sexta-feira, 17 de junho de 2011

Entrevista com Bruce Sterling




Gunhead: Sou um estudante e me considero um ciberpunk de segunda geração. Deram-me a missão de entrevistar alguém de uma subcultura para um trabalho acadêmico e percebi que seu nome estava sempre entre os mais citados na comunidade ciberpunk.

Bruce Sterling: O que tem em mente?

Gunhead: Uma das coisas que a comunidade tem falado muito é sobre a possibilidade da vida moderna se aproximar tanto da ficção ciberpunk, que o gênero literário se tornaria obsoleto. Qual sua opinião sobre isso, e como você acha que isso está afetando ou afetará a literatura ciberpunk?

Bruce: Bem, não há realmente como a vida moderna ficar semelhante à literatura, é o que diz Rudy Rucker visionário ciberpunk. O mundo não está ficando mais parecido com um romance de Pat Cadigan. Não vejo isso como um problema sério. Nenhum movimento literário se tornou obsoleto por suas histórias serem muito realistas.

O mundo parece muito com uma ficção ciberpunk na Rússia moderna, e lá nunca ninguém ligou para ciberpunk. Eu diria que as pessoas mais interessadas em ciberpunk hoje são provavelmente do Brasil e da África do Sul. Eu suspeito que seja porque suas sociedades atingiram um estágio de transição técnica, onde as pessoas se surpreendem e se excitam ao ver um monte de ciber-coisas acontecendo.

Pessoas de outros países que poderiam ter sido escritores cyberpunk já não se importam muito sobre nada "ciber." Eles provavelmente não tem muito tempo para escrever novelas. É preciso um determinado conjunto de circunstâncias históricas para alimentar um movimento como esse. Quando revistas, jornais e livrarias estão obsoletos, quando máquinas de escrever manuais são desconhecidas, você pode ser levado a achar que a cultura ciberpunk, criada no início de 1980, é em si mesma obsoleta. Não que os livros fossem de alguma forma proféticos, é que as circunstâncias mudaram.

Gunhead: Então neste caso, você vê o resto da subcultura como a moda, os filmes e a música, sobrevivendo sem este componente literário, ou você acha que terão que inventar algo novo?

Bruce: Bem, claramente o componente literário está em menos apuros do que os filmes e a música. Todas essas empresas que tinham raízes em meios analógicos de produção e distribuição tem problemas semelhantes.

A tendência é para uma cultura que não está nem mesmo ciente que é uma cibercultura, já que uma vez que tudo é ciber, nada é ciber, e o ciber fica banal e chato.

Escritores de ficção científica têm geralmente fortes interesses que não são tradicionalmente literários. Se você for ver, o que, digamos Cory Doctorow, é claro que ele não é um "autor típico”, mesmo assim escreve best-sellers. Neal Stephenson gosta de trabalhar em laboratórios de foguetes. William Gibson desenvolve e vende roupas. Eu passo meu tempo com designers industriais e pessoas que trabalham com realidade aumentada. É muito difícil dividir uma cibercultura em seus componentes. É tudo misturado.

O steampunk parece lidar com isso melhor. Há alguns romancistas steampunk, mas eles não são realmente considerados líderes criativos daquela cena. São as pessoas com hobbies tecnológicos, social-networkers que ditam o ritmo do steampunk.

Gunhead: Se essa é a tendência que a massa, o público em geral está seguindo, então não seria a reação da contracultura, óbvio, ganhar a consciência do 'ciber’? Hoje em dia, quanto mais você navega na rede mais poder você pode exercer, e temos visto algumas revoluções por conta disso... Você acha que ciberpunk se tornará mais sobre política e aspectos técnicos, como ocorre em Pequeno Irmão (Little Brother) de Doctorow?

Bruce: Não, não mesmo. A contracultura é como a sombra de uma cultura, não é o oposto de uma cultura. É como imaginar uma contracultura sem eletricidade. Uma vez que você obtêm energia elétrica confiável, não é mais revolucionária (como a eletricidade foi para Lênin). 

Pequeno Irmão é principalmente sobre sindicatos. Talvez estes sindicatos industriais antiquados, que têm estado em declínio durante décadas, voltem como redes sociais radicais. Eu não diria que Cory está de alguma forma prevendo o inevitável, mas parece ao menos plausível.

Ciberpunks sempre tiveram um ponto fraco quanto à questão dos dissidentes da Europa oriental nos anos 80. Era tipo uma espécie de aliança literária obscura do período. No final desta década havia revoluções e as redes samizdat (prática de tornar público material censurado), mas nunca "exercendo seu poder".

É muito claro hoje que temos grandes divergências entre a antiga estrutura formal de poder - "a comunidade internacional" - e a da internet mundial, que é mais como um flash mob (multidão que aparece em locais pré-determinados e realiza uma atividade e se dispersa em poucos minutos). Haverá muito mais disso por ai, pirotecnia política, mas não faz muito sentido chamar isso de uma situação “ciberpunk moderna”. Os adolescentes líbios no Facebook que querem acabar com Gadaffi, esses caras são os revolucionários modernos, mas não são ciberpunks.

Gunhead: Interessante. Enquanto a comunidade vem tentado constantemente definir o termo ciberpunk e aprender a lidar com a aridez de livros ciberpunk, outros aspectos como a moda e o cinema continuam a evoluir. Bandas e músicos estão descrevendo-se como ciberpunks mais agora do que antes, parece que estamos caminhando na direção de uma subcultura tradicional. Você acha que vai decolar com a garotada, da mesma maneira que dizem a subcultura gótica fez?

Bruce: Não acho. O gótico já era bem sucedido, já tinha elementos comportamentais antigos de contracultura, é mais correto dizer que o gótico persistiu. Nunca houve muitos garotos ciberpunks. Os caras que inventaram o ciberpunk na década de 80 eram adultos em seus vinte e tantos anos, trinta até. Os adolescentes liam, mas ela não foi criada por adolescentes.

Brian Eno disse que a cultura popular evolui em um cenário a partir de uma adaptação mal compreendida do que está acontecendo em algum lugar distante. Existe um caso clássico com Lauren Beukes, que é uma jornalista de música de Cape Town, que após ter uma filha, decidiu tentar escrever romances ciberpunk ('Moxyland' se passava na Cidade do Cabo do futuro e 'Zoo City', uma história de ação que se passa em Johannesburg e venceu o prêmio Arthur C. Clarke de 2011). Lauren começou realmente escrevendo ciberpunk, mas também sobre "township tech", que é um tipo de tecno-music da África do sul. É impossível de prever que algo que foi inventado em Vancouver, Austin ou San Francisco, encontre eco na Cidade do Cabo ou São Paulo ou Belgrado. Pode acontecer ou não, ou pode acontecer em outro tempo e ter outro nome. Muitos críticos vêem o ciberpunk como um eco distante e tardio da Ficção Científica New Wave londrina Talvez tenha sido.

Gunhead: Talvez. Obrigado pelo seu tempo Bruce, foi um prazer conversar com você. Algo a dizer para o pessoal do Cyberpunk Review?

Bruce: Bem, é sempre bom compreender as ferramentas e as abordagens - o que as pessoas criativas estão fazendo e como o fizeram - então colocar coisas legais de que você gosta tudo junto e dizer: "Eu vou fazer desse jeito".
 

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