sábado, 9 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 5)


QUATRO
Adeus civilização ocidental



Em 22 de agosto de 1979, conforme instruções de 4 de julho de 1979, foram iniciados os preparativos para a incineração do artefato mostrada nos mapas como "Duluth- Superior"
As condições meteorológicas eram ideais: por 17 dias não houve chuva, apenas uma umidade no período da manhã.

"Duluth-Superior", foi esquartejada, e cada um destas seções foi dividida em três seções, como mostrado nas fotografias, tiradas da altura de 133 km.

A ação começou às 20:34 horas do dia 23 de agosto de 1979.
Este artefato fora construído sobre vários montes baixos de formação natural, topograficamente semelhante ao artefato "São Francisco". Aqui no entanto, os elementos principais de construção eram de madeira, que queimava rapidamente. A incineração começou nas áreas mais baixas de cada seção, e as correntes ascendentes de ar naturais agiram quase tanto como os aparelhos de queima.
Com exceção das seções II-3 e III-1 perto do lago antigo(ali por alguma razão, os elementos do artefato eram maiores e construídos de pedra e tijolo, em vez de madeira), a incineração completa foi alcançada em 3,64 horas.
Quando o trabalho em cada seção tinha sido realizado satisfatoriamente, o equipamento dessa seção foi transferido para as seções 11-3 e III-1 e esses pontos foram incinerados as 01:12 de 24 de agosto 1979.

Houve falhas mecânicas na secção IV-3. A avaliação de danos foi enviada para o Instituto de Suprimentos, e uma cópia da avaliação seguiu anexa.
Mamíferos que habitavam a periferia das Seções I, II, IV, fugiram para os campos adjacentes, devido à insuficiência de equipamentos e a abertura do terreno.
As estimativas atuais são de 200 a 340 mamíferos de grande porte, construtores de artefatos, e entre 15.000 a 24.000 pequenos mamíferos, dentro dos limites estabelecidos de erro provável.
Todos os insetos devoradores de madeira foram erradicados.
As operações foram iniciadas para rastrear os mamíferos que escaparam e outros mamíferos que vivem além dos limites da "Duluth-Superior", mas o equipamento é  limitado.
(Consulte o formulário de requisição 80Q-B: 15 de agosto de 1979, 15 maio de 1979, 15 fevereiro de 1979.)
Após a incineração, as cinzas foram niveladas nas concavidades do artefato, e as operações de semeadura foram iniciadas em 27 de agosto de 1979.

Com base nos resultados das amostras colhidas a partir de 12 de Maio de 1979 a 04 de julho de 1979, esta unidade, será removida seguindo uma rota ao longo da costa sul do Lago Superior.
(Consulte o mapa do "Estado de Wisconsin")
Amostragem indicou que esta área era a mais densamente povoada com mamíferos indígenas.
O obsoleto Modelo 37-MG esferoidal será utilizada para esta operação, devido à escassez dos modelos 39-MG e 45-MH. Apesar de seu volume, este modelo é adequado para o extermínio da vida de mamíferos, tais como são susceptíveis de encontrar. De fato, seu mecanismo termotropico é mais desenvolvido do que os dos modelos mais recentes. No entanto, em circunstâncias excepcionais, a operação do modelo 37-Mg, não pode, sem atraso, ser assumido pelo Banco Central de Inteligência desta Unidade.
O novo processo de incineração deverá proceder de forma mais lenta agora que este, o último dos artefatos chefe, foi nivelado e semeado. Os artefatos remanescentes são pequenos e espaçados. Apesar de que nossa amostra revelou que a maioria destes não são mais habitados, vamos, nos termos das instruções de 4 de Julho de 1979, efetuar a incineração completa.

Previsão para a conclusão do projeto: 02 de fevereiro de 1980.



"O que você acha disso, querida?" Perguntou ele.
"É muito bonito", disse ela. "E você fez isso só para mim?"
"Querida, o quanto eu sei, você é a única mulher no mundo."
Jackie sorriu um sorriso amargo, reservado para catástrofes sem esperança.
Ela fechou os olhos, não para não ver a cena, mas porque estava muito cansada, e sacudiu as cinzas de seu cabelo preto, curto e encaracolado.
Jeremias Orville abraçou-a. Não estava frio, mas parecia a coisa certa a fazer naquele momento, um gesto tradicional, como tirar o chapéu em um funeral. Calmamente, assistiu a cidade queimar.

