quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Fangoria 4 (1980)
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Revista
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Fangoria 3 (1979)
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Revista
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Os Vampiros Modernos da Literatura Brasileira
Bate-Papo com: Adriano Siqueira , Georgette Silen, J.Modesto, Nelson Magrini, Laura Elias e Juliano Sasseron.
Local: Livraria Saraiva MegaStore dia 16 de Outubro de 2010 - às 19hs Shopping Center Norte - Travessa Casalbuono, 120 - loja 414 Vila Guilherme - Sao Paulo - SP - CEP: 02047-050
Fangoria 2 (1979)
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, Revista
domingo, 10 de outubro de 2010
Pamela Sargent
Pamela Sargent (20 de Março de 1948) nasceu em Ithaca, New York (EUA).
Feminista, editora e escritora de Ficção Científca, estudou na universidade de State em Birghmton onde se formou em filosofia clássica.
Quando Pamela Sargent era jovem, encontrou duas pessoas que teriam um grande impacto na escolha de sua carreira. Uma delas era sua baby-sitter Audrey, e a outra, Bobby Swayze, um vizinho seu. Audrey era uma estudante na Universidade de Cornell e mais tarde se tornou a primeira mulher a se formar em arquitetura, apesar da preocupação de seus pais e de seus professores sobre "arquitetos mulheres".
"Meus pais não poderiam ter escolhido um modelo melhor para mim, nem se tivessem tentado", Sargent declarou em sua autobiografia. Bobby Swayze, foi a primeira pessoa a revelar o mundo da ficção científica para ela." Era fã da série de televisão "Capitão Vídeo" e despertou o interesse da jovem para aquele gênero.
Bem antes de Kim Stanley Robinson escrever sua trilogia sobre a terraformação de Marte, Pamela já escrevera uma série de livros sobre a colonização de planetas. Ela também editou várias antologias comemorativas sobre a contribuição das mulheres na história da ficção científica. Ela é conhecida por escrever também histórias alternativas.
Sargent trabalha com uma grande variedade de temas em geral, Seu talento lhe valeu um Nebula.
Ela também colaborou com George Zebrowski em inúmeras novelas da série Star Trek.
É quase um estereótipo pensar-se que a ficção científica em geral não é um campo literário onde se encontrem muitas escritoras, mas as antologias editadas por Pamela Sargent oferecem bons exemplos do contrário. Seu próprio trabalho sempre exibiu um forte senso de atenção às questões feministas, especificamente sobre o papel das mulheres e a sua participação em questões mais amplas.
Pamela Sargent ( Una nueva percepcion, Big Roots, Cloned Lives, Danny goes to Mars, Erdeni's Tiger, Fears, Gather blue roses, Hillary orbits Venus, Isles, Not Alone, Outside the windows, Strip-runner, Venus of Dreams, Venus of Shadows, Watchstar, La corredora de cintas ) [ Download ]
sábado, 9 de outubro de 2010
Solaris - Stanislaw Lem (parte 6)
SARTORIUS
Segui um corredor longo e vazio, depois bifurquei à direita.
Nunca vivera na Estação, mas durante o treino na Terra vivera seis semanas numa réplica exata; quando cheguei a uma pequena escada de alumínio, sabia onde ia dar.
A biblioteca estava às escuras e tive de tatear à procura do interruptor da luz.
Consultei primeiro o arquivo e risquei depois as coordenadas para o primeiro volume do Anal Solarístico e o seu suplemento. Acendeu-se uma luz encarnada.
Estudei o registro: os dois livros tinham sido retirados por Gibarian, bem como The Little Apocrypha.
Apaguei as luzes e voltei ao andar de baixo.
Apesar de ter ouvido os passos afastarem-se, estava com medo de entrar novamente no quarto de Gibarian.
Ela podia regressar.
Hesitei algum tempo do lado de fora da porta; por fim, segurei no puxador e obriguei-me a entrar. Não havia ninguém no quarto.
Comecei por passar uma busca minuciosa aos livros espalhados por baixo da janela, interrompendo-me apenas para fechar a porta do armário: não suportava a vista do espaço vazio entre os trajes de treino.
O suplemento não estava na primeira pilha de livros. Por isso, um a um, comecei a apanhar metodicamente o resto dos livros espalhados pelo quarto.
Quando cheguei ao último monte, entre a cama e o armário, encontrei o volume que procurava.
Tinha a esperança de encontrar uma pista qualquer, e, na verdade, alguém tinha enfiado um marcador de livros entre as páginas do índice.
Um nome que me era desconhecido tinha sido sublinhado a encarnado: André Berton. Os números das páginas que lhes correspondiam indicavam dois capítulos diferentes; dando uma vista de olhos pelo primeiro, fiquei sabendo que Berton fora piloto de reserva na nave de Shannahan.
A segunda referência aparecia uma centena de páginas mais adiante.
A princípio, ao que parecia, a expedição de Shannahan procedera com extrema cautela. Contudo, quando, passados dezesseis dias, o oceano de plasma não só não mostrara qualquer sinal de agressão, como parecia evitar qualquer contato direto com os homens ou as máquinas, recuando sempre que algo se aproximava da sua superfície, Shannahan e o seu assistente, Timoliz, puseram de lado algumas das precauções que travavam o progresso do trabalho. As barreiras de força que tinham sido usadas para demarcar e proteger as áreas de trabalho foram levadas de volta para a base e a expedição dividiu-se em grupos de dois ou três homens e alguns dos grupos faziam vôos de reconhecimento num raio de várias centenas de milhas.
