sábado, 18 de junho de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 15)



TREZE
CUCO, JUG-JUG, PU-WE, TO-WITTA-WO!



Há pessoas que não conseguem gritar mesmo quando a ocasião pede enfaticamente para gritar.
Qualquer sargento pode dizer aos homens, bons soldados, que quando correrem para enfiar uma baioneta nas vísceras de um boneco de serragem, devem fazê-lo com um tipo qualquer de grito de guerra, ou na melhor das hipóteses imitando um, um hesitante Morra! Morra! Morra! 
Não é que estes homens não tivessem as emoções primordiais de ódio e sede de sangue, mas se tornaram muito civilizados, desligados da experiência de uma fúria incontrolável e pura.
Talvez uma verdadeira batalha desperte isso neles, talvez não.
Há mais emoções primordiais, mais elementares para a sobrevivência, do que o ódio e a sede de sangue, mas elas também podem ser silenciadas, com maneiras civilizadas.
Apenas situações extremas podem libertá-las.

Orville Jeremiah era um homem muito civilizado. Os últimos sete anos o libertara de muitas formas,  mas ele não havia apagado a sua civilidade até muito recentemente, quando os acontecimentos lhe ensinaram a desejar a consumação de sua vingança acima de sua própria felicidade e segurança.
Era um começo.
Mas quando estava ao lado de Flor, o machado em sua mão invisível, ele próprio invisível, ouvindo os gritos que o medo arrancava de sua garganta, a emoção mais primordial do amor venceu, quebrou o Jeremias civilizado. Deixando cair a arma, ficou de joelhos e começou a beijar o corpo jovem que agora era a coisa mais importante e bonita do mundo.

"Flor" ele chorou de alegria. "Flor, Flor!"
E continuou sem sentido repetindo o nome dela.
"Jeremias! É você, meu Deus, eu pensei que era ele!"
E ele ao mesmo tempo: "Como eu poderia ter amado um fantasma, sem corpo, quando tudo isso...perdoe-me! Você pode me perdoar?"
Ela não conseguia entendê-lo. "Perdoar você!" Ela riu e chorou e eles disseram muitas coisas um ao outro sem pensar, sem compreender mais do que o fato de ainda não assimilarem que estavam apaixonados.

A paixão tende a ser, se não completamente inocente, lenta.
Orville e Flor não podiam apreciar a felicidade de olhar por horas um nos olhos do outro, mas a escuridão permitia tanto quanto negava. Eles namoraram. Eles chamaram um ao outro pelos nomes carinhosos de romances colegiais (nomes que Orville não havia usado com Jackie, a não ser, quando as mãos de Orville caíram sobre ela, com expressões mais grosseiras), e estes querido, estes meu doce, minha amada, pareciam expressar filosofias de amor.
Eventualmente algumas palavras de senso comum perturbavam a solidão perfeita de seu amor, como seixos jogados em um lago tranqüilo.

"Os outros devem estar procurando por mim" disse ela. "Tenho que avisar que estou bem."
"Sim, eu sei, eu estava ouvindo Alice falar com você."
"Então você sabe que papai queria isso. Ele ia dizer isso quando..."
"Sim, eu sei."
"E Neil..."
"Eu sei isso também. Mas você não precisa se preocupar com ele agora."
Inclinando-se ele beijou o lóbulo macio de sua orelha.
"Não vamos falar sobre isso ainda. Posteriormente faremos o que temos de fazer."
Ela empurrou Orville para longe dela.
"Não Jeremias. Ouça-me, vamos lá para fora, para algum lugar longe de todos eles, do ódio, do ciúme. Algum lugar onde eles nunca vão nos encontrar. Podemos ser como Adão e Eva e pensar em novos nomes para os animais. Há um mundo todo lá fora."

