domingo, 13 de junho de 2010
Treze Fantasmas - Clark Ashton Smith
“Tenho sido fiel, Cínara, à minha maneira.”
John Alvitong tratou de levantar-se sobre o travesseiro enquanto murmurava para si a citação amplamente conhecida do poema de Downson. Porém sua cabeça e seus ombros caíram para trás com transbordante impotência, e se filtrou por seu cérebro como um fio de água gelada a compreensão de que talvez o doutor tivesse razão – talvez o final fosse realmente iminente. Pensou brevemente em fluídos de embalsamar, flores secas, cravos de ataúde e gramados murchos; mas tais idéias eram bastante distantes da tendência de seu pensamento, e preferiu pensar em Elspeth. Afastou seus fúnebres pensamentos com um conveniente estremecimento.
Muitas vezes pensava em Elspeth, nesses dias. Porém não a esquecia realmente em nenhum momento. Muita gente o chamava de sem-vergonha; porém ele sabia, e sempre haveria de saber, que estavam errados. Diziam que havia rasgado ou partido o coração de doze mulheres, incluindo os de suas duas esposas; e de um modo o suficientemente estranho, incluindo os exageros dos fofoqueiros, o número era correto. Contudo, ele, John Alvington, sabia com certeza que somente uma mulher, a que nada contava entre as doze, havia realmente importado realmente alguma vez em sua vida.
Havia amado a Elspeth e a ninguém mais. As outras mulheres foram todas um erro, ilusões: haviam lhe atraído só porque imaginou, durante períodos variáveis, que havia encontrado nelas algo de Elspeth. Havia sido cruel com elas provavelmente, e com absoluta certeza não lhes havia sido fiel. Porém ao enganá-las, não havia sido muito mais leal à Elspeth?
De algum modo a imagem que tinha dela agora era mais clara, mais do que antes.
Como se tivesse sacudido o pó acumulado de um retrato, via com estranha claridade a inquieta ironia de seus olhos e o ligeiro sacudir de seus cabelos castanhos que sempre acompanhava seu sorriso jovial. Era inesperadamente alta para uma pessoa tão semelhante a um duende, porém tanto mais admirável por isso; e ele nunca havia gostado de outra coisa a não ser de mulheres altas.
Com tanta freqüência tinha ficado maravilhado, como ante um fantasma, ao encontrar outra mulher de maneiras similares, similar figura ou expressão de olhos ou cadência de voz; e que absoluta foi sua decepção quando chegou a ver a irrealidade e falsidade do que era parecido. Que irreparavelmente ela, o amor verdadeiro, se havia interposto antes ou depois entre ele e todas as demais.
Começou a recordar coisas que quase havia esquecido, tais como o camafeu que ela havia levado depois do dia em que se conheceram, e um pequeno sinal em seu ombro esquerdo, de que havia olhado numa ocasião quando ela usava um vestido por demais decotado para aquela época. Muito recordava a roupagem lisa e verde-pálido que se aderia tão deliciosamente em sua esbelta silhueta naquela manhã em que ele se foi precipitadamente com um rápido adeus, para não voltar a vê-la...
Nunca, pensava, havia sido sua memória tão boa: seguramente o médico estava equivocado, pois não se havia produzido debilidade alguma de suas faculdades. Era quase impossível que estivesse mortalmente enfermo, quando podia evocar todas as lembranças de Elspeth com tal desenvoltura e clareza.
Agora repassava todos os dias de seu compromisso de sete meses, que podia ter terminado em um ditoso casamento se não tivesse sido por sua propensão a tomar ofensas irracionais, e pela própria explosão de temperamento com que reagia e sua falta de tática conciliatória na disputa crucial. Que próximo, que doloroso resultava tudo. Perguntou a si mesmo que malvado desígnio havia ordenado sua separação e o havia enviado a uma busca vã de um rosto a outro rosto ilusório para o resto de sua vida.
Não recordava, não podia recordar outras mulheres – somente lembrava que havia sonhado de algum modo por um breve espaço de tempo que se pareciam com Elspeth. Outros poderiam considerá-lo um Don Juan – porém ele se considerava um sentimental sem remédio, se é que alguma vez houve algum.