À parte uma avaria inesperada no sistema de abastecimento de oxigênio — a atmosfera tinha um efeito estranhamente corrosivo sobre as válvulas, que tinham de ser substituídas quase diariamente —, quatro dias passaram sem problema.
Na manhã do quinto dia — 21 dias depois da chegada da expedição—, dois cientistas, Carucci e Fechner (o primeiro, um radio-biólogo, o segundo, um físico), partiram em missão a bordo de uma nave auxiliar. Seis horas mais tarde, os exploradores ainda não tinham voltado. Timoliz, que, na ausência de Shannahan, tinha o comando da base, soou o alarme e enviou todos os homens disponíveis em grupos de salvamento.
Devido a uma fatal combinação de circunstâncias, o contato de rádio a longo alcance tinha sido cortado nessa mesma manhã, uma hora depois da partida dos grupos de exploração — no sol vermelho tinha aparecido uma grande mancha, que dava origem a pesado bombardeamento de partículas carregadas de energia sobre a atmosfera superior. Só os transmissores de ondas ultracurtas continuavam a funcionar, e o contato ficara restringido a um raio de cerca de vinte milhas.
Para coroar o azar, mesmo antes do pôr do Sol surgiu denso nevoeiro e tiveram de suspender as buscas.
As equipas de salvamento regressaram à base quando foi avistada a nave auxiliar, a cerca de 24 milhas da nave de comando. O motor estava ligado e o aparelho, que à primeira vista parecia incólume, pairava sobre as ondas.
Apenas Carucci, semi-consciente, podia ser visto na cabina de pilotagem de coberta de vidro. A nave foi levada de volta para a base. Depois de tratado, Carucci depressa recuperou a consciência, mas não pôde dar qualquer informação sobre o desaparecimento de Fechner. Logo após terem decidido regressar à base, a válvula da sua aparelhagem de oxigênio tinha falhado e uma pequena quantidade de gás não filtrado penetrara no seu traje atmosférico.
Para tentar reparar a válvula, Fechner fora obrigado a desapertar o seu cinto de segurança e a pôr-se de pé. E isso era a última coisa que Carucci conseguia recordar.
Segundo os peritos que procederam à reconstituição dos acontecimentos, Fechner deve ter aberto o teto da cabina porque lhe impedia os movimentos — uma ação perfeitamente legítima, uma vez que as cabinas desses veículos não eram estanques e a cúpula de vidro simplesmente proporcionava uma certa proteção contra as infiltrações e a turbulência.
Enquanto Fechner estava ocupado com o colega, a sua própria aparelhagem de oxigênio tivera provavelmente uma avaria, e, não tendo já plena consciência do que fazia, devia ter subido para a estrutura superior, de onde caíra para dentro do oceano.
E assim, Fechner tornara-se a primeira vitima do oceano.
Embora o traje atmosférico fosse flutuante, foi em vão que procuraram o seu corpo.
Era possível, claro, que estivesse ainda a flutuar em alguma parte na superfície, mas a expedição não estava equipada para uma busca intensiva desse deserto imenso e ondulante, encoberto por densas massas de nevoeiro.
Ao crepúsculo, todas as naves de busca tinham regressado à base, exceto uma; faltava apenas um grande helicóptero de abastecimento, pilotado por André Berton.
Mesmo quando iam soar o alarme, a nave apareceu. Era óbvio que Berton estava a sofrer um choque nervoso; depois de arrancar freneticamente o traje, pôs-se a correr em círculos como um louco. Teve de ser dominado, mas continuava a gritar e a soluçar.
Era um comportamento surpreendente, para não dizer pior, da parte de um homem que já voava há dezessete anos e estava muito habituado aos riscos da navegação cósmica. Os médicos presumiram que também ele estava sofrendo os efeitos dos gases infiltrados.
Apesar de ter em certa medida recuperado o juízo, Berton recusou abandonar a base ou até aproximar-se da janela que dava para o oceano. Dois dias mais tarde, pediu autorização para ditar um relatório do vôo, acentuando a importância do que ia revelar. Este relatório foi estudado pelo conselho da expedição, que concluiu que era uma criação mórbida de uma mente sob a influência de gases venenosos da atmosfera. Quanto às supostas revelações, foram, era evidente, consideradas como fazendo parte da história clínica de Berton, mais do que da história da expedição propriamente dita, e não estavam descritas.
E era tudo quanto ao suplemento. Parecia-me que o relatório de Berton devia, de qualquer modo, apresentar uma chave para o mistério.
Que estranho acontecimento poderia ter tido um efeito a tal ponto demolidor sobre um piloto espacial veterano?
Mais uma vez passei busca aos livros, mas The Little Apocrypha não apareceu.
Sentia-me cada vez mais exausto e saí do quarto, depois de ter decidido adiar a busca para o dia seguinte.
Quando passei junto ao fundo da escada, notei que os degraus de alumínio recebiam luz vinda de cima. Sartorius continuava a trabalhar.
Resolvi subir e ir vê-lo.
No piso superior estava mais calor, mas as tiras de papel continuavam a esvoaçar freneticamente nos ventiladores de ar. O corredor era largo, de teto baixo.