Ela não disse mais nada, pois percebeu que havia mesmo um mundo todo lá fora. Estendeu uma mão para alcançar Orville puxando-o de volta e para empurrar o mundo para longe por um pouco mais, mas em vez da carne viva de Orville sua mão encontrou o quadril fraturado de Alice.
Ela sussurrou. "Isso não pode terminar aqui!"
"Não vai acabar" prometeu ele a seus pés. "Nós temos a vida inteira pela frente. Uma vida dura. Na minha idade, eu deveria saber."
Ela riu. Então para o mundo inteiro ouvir, ela gritou:
"Estamos aqui em baixo. Vá embora. Nós vamos encontrar nosso caminho de volta por nós mesmos."
Mas Buddy já havia encontrado-os, entrando no tubérculo por uma passagem lateral.
"Quem é esse com você?" Perguntou ele. "Orville é você? Eu deveria te dar uma surra por isso! Você não sabe que o velho está morto? Que inferno!"
"Não Buddy, você não entende." Ela disse. "Está tudo bem, Orville e eu estamos apaixonados."
"Sim, eu entendo tudo muito bem. Ele e eu vamos ter uma conversa sobre isso em particular. Eu só espero ter chegado aqui antes dele poder colocar o seu amor à prova. Pelo amor de Cristo Orville, esta menina tem apenas catorze anos! Ela é jovem o suficiente para ser sua filha. Ela é jovem o suficiente para ser sua neta."
"Buddy! Não é assim!" Flor protestou. "É o que o pai queria para nós. Ele disse para Alice e depois..."
Buddy avançou com a sua voz como um guia, tropeçando no corpo da enfermeira.
"Inferno!"
"É Alice. Se você apenas me ouvisse!" 
Flor rompeu em lágrimas que a frustração misturava com tristeza.

"Sente-se" Orville disse "e cale a boca por um minuto. Você está tendo conclusões erradas, e há um monte de coisas que você não conhece. Não discuta, Buddy, ouça!"
"A questão então não é o que deve ser feito no caso de Neil, mas quem pode fazer isso" concluiu Orville. "Eu não acho que deveria ter que suportar esta responsabilidade, nem você. Pessoalmente eu nunca gostei da forma arrogante de seu pai de ser juiz, júri e escrever as leis. É uma honra ter sido nomeado como seu sucessor, mas uma honra que prefiro declinar. Este é um assunto para a todos opinarem".
"Concordo. Eu sei que se eu fizesse...o que tem que ser feito, eles diriam que foi por motivos pessoais. E isso não seria verdade. Eu não quero nada que ele tem. Não mais. Na verdade, a única coisa que eu quero agora é voltar e ver Maryann e meu filho".
"Então a única coisa a fazer é definir sobre como encontrar os outros. Flor e eu podemos ficar fora do caminho até que o assunto tenha sido resolvido. Neil pode ser rei por um dia, mas ele vai ter que dormir em algum momento, e haverá tempo suficiente para depô-lo."
"Tudo bem. Nós vamos voltar agora, mas não ao longo da minha corda. Seria muito fácil de se deparar com Neil dessa maneira. Se subir as videiras da raiz por onde veio, não haverá perigo de atravessar seu caminho."
"Se Flor concordar com isso, eu também concordo.”
“Jeremis seu velho estranho, eu posso subir essas raízes duas vezes mais rápido que qualquer outro de trinta e cinco anos de idade, e duzentos quilos".
Buddy ouviu o que ele supôs ser um beijo e apertou os lábios em desaprovação.
Embora em teoria, ele concordasse com tudo o que Orville havia dito em sua própria defesa e na de Flor, os tempos haviam mudado, o casamento precoce era agora algo positivo à maneira antiga, e Orville (este tinha sido o argumento de Flor) era certamente o mais cobiçado dos sobreviventes, e tinha a benção póstuma de Anderson para sua união. Apesar de todas essas irrefutáveis razões, Buddy não podia deixar de sentir um certo desgosto pela coisa toda. Ela ainda é uma criança, disse para si mesmo e isso para ele, era um fato indiscutível. Mas engoliu seu desgosto como uma criança engole alguns vegetais a fim de sair dali e fazer algo mais importante.
"Vamos dar o fora" disse ele.

Para retornar à raiz primária por onde Flor e Orville tinham descido era necessário voltar ao longo do caminho que Buddy tinha vindo e em seguida por uma ramificação angulosa da raiz, tão estreita que mesmo engatinhando era difícil.
Mas este foi apenas um prenúncio das dificuldades que enfrentaram para subir na raiz vertical.
As vinhas através da quais eles esperavam subir estavam cobertas com uma fina película de limo, a mão não conseguia agarrá-los com a firmeza para não escorregar. Somente nos pontos nodais, onde as videiras  formavam uma espécie de estribo, é que se podia conseguir uma pegada segura, e não era sempre certo que haveria uma outra intersecção nodal. Tinham sempre que recuar e refazer o caminho ao longo de uma rede de videiras diferente. Ainda mais frustrante é que os pés (embora nus) estavam constantemente a escorregar destes estribos improvisados.
Era como tentar subir uma escada de corda untada, e com degraus faltando.