Jackie estava esfregando o nariz ferido pela lã áspera de sua camisola.
"Eu nunca realmente gostei dessa cidade", disse ela.
"Ela nos manteve vivos."
"É claro, Jerry. Eu não quero ser ingrata. Eu só quis dizer que... "
"Eu entendo. É apenas o meu conhecido sentimentalismo."
Apesar do calor dos braços, ela estremeceu.
"Nós vamos morrer agora. Nós vamos morrer com certeza."
"Queixo para cima, Miss Whythe! Tally-ho! Lembre-se do Titanic!"
Ela riu. "Eu me sinto como Carmen, na ópera, quando ela vira a Rainha de Espadas." Ela cantarolou o tema, e quando a última nota pareceu muito baixa, murmurou: "Era uma produção amadora."
"Não é de admirar que se sinta deprimida, com o mundo queimando", disse ele em sua melhor forma David Niven. Então, com um autêntico sotaque do centro-oeste: "Ei, olha! Lá vai o Edifício Alworth!"

Ela virou-se rapidamente, e seus olhos escuros dançou na luz da fogueira. O Edifício Alworth, o mais alto em Duluth. Queimou magnificamente. O centro da cidade estava em chamas agora. À esquerda do edifício Alworth, o First American National Bank, depois de um início tardio, inflamou-se ainda mais
esplendidamente devido à sua maior massa.
"Ooowh," Jackie gritou. "Wheee!"
Eles tinham vivido nestes últimos anos no cofre de depósito seguro, no porão do First American National Bank. Seu precioso estoque de latas de conserva e frascos ainda estava trancado no cofre, e provavelmente o canário ainda estava na gaiola no canto. Tinha sido uma casa muito aconchegante, embora houvessem poucos visitantes e eles tiveram que matar a maioria das pessoas.
Essa sorte não podia durar para sempre.
Jackie estava chorando lágrimas de verdade.
"Triste?" ele perguntou.
"Oh, triste não...déracinér (solitária) um pouco. E irritada comigo mesmo, porque não entendo. "
Ela fungou ruidosamente, e as lágrimas foram todas embora. "É tão horrivel, como eles costumavam chamar de um Ato de Deus. Como se Deus fosse a fonte de tudo que é irracional. Eu gostaria de saber o porquê das coisas." Então, depois de uma pausa: "Talvez tenham sido os cupins?”
"Os cupins!" Ele olhou para ela incrédulo, e seu rosto começou a mostrar sua covinha quando mentia. Ela puxou sua perna. Eles cairam juntos na risada.