Que ruído era aquele, perguntou a si mesmo. Alguém havia aberto a porta de casa? Devia ser a enfermeira, pois ninguém mais viria a essa hora da tarde.
A enfermeira era uma moça agradável, porém não era como Elseth.
Tentou virar-se um pouco para poder vê-la, e de alguma maneira conseguiu, graças a um esforço titânico completamente desproporcional ao fraco movimento.
Não era a enfermeira, pois ela ia sempre vestida de um branco imaculado que correspondia à sua profissão. Esta mulher trajava um vestido de cor verde viçoso e agradável, pálido como o verde da água na superfície do mar. Não pôde ver seu rosto, pois permanecia em pé com as costas para a cama; porém havia algo estranhamente familiar naquele vestido, algo que quase não podia recordar, a principio. Logo, com um claro sobressalto, supôs que se parecia com o vestido que Elspeth levava no dia de sua disputa, o mesmo vestido que havia estado representando um pouco antes. Ninguém usava nunca um vestido de semelhantes medidas e estilo, hoje em dia. Quem em todo o mundo poderia ser? Havia uma curiosa familiaridade com respeito a sua figura, também, pois era bastante alta e esbelta.
A mulher se voltou, e John Alvington viu que era Elspeth – a própria Elspeth da qual se havia separado com um amargo adeus, e que havia morrido sem permitir-lhe sequer vê-la outra vez. E contudo como poderia ser Elspeth, se estava morta a tanto tempo? Logo, por uma questão de lógica, como poderia ela haver morrido alguma vez, posto que estivesse ali, diante dele, naquele momento? Parecia infinitamente preferível crer que estava viva, e ele desejava tanto falar-lhe, porem a voz falhou quando tentou pronunciar seu nome.
Agora pensou que ouvia a porta abrir-se outra vez, e foi consciente de que outra mulher permanecia nas sombras atrás de Elspeth. Essa se adiantou, e observou que trajava um vestido verde, idêntico em cada detalhe àquele que usava sua amada. Ela levantou a cabeça – e o rosto era o de Elspeth, com os mesmos olhos zombadores e boca caprichosa. Porém como podia haver duas Elspeths?
Com profundo desconcerto, tratou de acostumar-se a extravagante idéia; e ainda assim, enquanto lutava com um problema tão incompreensível, uma terceira figura de verde pálido, seguida por uma quarta e uma quinta, entrou e se colocou atrás das duas primeiras. E não foram estas as últimas, pois outras entraram uma a uma, até que o quarto ficou repleto de mulheres, todas elas com os modos e aparência de sua noiva morta.
Nenhuma delas pronunciou uma palavra, porém todas olhavam Alvington com uma expressão na qual parecia agora discernir um gracejo mais profundo que o travesso encanto que uma vez havia encontrado nos olhos de Elspeth.
Ficou muito quieto, lutando com uma obscura e terrível perplexidade. Como podia haver tal multidão de Elspeths, quando ele só podia lembrar de ter conhecido uma? E quantas havia de todo modo? Algo o impulsionou a contá-las, e achou que havia treze fantasmas de verde. E após assegurar-se deste ato, se sentiu sacudido por algo familiar com respeito ao número. Não dizia o povo que ele havia partido o coração de treze mulheres? Ou eram no total somente doze? De qualquer maneira, contando a própria Elspeth, quem realmente havia partido o coração, havia treze.
Então todas as mulheres começaram a agitar seus cabelos, de uma maneira que ele recordava muito bem, e todas elas riram com uma risada ligeira e brincalhona. Poderiam estar rindo dele? Elspeth havia feito isso muitas vezes porém ele a havia amado com devoção apesar de tudo...
De repente, começou a sentir-se inseguro acerca do numero exato de figuras que enchiam sua morada; pareceu-lhe, em um momento, que eram mais do que havia contado, e depois, que eram menos. Perguntou-se quem dentre elas era a verdadeira Elspeth, porque depois de tudo sentiu confiança de que nunca havia existido uma segunda – só uma série de mulheres que se assemelhavam em aparência e que não eram em realidade como ela de modo algum , uma vez que chegava a conhecê-las.