O laboratório principal era rodeado por espesso painel de vidro opaco, com armação de metal cromado. A porta estava tapada do lado de dentro com uma cortina escura e a luz vinha de umas janelas colocadas por cima da porta. Segurei o puxador, mas, como esperava, a porta não cedeu. O único som que vinha do laboratório era um silvo intermitente, como o de um bico de gás defeituoso.
Bati.
Nenhuma resposta.
Chamei: Sartorius! Dr. Sartorius! Sou o homem que chegou agora, Kelvin. Tenho de o ver, é muito importante. Por favor, deixe-me entrar!
Houve um roçar de papéis.
– Sou eu, Kelvin. Deve ter ouvido falar de mim. Cheguei do Prometheus há poucas horas.
Gritava com a boca colada no ângulo onde a porta tocava a moldura de metal.
– Dr. Sartorius, estou sozinho. Por favor, abra a porta!
Nem uma palavra.
Depois, o mesmo som de antes, seguido pelo ressoar de instrumentos de metal sobre um tabuleiro. Depois... quase nem queria acreditar nos meus ouvidos... ouviu-se uma sucessão de pequenos passos curtos, como o sapatear rápido de um par de minúsculos pés ou como dedos excepcionalmente ágeis a tamborilar o ritmo de passos sobre a tampa de uma lata vazia.
Gritei: – Dr. Sartorius, vai abrir a porta, sim ou não?
Nenhuma resposta. Nada além daquele tamborilar e, simultaneamente, o som de um homem a andar em bicos de pés. Mas, se o sujeito estava a mover-se, não podia ao mesmo tempo tamborilar uma imitação de passos infantis.
Incapaz já de controlar a minha crescente fúria, rebentei:
– Dr. Sartorius, não fiz uma viagem de dezesseis meses apenas para vir para aqui brincar aos joguinhos! Vou contar até dez. Se me não deixar entrar, derrubo a porta!
Para falar verdade, duvidava que fosse fácil forçar aquela porta, e a descarga de uma pistola de gás não é muito poderosa. Contudo, estava decidido a levar a minha ameaça avante, mesmo que significasse ter de recorrer a explosivos, que provavelmente encontraria no depósito de munições.
Agora já não podia recuar; não podia continuar a jogar um jogo maluco, com todas as cartas contra mim.
Ouviu-se o som de uma lata — ou seriam apenas objetos a serem afastados?
A cortina foi puxada para trás e no vidro projetou-se uma sombra alongada.
Uma voz rouca e aguda falou:
– Se eu abrir a porta, tem de me dar a sua palavra de que não entra.
– Nesse caso, para quê abri-la?
– Eu saio.
– Muito bem, prometo.
A silhueta desapareceu e a cortina foi cuidadosamente reposta no lugar.
Do interior do laboratório vinham ruídos estranhos. Ouvi um som de raspar — uma mesa a ser arrastada pelo assoalho? Por fim o trinco estalou e o painel de vidro abriu-se apenas o suficiente para permitir que Sartorius deslizasse para o corredor.
Ficou em pé encostado à porta, muito alto e magro, só ossos debaixo da camisola branca. Tinha um lenço preto amarrado à volta do pescoço e no braço trazia uma bata de laboratório, cheia de queimaduras produzidas por produtos químicos.
A cabeça, singularmente estreita, estava inclinada para um lado.
Não lhe podia ver os olhos: usava óculos escuros abaulados, que lhe tapavam metade da face. O queixo era comprido; tinha lábios azulados e enormes orelhas tingidas de azul.
E a barba estava por fazer.
Dos pulsos pendiam pelos cordões luvas encarnadas anti-radiações.
Por um momento, olhamos um para o outro com indisfarçada aversão.
O cabelo hirsuto (era óbvio que ele próprio o cortara) era da cor do chumbo, a barba, grisalha. Tal como Snow, tinha a testa bronzeada, mas apenas a metade de baixo; por cima estava pálida. Devia ter usado uma espécie qualquer de boné quando estivera exposto ao sol.
– Bom, sou todo ouvidos — disse.
Tive a impressão que em nada lhe interessava o que eu tinha para lhe dizer. Ali em pé, tenso, comprimido contra o painel da porta, a sua atenção estava essencialmente dirigida para o que se estava a passar atrás de si.
Desconcertado, nem sabia por onde começar.
– O meu nome é Kelvin — disse. — Deve ter ouvido falar de mim. Sou, ou antes, fui colega de Gibarian.
A face magra, inteiramente composta por planos verticais, exatamente como eu sempre imaginara a de D. Quixote, não mostrava qualquer expressão. Esta máscara vazia em nada me ajudava a encontrar as palavras necessárias.
– Ouvi dizer que Gibarian estava morto... — comecei de súbito.
– Sim. Continue, estou a ouvir. — A voz traía a sua impaciência.
– Foi suicídio? Quem encontrou o cadáver, você ou Snow?
– Por que pergunta a mim? O Dr. Snow não lhe contou o que aconteceu?
– Queria ouvir a sua versão.
– O senhor estudou psicologia, não estudou, Dr. Kelvin?
– Sim. E depois?
– Considera-se um servo da ciência?
– Sim, claro. Que tem isso a ver com...
– O senhor não é oficial da justiça. A esta hora devia estar a trabalhar, mas, em vez de fazer o trabalho para que o mandaram, o senhor não só ameaça forçar a porta do meu laboratório, como também me interroga como se eu fosse um suspeito criminal.
A sua testa estava alagada em suor.
Controlei-me com esforço. Estava decidido a penetrar-lhe os pensamentos.