À distância, o edifício Alworth desmoronou. Além, no porto seco, um navio estava de lado e as chamas esguichavam para fora de suas vigias.
Aqui e ali, corriam sobre os escombros os mecanismos incendiários podiam ser vislumbrados trabalhando. Desta distância pareciam realmente inócuos.
Lembraram Jackie nada mais do que aqueles Volkswagens do início dos anos 50, quando todos Volkswagens eram cinza. Eles eram diligentes, limpos e rápidos.
"Devem estar vindo no nosso caminho", disse ele. "Eles vão limpar os subúrbios em breve".
"Bem, adeus, Civilização Ocidental", Jackie disse, acenando para o inferno brilhante sem medo. Pois, como se pode ter medo de Volkswagens?
Eles encostaram suas bicicletas ao longo da alameda Skyline de onde tinham visto a cidade em chamas. Subindo a alameda eles tinham que andar com as bicicletas, porque a corrente de Orville estava quebrada.
A alameda abandonada por anos, estava cheia de buracos e detritos. Descendo de Amity Park, eles mergulharam no escuro, longe da luz do fogo. Desceram lentamente apertando os freios.
Na parte inferior do morro, uma voz clara feminina dirigiu-se para fora da escuridão:
“Pare!”
Eles saltaram das bicicletas e atiraram-se no chão. Tinham praticado isso muitas vezes. Orville puxou sua pistola.
A mulher entrou na mira, os braços sobre a cabeça, as mãos vazias. Ela era muito velha,
ou seja, sessenta ou mais e de uma maneira desafiadora e inocente.
Ela chegou muito perto.
"Ela é um chamariz!" Jackie sussurrou.
Isso era óbvio, mas onde os outros estavam, Orville não poderia dizer.
Árvores, casas, coberturas, carros enguiçados. Cada um deles poderia fornecer uma cobertura adequada. Estava escuro. O ar estava enfumaçado.
Ele havia perdido, por enquanto, sua visão noturna, observando o fogo.
Determinado a parecer igualmente inocente guardou sua arma e levantou-se.
Ele ofereceu a mão para a mulher. Ela sorriu, mas não chegou mais próximo que isso.
"Eu não iria para lá meus queridos. Há uma espécie de máquina do outro lado. Uma espécie de lança-chamas, eu acho. Se vocês quiserem, eu vou lhe mostrar o melhor caminho."
"Como se parece esta máquina?"
"Nenhum de nós a viu. Acabamos de ver as pessoas queimarem ao chegaram ao topo da colina. Chocante."
Não era impossível, nem mesmo improvável, era igualmente possível e provável que estivessem sendo levados para uma armadilha.
"Um momento."  Acenou para a mulher. Sinalizou para Jackie ficar onde estava e caminhou até o suave declive do morro. Examinou os restos que os anos tinham amontoado lá e agarrou uma vareta que devia ter caído de um carrinho de lenha.
No meio da encosta parou atrás de uma das Plantas que tinha quebrado o asfalto. Ele atirou a vara por sobre a crista.
Antes de chegar ao topo de seu arco, foi consumida por chamas, e antes de cair fora de vista, a chama estava morta. A madeira tinha sido totalmente incinerada.
"Você está certa" disse ele, voltando para a mulher. "E nós agradecemos."
Jackie levantou-se.
"Nós não temos nenhuma comida" ela anunciou, menos para a velha do que para aqueles que supostamente estavam escondidos ao seu redor.
O hábito de desconfiança foi forte demais por um instante.
"Não se preocupem, meus caros, vocês passaram no primeiro teste. No que nos diz respeito,  vocês mostraram o seu valor. Se você soubesse quantas pessoas caminham direito para lá " Ela suspirou. "Meu nome é Alice Nemerov, R.N. Me chame de Alice". Então, quase como um adendo: “As letras significam que sou enfermeira, vocês sabem. Se você ficar doente, posso dizer-lhe o nome do que você tem. Mesmo prestar uma pequena ajuda, às vezes."
"Meu nome é Jeremias Orville, MS. Chame-me Orville. Minhas letras significam que eu sou um engenheiro de minas. Se você tiver uma mina, eu terei prazer de vê-la "
"E você, minha cara?"
"Jack Janice Whyte. Nenhuma letra. Eu sou uma atriz, pelo amor de Deus! Tenho as mãos finas, de modo que eu as usava para fazer um monte de comerciais de sabão. Mas eu posso atirar, e eu não tenho nenhum escrúpulo que eu saiba."
"Magnífico! Agora venha e conheça os outros lobos. Há um número suficiente de nós para um bando. Johnny! Ned! Christie! Todos vocês!Fragmentos de sombras se desprendam da escuridão e venham para a frente”.
Jackie abraçou Orville à cintura deliciada. Ela aproximou a boca de sua orelha, e ele se inclinou para ela sussurrar. "Sobreviveremos! Não é maravilhoso?"
Era mais do que eles esperavam.



Por toda sua vida Jeremias Orville tinha esperado por coisas melhores.
Ele esperava quando começou a faculdade em se tornar um cientista de pesquisa. Ao contrário, ele tinha ido para um trabalho confortável com mais segurança (parecia) em San Quentin. Tinha a esperança de deixar o emprego e Duluth, logo que economizasse 10.000 dolares, mas antes desta soma fabulosa, nem metade disso ser montada, estava casado e dono de uma bela casa suburbana (3.000 de entrada e dez anos para quitar o saldo). Ele esperava por um casamento feliz, mas até então (ele casou-se tarde, aos 30 anos) tinha aprendido a não esperar demais.

Em 1972, quando as Plantas vieram, estava a ponto de transferir toda essas esperanças para os ombros delgados de seu filho de quatro anos de idade. Mas Nolan mostrou-se incapaz até de suportar o peso da sua própria existência durante a primeira onda de fome que atingiu as cidades, e Theresa durou apenas um mês ou dois mais. Ele previra sua morte: pouco antes dela morrer, ele a abandonara.

Como todo mundo, Orville fingiu odiar a invasão (nas cidades nunca se esperava nada mais que isso), mas secretamente ele adorou, ele não queria mais nada. Antes da invasão, Orville havia parado no limiar de uma cinza, barriguda, meio idade e de repente, uma vida nova vida - havia sido jogada para ele.