"Não parece que estamos tentando nos matar?" Buddy perguntou retoricamente. "Eu não sei de onde esse limo está vindo, mas isso não parece que vai diminuir. Quanto mais alto formos, mais chances de quebrar o pescoço se cairmos. Por que não voltamos pela minha corda, afinal? Não é provável que vamos encontrar com Neil, e se o fizermos, basta não deixá-lo saber o que conversamos. Eu prefiro o risco de encontrá-lo a enfrentar outros cem metros por esta coisa untada."

Isto pareceu a atitude mais sensata, e eles voltaram para o tubérculo. A descida foi fácil como escorregar em cano liso. Seguindo a linha de Buddy por uma encosta suave, eles notaram que aqui também as videiras estavam umidas e escorregadias debaixo de seus pés descalços. Sentindo a camada de vinhas, Orville descobriu que um pequeno riacho do lodo descia a ladeira.

"O que você acha que é isso?" Buddy perguntou.
"Acho que a primavera finalmente chegou" Orville respondeu.
"E esta é o curso da seiva! Eu reconheço a sensação e o cheiro agora, oh, como conheço esse cheiro!"
"Primavera" Flor disse. "Nós vamos poder voltar à superfície!"

A felicidade é contagiosa (e não estavam lá todos os motivos para uma jovem ser feliz em qualquer caso?) e Orville citou parte de um poema:
"Primavera, a doce Primavera, o presente do ano ao rei;
Então cada coisa floresce, as empregadas na roda dançam,
O frio não fere, os lindos pássaros cantam,
Cuckoo, jug-jug, pu-we, to-witta-wo!”  (n.t.: SPRING de Thomas Nashe)
"Que lindo poema!" disse ela pegando sua mão e a apertando.
"Um monte de bobagem!" Buddy disse "...Cuckoo, jugjug, pu-we, to-witta-wo!"
Os três riram alegremente.
O sol já parecia estar brilhando sobre eles, e nada mais era necessário para fazê-los rir de novo, só que um deles repetisse as velhas e tolas rimas elizabetanas.



Cerca de dois mil metros acima de suas cabeças, a terra revivia, sob a influência do sol brilhante, o fato que havia passado o equinócio. Mesmo antes das últimas manchas de neve terem derretido do lado sul das pedras, as folhas das Plantas grandes desfraldaram para receber a luz, começando sem mais delongas a executar seu trabalho como se outubro fora ontem.
Exceto pelo barulho das folhas estalando ao se abrirem (o que acabou em um dia), era uma primavera silenciosa. Não haviam pássaros a cantar.
As folhas gritavam famintas às hastes, secas devido ao frio inverno do norte, e as hastes gritavam famintas às raízes, onde a seiva aguardava. As folhas, necessárias para fazer o alimento novo, começavam a ferver por capilares inumeráveis. Onde esses capilares tinham sido quebrados pela passagem do homem, a seiva jorrava para fora e espalhava-se sobre as vinhas que cobriam as cavidades das raízes. À medida que mais e mais a seiva era derramada através das artérias da Planta que despertava, formava riachos, fundindo-se com outros riachos, gerando pequenos riachos, córregos e estes corriam para inundar as profundezas das raízes. Em depressões em que os capilares estavam ainda intactos, a seiva fora reabsorvida, mas em outros lugares, os níveis destes riachos subiam mais e mais inundando as raízes, como esgotos no repentino degelo de Março.
Em ambos os hemisférios, a Planta estava chegando ao final de uma longa estação e agora, em intervalos regulares sobre a terra verde, descendo dos céus primaveris, esferas imensas brilhantes, bombardeando e esmagado várias Plantas sob seu peso.
Vistos a distância, a paisagem se assemelhava a um leito de trevos cobertos com bolas cinzentas de basquete. Estas bolas de basquete em algumas horas ao sol, se partiam a partir das aberturas em suas bases e centenas de cílios exploratórios, cada um dos quais movendo-se para a Planta mais perto e então como eficazes brocas pouco a pouco começavam a perfurar o caule lenhoso na cavidade raiz abaixo. Quando uma passagem satisfatória tinha sido aberto, o cílio era atraído de volta para a bola de basquete cinza.
A colheita estava sendo preparada.