Rangi os dentes e disse:
– O senhor é suspeito, Dr. Sartorius. E o que é mais, sabe-o muito bem!
– Kelvin, ou você retira as suas palavras e pede desculpa, ou apresentarei queixa contra você.
– Por que deveria pedir desculpas? O senhor é que se barricou neste laboratório em vez de ir ao meu encontro, em vez de me contar a verdade a respeito do que se está a passar aqui. Ficou completamente louco? Você o que é, um cientista ou um covarde?
Não sei que outros insultos lhe gritei. Nem pestanejou. Gotas de suor escorriam pelos poros dilatados da sua face.
De repente, apercebi-me de que não ouvira nem uma palavra do que eu estava a dizer. Com ambas as mãos atrás das costas, segurava a porta fechada com toda a força que tinha; ouvia-se um ricochetear, como se alguém lá dentro estivesse a disparar sobre o painel com uma metralhadora.
Com uma voz estranha e aguda, gemeu:
– Vá embora! Por amor de Deus, me deixe em paz! Vá lá para baixo, mais tarde irei encontrá-lo. Farei tudo o que quiser, mas, por favor, agora vá embora!
A sua voz traía um cansaço que instintivamente estendi os braços para o ajudar a segurar a porta. Perante este movimento, lançou um grito de horror, como se lhe tivesse apontado uma faca. Enquanto eu recuava, ele gritava na sua voz de falsete:
– Vá embora! Vá embora! Já estou indo, já estou indo, já estou indo! Não! Não!
Abriu a porta e atirou-se lá para dentro.
Pareceu-me ver um reluzente disco amarelo relampejar sobre o seu peito.
Do laboratório vinha agora um clamor abafado; apareceu uma sombra gigantesca quando a cortina foi momentaneamente afastada; depois caiu novamente no lugar e nada mais consegui ver. Que estaria acontecendo dentro da sala? Ouvi passos que corriam, como numa perseguição louca, seguidos por aterrador estrondo de vidros partidos e o som do riso de uma criança.
Minhas pernas tremiam e eu olhava apavorado para a porta.
A confusão acalmara e fora substituída por um desconfortável silêncio.
Sentei-me no peitoril de uma janela, demasiado atordoado para poder mexer-me; minha cabeça parecia estourar.
De onde me encontrava podia ver apenas parte do corredor que rodeava o laboratório. Estava no cume da Estação, logo por baixo do casco da superestrutura; as paredes eram côncavas e inclinadas, com janelas oblongas, à distância de alguns metros umas das outras. O dia azul estava a acabar, e, quando os escudos chiaram ao subirem, uma luz ofuscante brilhou pelo espesso vidro.
Cada encaixe de metal, cada trinco e dobradiça, luzia intensamente, e o grande painel de vidro da porta do laboratório rebrilhava com pálidos lampejos luminosos.
Na luz espectral, as minhas mãos pareciam cinzentas.
Reparei que empunhava a pistola de gás; não notara que a tinha retirado do coldre e coloquei-a lá novamente. Que utilidade poderia ter tido — ou até uma pistola de raios gama, se a tivesse uma?
Dificilmente poderia ter tomado o laboratório pela força.
Pus-me de pé.
O disco do Sol, que lembrava uma explosão de hidrogênio, mergulhava no oceano, e, quando descia a escada, fui atravessado por um jato de raios horizontais que quase era tangível.
No meio da descida parei para pensar, depois voltei a subir os degraus e segui o corredor em volta do laboratório. Encontrei uma segunda porta de vidro, exatamente como a primeira; nem tentei abri-la, pois já sabia que estava trancada.
Andava à procura de uma abertura ou de qualquer espécie de orifício.
A idéia de espiar Sartorius viera-me muito naturalmente, sem o mínimo sentimento de vergonha. Estava decidido a acabar com as conjecturas e descobrir a verdade, mesmo se, como pensava, a verdade desse provas de ser incompreensível.
Ocorreu-me que o laboratório devia ser iluminado por cima, através de janelas dando sobre a cúpula. Devia portanto ser possível espiar Sartorius a partir do exterior.
Mas primeiro teria de me equipar com traje atmosférico e aparelhagem de oxigênio.
Quando cheguei ao andar de baixo, encontrei a porta da cabina de rádio aberta para trás. Snow, mergulhado na sua poltrona, dormia.
Ao som dos meus passos, abriu os olhos em sobressalto.
– Olá, Kelvin! — grasnou. — Então, descobriu alguma coisa?
– Sim... ele não está só.
Snow sorriu com amargura.
– Ah, sim? Bom, isso já é alguma coisa. Está com visitas?
– Não entendo por que não quer me contar o que está a acontecer — retorqui impulsivamente. — Uma vez que tenho de permanecer aqui, mais cedo ou mais tarde acabarei por descobrir a verdade. Para quê tanto mistério?
– Quando você próprio tiver recebido algum visitante, logo compreenderá.
Tive a sensação que a minha presença o aborrecia e que não tinha qualquer desejo de prolongar a conversa.
Voltei-me para sair.
– Para onde vai?
Não respondi.
Solaris - Stanislaw Lem (parte 6) [ Download ]
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009
Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Cesar Silva e Marcello Simão Branco, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005.
Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.
Contém notícias sobre prêmios e personalidades, listas dos livros lançados durante o ano, artigo sobre o mercado editorial, com dados estatísticos e tabelas. Resenhas de vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros, entrevista com a “Personalidade do Ano”, ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes.