Ele (e qualquer outra pessoa que sobreviveu) aprendeu a agir sem escrúpulos como os heróis nas revistas de aventura baratas que havia lido quando garoto, às vezes tão sem escrúpulos como os vilões.

O mundo poderia morrer. Não importa: ele estava vivo novamente.
Houve a intoxicação, enquanto durou, de poder. Não o poder bacana de luvas caras que havia experimentado antes, mas uma nova espécie (ou mais antiga) de poder que vinha de ter a força para perpetuar a desigualdade extrema. Colocando a coisa de forma mais clara, ele trabalhara para o Governo. Primeiro, como chefe de uma turma de trabalhos forçados, mais tarde (dentro de poucos meses, pois o ritmo dos acontecimentos estava acelerando), como o diretor de operação da força de trabalho de toda cidade. Às vezes ele se perguntava qual a diferença que havia entre ele e, digamos, um Eichmann, mas ele não deixou que suas especulações interferissem em seu trabalho.

Na verdade, foi sua imaginação que deixou-o ver a insustentabilidade da posição no Governo e então fez os preparativos adequados para o colapso. Os agricultores não podiam ser pressionados muito mais longe. Eles tinham o hábito de independência e ressentiram-se com o parasitismo das cidades. Eles se revoltariam para manter a sua pouca comida para si mesmos. Sem rações para os escravos na cidade (é isso que eles eram - escravos) seria ou a revolta ou a morte. Em qualquer caso, eles morreriam. Então (depois das adequadas ficções burocráticas e subornos), Orville havia provisionado a sua fortaleza no porão do First American National Bank e aposentou-se da sua vida de serviço público.

Havia inclusive um romance que tinha progredido (ao contrário de seu casamento), exatamente como um romance deve progredir: um namoro fortemente contestado, declarações extravagantes, febres, ciúmes, triunfos... oh incessantes triunfos, e acompanhado sempre do afrodisíaco perigo mortal que cobria becos e lojas saqueadas da cidade que morria.

Por três anos, ele esteve com Jackie Whythe e parecia não mais do que um fim de semana de feriado.

Se era assim para ele, por que não seria o mesmo para os outros sobreviventes também? Será que todos não sentiam essa alegria clandestina em seus corações, como os adúlteros juntos em segredo em uma cidade estranha?
Deve ser assim, pensou ele. Tem que ser assim.

Além da turística Brighton Beach, as plantas cresciam mais densas na expansão urbana diluida. O grupo conhecido casualmente tinha vindo do território selvagem, onde poderiam ficar seguros. Conforme se deslocavam para nordeste na Rota 61, a penumbra da cidade em chamas atrás deles desapareceu, e à pouca luz das estrelas desaparecia devido a folhagem. Eles avançaram em total escuridão.

Moviam-se rapidamente, no entanto, apesar das Plantas terem quebrado a estrada, não tinham bloqueado o caminho. Não era como se precisassem lutar através do matagal antigo que crescia por aqui: os galhos não feriam os rostos, nem espinhos machucavam os pés de cada um. Sequer haviam mosquitos, uma vez que as Plantas tinham drenado os pântanos próximos. Os obstáculos só eram ocasionais
buracos e, às vezes, onde as Plantas haviam quebrado o asfalto suficiente para avançar a erosão, um canal.

Orville e os outros seguiam a rodovia até que a manhã brilhou cinzenta através da massa da floresta, então se viraram em direção à luz, em direção ao lago, que tinha sido visível certa vez para os carros que trafegavam por esta estrada.
Parecia perigoso seguir pela Rota 61 adiante, uma extensão da cidade e sujeita ao mesmo destino da cidade. E também eles estavam com sede.
Se a sorte estivesse com eles, poderiam até conseguir peixes no lago.
A rota havia sido forçada para eles pelas circunstâncias. Teria sido mais sábio, com o inverno chegando, mover-se para o sul, mas isso teria significado circundar a cidade em chamas, e de modo algum valeria a pena. Não havia água para o oeste, e a leste havia muita água. O Lago Superior, embora diminuído, ainda era um reservatorio eficaz.

Talvez uma das vilas à beira do lago tivesse barcos utilizáveis, e no caso eles poderiam virar piratas, como a frota de rebocadores tinha se tornado três anos antes, quando Duluth Harbor secou. Mas a melhor direção provável era a de continuar para nordeste ao longo da margem do lago, saqueando as fazendas e vilas e se preocupar com o inverno, quando o inverno chegasse.