Neil tinha passado três vezes ao círculo de corda que ele havia feito para interceptar Buddy, e estava começando a ter a sensação de que havia sido pego em sua própria armadilha (embora como tinha acontecido, ele ainda não entendia).
Então como temia, Buddy podia ser ouvido retornando ao longo da raiz. Flor e Orvifie estavam com ele, todos rindo! Dele? Ele tinha que se esconder, mas não havia onde se esconder, e ele não queria se esconder de Flor. Então disse: "Ah, oi."
Eles pararam de rir.
"O que você está fazendo aqui?" Buddy perguntou.
"Bem, veja você, uh...Esta corda aqui,...Não, não é isso."
Quanto mais ele falava, mais confuso ficava, e  Buddy mais impaciente também.
"Ah, não importa. Venha. Encontrei Flor. Orville também. Vamos nos juntar aos outros agora. É primavera. Você não percebeu o lodo – Hei – o que é isso?"
Ele tinha encontrado o ponto onde o fim de sua própria corda estava atada ao seu próprio meio.
"Essa certamente não é a interseção de onde partimos. Eu me lembro que eu tinha ido para baixo numa raiz tão pequena como esta."
Neil não sabia o que fazer. Ele queria bater na cabeça de seu irmão xereta, é o que ele queria fazer, e atirar em Orville apenas para ver a  explosão de seus miolos.
Mas ele sentiu que isso era melhor ser feito longe de Flor, que não entenderia.
Uma conversa sussurrada estava acontecendo entre Buddy, Orville e Flor.
Então Buddy disse: "Neil, você fez..."
"Não! Eu não sei como...aconteceu sozinho! Não foi minha culpa!"
"Bem, você é um burro turrão!" Buddy começou a rir. "Porque, se você tivesse que cortar um galho de uma árvore, eu juro que você iria se sentar no lado errado ao fazê-lo. Você amarrou a minha linha em um círculo, não?"
"Não Buddy, juro por Deus! Como eu disse, eu não sei como..."
"E você não trouxe sua própria linha pela qual poderia voltar. Oh, Neil, como você fez isso?"
Orville e Flor se juntaram ao riso de Buddy.
"Oh, Neil!" Flor gargalhou. "Oh, Neil!"
Isso fez com que Neil se sentisse bem, ouvir Flor dizer o nome dele assim, e ele começou a rir junto com todos eles.
Ele era a piada!
Surpreendentemente parecia que Buddy e Orville não iam fazer oposição. Talvez soubessem o que era bom para eles!
"Parece que vamos ter que encontrar nosso caminho de volta da melhor forma possível" Orville disse com um suspiro quando estavam todos rindo. "Neil, você gostaria de nos guiar?"
"Não" disse Neil novamente sombrio e tocou o Python em seu coldre por garantia.
"Não, eu vou ser o líder, mas vou na retaguarda."

Uma hora depois, eles encontraram um beco sem saída, e sabiam que estavam completamente perdidos. Não era mais possível quebrar os vasos capilares com os braços. Estavam inchados de seiva e muito resistentes.
Foram obrigados por isso a ficar estritamente dentro dos limites de caminhos já abertos. Graças as explorações de Anderson, havia muitos destes. Demais deles.
Orville resumiu a situação: "Ao subsolo meus queridos! Vamos ter que tomar outro elevador para chegar lá."
"O que você disse?" Neil perguntou.
"O que eu disse foi que..."
"Eu ouvi o que você disse! E eu não quero que você use essa palavra de novo, entendeu? Tenho que lembrar para vocês quem é o líder aqui, hein?"
"Que palavra, Neil?" Flor perguntou.
"Meus queridos!" Neil gritou.
Neil era sempre capaz de gritar quando sentia que a ocasião pedia isso. Ele não era civilizado, e o primitivol estava muito próximo à superfície de sua mente. Parecia crescer próximo dela, o tempo todo.



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