O Anuário tem por meta realizar um registro do estado dos gêneros no país, além de auxiliar tanto os leitores em busca do que há de novo, como aos escritores que desejam destrinchar as tendências do mercado.
E também a editores e pesquisadores, que estão em busca de um conhecimento mais sistematizado e amplo do que está surgindo e das perspectivas para o fantástico no Brasil.
Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009
Formato: 14,0 cm x 21,0 cm
168 páginas preto e branco, em papel off-set 75 g/m2
Brochura com laminação e orelhas
Autores: César Silva e Marcelo Simão Branco
No site da Devir, ao preço de R$28,00.
Postado por
Capacitor Fantástico
às
00:00
Tag: Fantasia, Fantástico, Ficção Científica, Horror, livros
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
domingo, 3 de outubro de 2010
Brasil, terra do mal
[ Antes de falar sobre a imagem do Brasil na literatura francesa do século XIX, é bom lembrarmos que se trata duma época onde a literatura francesa ainda é, senão um modelo universal, pelo menos um ponto de referência imprescindível para os letrados da Europa e das Américas.
Parece-nos esta uma razão para tratar de um assunto que reflete a mentalidade da época, no que toca à relação do então centro da ‘civilização’ com a periferia. Esta periferia era considerada exótica – a própria palavra “exotismo” sendo redescoberta no início do século XIX, para tornar-se um dos topói literários do romantismo, parnasianismo e simbolismo francês.
Como todas as palavras usadas maciçamente antes de serem bem definidas, o exotismo não é de análise fácil, o que os estudiosos contemporâneos – como Bernard Mouralis (1975), Denise Brahimi (1988), Andrzej Stoff (1991), já sabem perfeitamente.
A dificuldade que o exotismo traz é sobretudo a seguinte: no uso praticado no século XIX reúnem-se nesta palavra a estética e a ideologia que hoje em dia costuma-se separar. Vamos voltar brevemente a este problema. Por enquanto vamo-nos ocupar uns instantes do momento histórico em que o Brasil, quase fechado ao mundo durante mais de 150 anos, volta a alimentar de maneira privilegiada o imaginário exótico francês.
A imagem do Brasil que existe na França nos finais do século XVIII faz pensar um palimpsesto. Vale lembrar que o protótipo do “bom selvagem” de Rousseau havia sido o índio brasileiro: tal como ele aparece nos relatos de Léry et Thévet e conseqüentemente de Montaigne ou Ronsard, mais tarde nos de padres franceses que tentam evangelizar (mas também colonizar) a ilha do Maranhão no início do século XVII e deixam uma imagem paradisíaca da terra e dos seus habitantes. Esta imagem do paraíso terrestre muda durante o grande século XVII e durante o século XVIII torna-se o contrário: o Brasil seria uma terra maldita, por várias razões (cf. Crouzet 1998), entre as quais as mais importantes são o extermínio dos índios e a realidade da escravidão dos negros que os viajantes descobrem. Notese que esta realidade no século XVIII é também a das colônias francesas e inglesas, mas é só para lembrar, não para julgar. A verdade é que o colonizador português do Brasil como o espanhol do México, Peru, La Plata são vistos pelos viajantes franceses do século XVIII como vaidosos, arrogantes, cruéis, falsos, corruptos e sobretudo, ociosos e indolentes...]
Brasil, terra do mal: o imaginário de horror na literatura de viagens e ficção francesa do séc.19 [ Download ]
Jerzy Brzozowski - Universidade da Cracóvia - Polônia
sábado, 2 de outubro de 2010
Solaris - Stanislaw Lem (parte 5)
OS VISITANTES
Enfiei as notas de Gibarian apressadamente no bolso e dirigi-me ao armário.
Os trajes de treino e as roupas tinham sido empurrados para um lado, como se alguém se tivesse escondido na parte de trás. No chão vi o canto de um envelope que aparecia por entre uma resma de papéis e apanhei-o.
Estava endereçado para mim.
Com a boca seca de apreensão, rasguei-o; tive de me forçar a desdobrar a nota que estava dentro. Na sua letra muito certa, pequena, mas perfeitamente legível, Gibarian tinha escrito duas linhas:
Suplemento Dr. Solar. Vol. I: Vot. Separata
Mensageiro ds aff. F.; Ravintzer: The Little Apocrypha
E era tudo; nem mais uma palavra.
Estas duas linhas conteriam qualquer informação vital? Quando as teria escrito?
Disse para comigo que a primeira coisa a fazer era consultar o arquivo da biblioteca.
Já conhecia o suplemento do primeiro volume dos Anais dos Estudos Solarísticos; ou antes, apesar de nunca os ter lido, sabia da sua existência — mas isso não era um documento de interesse puramente histórico?
Quanto a Ravintzer e The Little Apocrypha, nunca ouvira falar deles.
E agora? Estava atrasado para o meu encontro com Snow.
De costas para a porta, mais uma vez inspecionei cuidadosamente o quarto.
Só então reparei na cama erguida contra a parede e semi-escondida por um grande mapa de Solaris.
Algo pendia por trás do mapa; era um gravador de bolso, e notei que tinham sido usados nove décimos da fita. Tirei a máquina do estojo (que dependurei novamente onde o encontrara) e enfiei-a no bolso.
Antes de sair, pus-me atentamente à escuta, os olhos fechados.
Não se ouvia qualquer som no exterior.
