue sua Python, ou seu cetro... Buddy não poderia ter ficado mais surpreso.

Maryann ouviu tudo de dentro da tenda, enquanto lambia a panela. Quando houve uma pausa, após o terceiro golpe, ela esperava que poderia vir a ser o fim.
Ela entendia, é claro que essas coisas tinham que ser feitas, mas não significava que ela tinha que gostar. Não era correto apreciar alguém ser ferido,
mesmo se você não gostasse dele.
As chicotadas recomeçaram.

Desejou que Buddy tivesse deixado mais comida. E agora, com o Guernseys todos mortos, não haveria mais leite!
Ela tentou pensar no que iria dizer quando ele chegou em casa. Ela decidiu por 'Querido, vamos ganhar um pacotinho de alegria'.
Era uma expressão tão agradável. Ela tinha ouvido primeiro em um filme há muito tempo. Eddie Fisher e Debbie Reynolds eram as estrelas.
Por causa dele, ela esperava que fosse um menino, e caiu no sono imaginando que seu nome deveria ser Patrick, o mesmo de seu avô? Ou Lawrence? Ela sempre amara esse nome, por algum motivo. Joseph era um nome muito bom.

Buddy? Ela imaginou se havia um Santo Buddy. Ela nunca tinha ouvido falar de um.
Talvez um santo Congregacional.



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