O Lago Superior fervilhava com peixe-lua. Cozidos, eram bons mesmo sem sal. Depois o grupo discutiu, numa tentativa de otimismo, sua situação e perspectivas. Não havia muito a decidir: a situação ditou seus próprios termos. A reunião foi na verdade, menos uma discussão do que uma competição entre os dezesseis homens para ver quem iria assumir a liderança. Exceto pelos casais, eles não conheciam uns aos outros. (Havia pouca vida social nesses últimos anos, a única comunidade que sobrevivera nas cidades fora bandos de pilhagem, e se algum destes os homens esteve em um bando desses antes, não estava falando sobre isso agora.) Nenhum dos candidatos para a liderança parecia disposto a discutir os detalhes de sua própria sobrevivência. Tal reticência era natural e conveniente: ao menos eles não haviam se tornado embrutecidos a ponto de exultar sua depravação e se gabar de sua culpa. Eles tinham feito o que tinham feito, mas eles não estavam necessariamente orgulhosos disso.

Alice Nemerov salvoou-os deste constrangimento, narrando sua própria história, que era totalmente livre de aspectos desagradaveis. A partir dos primeiros dias da fome ela tinha estado no hospital principal,  vivendo na ala de isolamento.
O pessoal do hospital vinha negociando suas habilidades e seus suprimentos médicos conseguindo sobreviverem até mesmo no pior dos tempos, exceto, aparentemente, no fim. Os sobreviventes eram principalmente enfermeiros e estagiários, os médicos tinham se retirado para suas casas de campo, quando, após o fracasso do Governo, a anarquia e a fome passaram a dar as cartas na cidade. Nos últimos anos, Alice Nemerov tinha sobrevivido, escondendo-se em sua inocência e com a certeza de que suas habilidades seriam um passaporte, mesmo entre os sobreviventes mais pobres, segura no conhecimento de que ela tinha ido muito além do ponto onde ela precisasse se preocupar com o estupro. Assim, ela veio a conhecer muitos de seus colegas refugiados, e efetuado suas apresentações com calma e tato. Ela contou também de outros sobreviventes e expedientes curiosos pelos quais eles mal se salvaram da inanição.

"Ratos?" Jackie perguntou, tentando não parecer hiper delicada em sua repulsa.
"Ah, sim, minha cara, muitos de nós tentamos isso. Eu admito que foi muito desagradável."
Vários de seus ouvintes balançaram a cabeça em concordância.

"E haviam canibais também, mas eles eram pobres almas culpadas, não como você acha que um canibal seria. Eles estavam sempre pateticamente ansiosos por falar, eles viviam muito sozinhos. Felizmente, nunca me deparei com um quando estava com fome, ou o meu sentimento poderia ser diferente."

Como o sol elevado do meio-dia, o cansaço fez baixarem as guardas e as pessoas passaram a falar de seu próprio passado. Orville percebeu pela primeira vez que ele não era bem o monstro injusto que ele às vezes pensava de si mesmo. Mesmo quando revelou que tinha sido um chefe de equipes de trabalho do Governo, seus ouvintes não pareceram indignados ou hostis. A invasão tinha transformado todos em relativistas: tolerantes uns aos outros, como se fossem delegados na convenção de antropólogos culturais.

Estava quente, e eles precisavam dormir. A quebra das barreiras da solidão tinha cansado seus espíritos, quase tanto como a marcha tinha cansado seus corpos.
O bando estabelecera sentinelas , mas um deles deve ter dormido.
A oportunidade para a resistência já tinha passado antes que se percebesse.

Os agricultores, seus ossos mal-vestidos de carne como a carne fosse jeans rasgados, estavam em desvantagem de três para um, mas os agricultores foram capazes, enquanto os lobos dormiam (cordeiros, talvez não seria melhor dizer?) de confiscar a maioria das armas e impedir a utilização do resto.
Com uma exceção: Christie, a quem Orville tinha pensado que ele poderia vir a gostar, conseguiu atirar em um fazendeiro, um homem velho, na cabeça.
Christie foi estrangulada.

Tudo aconteceu muito rápido, mas não rápido demais para Jackie dar um último beijo em Orville. Quando ela foi puxada para longe dele, rudemente, por uma agricultora jovem que parecia melhor alimentada do que a maioria, ela estava sorrindo o sorriso especial, amargo, reservado apenas para ocasiões como aquela.


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