Abri a porta e deparei com um abismo de escuridão — até que me lembrei de tirar os óculos escuros.
A cúpula estava fracamente iluminada pelos fulgentes filamentos do teto.
Entre as quatro portas dos aposentos de dormir e a estreita passagem que conduzia à cabina do rádio estendiam-se vários corredores, formando o desenho de uma estrela.
De súbito, surgindo na abertura que conduzia ao quarto de banho comum, apareceu uma silhueta alta, que mal se distinguia na penumbra do ambiente.
Parei petrificado.
Em direção a mim vinha silenciosamente uma mulher negra gigantesca, com um andar suave e ondulante. Apercebi o brilho branco dos seus olhos e ouvi o suave ruído dos seus pés descalços. Nada mais vestia além de uma saia amarela de palha entrançada; os seios enormes balouçavam livremente e os negros braços eram da grossura de coxas.
Quando passou por mim havia menos de um metro entre nós, mas não olhou para mim.
Seguiu o seu caminho, a saia de palha a ondular ritmicamente, mais parecendo uma daquelas estátuas esteatopígicas (escultura de formas femininas estilizadas) que há nos museus de antropologia.
Abriu a porta de Gibarian e, na soleira da porta, a sua silhueta ficou distintamente recortada de encontro à forte luz que havia no quarto.
Depois fechou a porta e eu fiquei sozinho.
Dominado pelo terror, olhei vagamente em volta do átrio grande e vazio.
Que tinha acontecido? Que tinha eu visto?
De repente, o meu espírito recomeçou a funcionar, quando me lembrei dos avisos de Snow. Quem seria esta monstruosa Afrodite?
Dei um passo, um único, em direção ao quarto de Gibarian, mas sabia muitíssimo bem que não entraria. Não sei por quanto tempo permaneci encostado à fresca parede de metal, nada mais ouvindo além do zumbido distante e monótono do ar condicionado. Por fim, acabei por me controlar e dirigi-me à cabina do rádio.
Quando peguei ao puxador da porta, ouvi uma voz áspera:
— Quem está aí?
— Sou eu, Kelvin.
Snow estava sentado junto a uma mesa que ficava entre uma pilha de caixotes de alumínio e o transmissor e comia concentrado de carne diretamente da lata.
Será que nunca saía daquele lugar?
Pasmado, fiquei a vê-lo mastigar, até que me apercebi de que também eu estava esfomeado. Dirigi-me a um armário, escolhi o prato menos poeirento que pude encontrar e sentei-me em frente a Snow.
Comemos em silêncio.
Snow levantou-se, desarrolhou uma garrafa-térmica e encheu duas canecas com uma sopa clara e quente. Depois pousou a garrafa no chão; não havia lugar na mesa.
— Viu Sartorius? — perguntou.
— Não. Onde está?
— Lá em cima.
Lá em cima queria dizer no laboratório. Acabamos a refeição sem trocar nem mais uma palavra, e Snow raspou cuidadosamente o fundo da sua lata. A porta do exterior estava colocada sobre a janela, e sobre a superfície laminada do transmissor fulgiam os reflexos das quatro lâmpadas do teto.
Snow tinha vestida uma camisola preta larga, esfiapada nos punhos.
A pele esticada sobre as maçãs do rosto estava marcada por minúsculos vasos sangüíneos.
– Que aconteceu? — perguntou.
– Nada, por quê?
Está alagado em suor. Limpei a testa. Era verdade; eu estava a pingar; deve ter sido a reação depois do meu encontro inesperado.
Snow lançou-me um olhar interrogador. Deveria contar-lhe? Se ao menos ele me tivesse feito as suas confidências... Que jogo incompreensível jogávamos, e quem era o inimigo de quem?
– Está calor. Imaginava que o ar condicionado trabalhasse melhor do que isto!
– Ajusta-se automaticamente de hora a hora. — olhou-me de perto. — Tem a certeza de que é apenas calor?
Não respondi. Atirou com os talheres e a lata vazia para a banca, voltou para a poltrona e continuou com o interrogatório.
– Quais são os seus planos?
– Isso depende de você — respondi com frieza. — Suponho que tem um programa de pesquisas. Um novo estímulo, raios X, coisas no gênero...
Franziu a sobrancelha.
– Raios X? Quem lhe andou a falar nisso?
– Não me lembro. Alguém disse qualquer coisa, no Prometheus, talvez. Por quê? Já começaram?
– Não sei os pormenores; era idéia de Gibarian. Ele e Sartorius trataram do assunto. Me pergunto como poderia ter ouvido falar disso.
Encolhi os ombros.
– É curioso que não saiba os pormenores. Devia conhecê-los, uma vez que é você quem...
Deixei a frase por acabar; Snow não disse nada.
O zunir do ar condicionado parara. A temperatura mantinha-se a um nível insuportável, mas persistia um zumbido agudo, como o som de um inseto moribundo.
Snow levantou-se da cadeira e inclinou-se sobre a banca do transmissor. Começou a apertar botões ao acaso e sem nenhum propósito. Continuou assim por um momento, depois disse:
– Há certas formalidades a cumprir com relação a...
– Sim? — insisti.
Voltou-se e deitou-me um olhar hostil. Sem querer, tinha-o aborrecido; mas, ignorando o papel por ele desempenhado, podia apenas espiar e ver o que acontecia. A sua maçã-de-Adão subia e descia dentro da gola da camisola:
– Você esteve no quarto de Gibarian — explodiu em tom acusador.
Fitei-o calmamente.
—Esteve lá, não esteve?
– Se você assim o diz...
– Tinha alguém por lá?
Então, ele tinha-a visto ou, pelo menos, sabia da sua existência!
– Não, ninguém. Quem poderia lá estar?
– Então, por que não me deixou entrar?
– Porque tinha medo. Lembrava-me dos seus avisos e, quando o puxador se moveu, automaticamente agarrei-me a ele. Por que não disse que era você? Teria deixado-o entrar.
– Julguei que era Sartorius — respondeu com voz trêmula.
– E se fosse?
Mais uma vez iludiu a minha pergunta com outra.
— O que pensa que aconteceu ? Hesitei.
— Você é quem devia saber. Onde está ele?
— Gibarian? No depósito de gelo. O levamos para lá esta manhã, quando o encontramos no armário.
– No armário? Estava morto?
– O coração ainda batia, mas já parara de respirar.
– Tentou ressuscitá-lo?
– Não.
– Por que não?
– Não tive ocasião — resmungou. — Quando o tirei de lá já estava morto.
Snow foi buscar uma folha de papel à secretária encaixada no canto da sala e estendeu-me.
— Escrevi um relatório post mortem. No fundo, estou contente que tenha visto o quarto. Causa da morte: injeção de pernostal, dose letal. Está tudo aí...
Percorri o papel com os olhos e murmurei:
— Suicídio? Por que razão?
— Perturbações nervosas, depressão, dê-lhe o nome que quiser. Sabe mais dessas coisas que eu.
Fitando-o nos olhos, disse:
—Só sei o que vi pessoalmente.
– Que está a tentar dizer? — perguntou calmamente.
– Injetou-se com pernostal e escondeu-se num armário, certo? Nesse caso, não é uma questão de perturbações nervosas ou de um ataque de depressão, mas de um problema muito sério de paranóia. — Falando de modo cada vez mais deliberado e continuando a fitá- lo bem nos olhos, acrescentei: — O que é certo é que ele pensava que via alguma coisa.
Snow recomeçou a remexer no transmissor.
Após curto silêncio, continuei:
– Esta aqui é a sua assinatura. E a de Sartorius?
– Como lhe disse, ele está no laboratório. Nunca aparece. Suponho que...
– O quê?
– Se fechou lá dentro.
– Fechou-se? Compreendo... quer dizer que ele se barricou lá dentro?
– Provavelmente.
– Snow, há alguém na Estação? Além de nós.
Deixara de brincar com os botões e voltou-se de lado para me fitar.
– Você viu!
– Você tinha-me posto de sobreaviso. Contra o quê? Contra quem? Uma alucinação?
– Que viu?
– Digamos... um ser humano?
Permaneceu em silêncio.
Voltando-se de costas como que para esconder o rosto de mim, tamborilou com as pontas dos dedos sobre a placa de metal.
Olhei suas mãos; já não havia qualquer traço de sangue entre os dedos.
Senti uma tontura momentânea.
Numa voz pouco mais forte que um murmúrio, como se estivesse a contar um segredo e estivesse com medo de ser ouvido, disse-lhe:
– Não é uma miragem, pois não? É uma pessoa real, alguém em quem se pode tocar, alguém que se pode... fazer sangrar. E, o que é mais, alguém que você só hoje viu.
– Como sabe?
Não se movera; a face continuava obstinadamente voltada para a parede, e eu dirigia-me às suas costas.
– Foi antes de eu ter chegado, justo antes de eu ter chegado, não foi?
Todo o seu corpo se contraiu, e pude ver a sua expressão de pânico.
– E você? — perguntou em voz estrangulada. — Quem é você?
Pensei que me ia atacar. Não era nada da reação esperada. A situação estava tornando-se grotesca. Era óbvio que ele não acreditava que eu fosse quem afirmava ser. Mas, que poderia isso significar? O homem cada vez tinha mais medo de mim. Estaria em delírio? Poderia ter sido afetado por gases não filtrados, vindos da atmosfera do planeta?
Tudo parecia possível. Mas, por outro lado, eu também tinha visto aquela... criatura, então, e eu?
– Quem é ela? — perguntei.
Estas palavras sossegaram-no. Por um momento olhou-me inquiridor, como se ainda duvidasse de mim; depois, deixou-se cair na cadeira e pôs a cabeça entre as mãos.
Mesmo antes de ele abrir a boca, eu sabia já que ainda se não resolvera a dar-me uma resposta direta.
– Estou exausto — disse debilmente.
– Quem é ela? — insisti.
– Se não sabe...
– Continue, sei o quê?
– Nada.
– Ouça, Snow! Estamos isolados, completamente desligados de tudo. Vamos pôr as cartas na mesa. As coisas, como estão já são suficientemente confusas. Tem de dizer-me o que sabe!
– E você? — retorquiu, pleno de suspeita.
– Certo, eu conto-lhe e depois você conta-me. Não tenha medo, não vou pensar que está louco.
– Louco! Meu Deus! — Tentou sorrir. — Mas você não compreendeu absolutamente nada! Nunca, nem por um momento, ele pensou estar louco. Se assim fosse, não teria feito o que fez. Estaria ainda vivo.
– Por outras palavras, o seu relatório, essa história de perturbações nervosas, é falso.
– Claro.
– Por que não escrever a verdade?
– Por quê? — repetiu.
Seguiu-se um longo silêncio. Era verdade que eu continuava completamente às escuras. Tinha tido a impressão de que vencera as suas dúvidas e que íamos reunir os nossos recursos para resolver o enigma. Então, por que se recusava a falar?
– Onde estão os robôs?
– Nos armazens. Os trancamos; só os robôs da recepção estão operacionais.
– Porquê?
Mais uma vez recusou responder.
– Não quer falar a esse respeito?
– Não posso.
Parecia constantemente no ponto de se abrir comigo, mas sempre se dominava no último instante. Talvez tivesse mais sorte com Sartorius.
Então lembrei-me da carta e, quando pensei nela, compreendi como era importante.
– Tenciona continuar com as experiências?
Deu um encolher de ombros desdenhoso.
– Para que serviria?
– Oh, nesse caso, que sugere que façamos?
Ficou calado. À distância ouvia-se um ligeiro ruído de pés descalços a andar sobre o assoalho. O eco abafado desses passos arrastados ressoava de modo fantasmagórico por entre o equipamento niquelado e laminado e as altas colunas, cheias de tubos de vidro, que protegiam as complicadas instalações eletrônicas.
Incapaz de continuar a controlar-me, levantei.
Enquanto ouvia os passos que se aproximavam, observava Snow.
Por trás das pálpebras caídas, os olhos não mostravam medo.
Não teria, então, medo dela?
– De onde vem ela? — perguntei.
– Não sei.
O som dos passos esmoreceu e desapareceu.
– Não acredita em mim? — disse. — Juro-lhe que não sei.
No silêncio que se seguiu, abri um armário, afastei os desajeitados trajes atmosféricos e, como esperava, penduradas no fundo, encontrei as pistolas de gás usadas para manobras no espaço. Tirei uma, verifiquei-lhe a carga e passei a correia sobre o ombro.
Não era exatamente uma arma, mas era melhor que nada.
Enquanto eu ajustava a correia, Snow mostrou os dentes amarelos, divertido.
– Boa caça! — disse.
Dirigi-me à porta.
– Obrigado.
Levantou-se com esforço da cadeira.
– Kelvin!
Olhei para ele. Já não sorria. Nunca vi tal expressão de cansaço na face de alguém.
Balbuciou.
– Kelvin, não é isso... Realmente, não... não posso...
Esperei. Os seus lábios moveram-se, mas não proferiram qualquer som.
Rodei sobre os calcanhares e saí.
Solaris - Stanislaw Lem (parte 5) [ Download ]
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Alfred Hitchcock apresenta Histórias Macabras
Aqui está mais uma fascinante seleção de contos de crime e suspense, escolhidos deliberadamente por Alfred Hitchcock para deixá-lo transido de susto. Você vai certamente ficar fascinado pela Dama de Vermelho, como aconteceu com Frankie, a quem coisas inesperadas começaram a acontecer, depois que a conheceu, até descobrir que A SORTE NÃO É UMA DAMA. Esta história é de Robert Bloch, o consagrado autor de Psicose, que se transformou num dos filmes mais sensacionais de Alfred Hitchcock.
Vai se sentir atraído irresistivelmente — e também horrorizado — pelo aprendizado de jornalismo de Andrew Gerber, que começou num jornal de cidade pequena e descobriu da forma mais macabra possível a velha máxima jornalística de que quando é o cachorro que morde o homem, o fato não dá notícia. O inverso dá! Leia HOMEM QUE MORDE CACHORRO.
Vai experimentar as mesmas emoções profundas de Nelson Latch, pacato detetive de uma loja de departamentos, que involuntariamente foi obrigado a se transformar em O VOYEUR, o que lhe alterou toda a vida e levou-o a um destino imprevisível.
Vai se angustiar com Ann Griffith, cujo pai fora condenado por ter matado um homem e que se desesperava com o pavor de que o gene lhe tivesse sido legado. É o conto HOMICÍDIO É DOMINANTE.
Vai se amargurar e desesperar junto com Dan Kellogg e Susan Hanson, pairando à beira da eternidade, para descobrirem por fim que tinham algo em comum, até encontrarem O VINCULO.
São contos que vão fasciná-lo, seduzi-lo, deixá-lo arrepiado de emoção.
São HISTÓRIAS MACABRAS especialmente selecionadas pelo mestre supremo do suspense, o genial inglês Alfred Hitchcock.
ÍNDICE
UMA GARRAFA DE VINHO - Borden Deal
A PONTE DE VIDRO - Robert Arthur
A SORTE NÃO É UMA DAMA - Robert Bloch
A FUGA PARA O NADA - Evans Harrington
INTERLÚDIO PARA HOMICÍDIO - Paul Tabori
O "VOYEUR" - Henry Slesar
MORTE EM ATRASO - Eleanor Daly Boylan
O ASSASSINO DO MELHOR AMIGO - Donald E. Westlake
HOMEM MORDE CACHORRO - Donald Honig
VÁ DORMIR, QUERIDA - James Holding
O CRIME ESTÁ NO SANGUE - Glenn Andrews
TENTATIVA DE REGENERAÇÃO - Donald Martin
CONTROLE REMOTO - Jean Garris
O VÍNCULO - Bob Bristow
Alfred Hitchcock apresenta Histórias Macabras [ Download ]
Assinar:
Postagens (Atom)










