Finalmente, conforme tratava de contá-las e escrutar os rostos apinhados, todos se tornaram imprecisos, confusos e indefinidos, e quase esqueceu o que estava tratando de fazer...Qual delas era Elspeth? Ou será que havia existido alguma vez uma autêntica Elspeth?
Não estava seguro de nada, no final, quando chegou o esquecimento e passou a esse território no qual não existem nem as mulheres, nem os fantasmas, nem o amor e nem os problemas numéricos.
Tradução de Rogério Silvério de Farias
sábado, 12 de junho de 2010
O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 11)
O PRÉDIO DO Palácio de Justiça na Mission Street, no telhado do qual desceu o hovercar, projetava-se para cima numa série de espirais barrocas, ornamentadas.
Complicada e moderna, a bela estrutura pareceu atraente a Rick Deckard — exceto por um único aspecto. Nunca a vira antes.
O carro pousou. Minutos depois, ele estava sendo identificado.
— 0.304 — disse o guarda Crams ao sargento de serviço na alta escrivaninha. — E... 612.4 e, deixe-me ver. Fazendo-se passar por policial?
— 406.7 — disse o sargento, preenchendo formulários. Escrevia preguiçosamente, de uma maneira algo entediada.
Caso de rotina, declaravam sua postura e expressão. Nada de importância.
— Para ali — disse o guarda Crams, levando-o para uma pequena mesa branca, na qual um técnico operava equipamento conhecido. — Para tirar seu padrão cefálico — explicou Crams. — Para fins de identidade.
— Eu sei — disse bruscamente Rick.
Nos velhos dias, quando ele mesmo fora policial fardado, trouxera muitos suspeitos para uma mesa como aquela. Como esta mesa, mas não esta mesa em particular.
Tirado o padrão cefálico, foi levado para uma sala igualmente conhecida.
Pensativo, começou a juntar seus artigos de valor para entregá-los.
Isto não faz sentido, disse a si mesmo. Quem são estas pessoas? Se este lugar sempre existiu, por que nada sabíamos a respeito dele? Dois órgãos policiais paralelos, pensou, o nosso e este aqui. Mas que nunca entraram em contato — tanto quanto sei — até agora. Ou talvez tenham, refletiu. Talvez esta não seja a primeira vez. É difícil acreditar que isto não tenha acontecido há muito tempo. Se isto aqui é, realmente, um organismo policial, se é o que afirma que é.
Um homem, à paisana, afastou-se do lugar onde estivera até então e aproximou-se de Rick Deckard em passos medidos, tranqüilos, fitando-o, curioso.
— O que é, esse aí? — perguntou ao guarda Crams.
— Um suspeito de homicídio — respondeu Crams. — Temos um cadáver: encontramo-lo no carro dele, mas ele alega que é um andróide. Estamos examinando isso, fazendo uma análise de medula óssea no laboratório. E passando por policial, caçador de cabeças. A fim de obter acesso ao camarim de uma mulher, a fim de fazer-lhe perguntas sugestivas. Ela duvidou que ele fosse o que dizia e nos chamou. — Dando um passo atrás, perguntou Crams: — Quer acabar o interrogatório dele, senhor?
— Muito bem. — O policial graduado, à paisana, olhos azuis, nariz estreito de narinas largas e lábios inexpressivos, olhou para Rick e em seguida estendeu a mão para tomar-lhe a pasta.
— O que é que o senhor tem aí, Sr. Deckard?
— Material relativo ao Teste de Personalidade Voigt-Kampff — respondeu Rick. — Eu estava submetendo um suspeito a teste quando o guarda Crams me prendeu.
Observou o policial inspecionar o conteúdo da pasta, examinando cada um dos artigos.
— As perguntas que fiz à Sra. Luft são questões-padrão Y-K, impressas no...
— O senhor conhece George Gleason e Phil Resch? — perguntou o policial.
— Não — respondeu Rick. Nenhum desses nomes significava coisa alguma para ele.
— Eles são os caçadores de cabeça da região norte da Califórnia. Ambos adidos ao nosso Departamento. Talvez os conheça, enquanto está aqui. O senhor é andróide, Sr. Deckard? O motivo por que pergunto isto é que, no passado, tivemos por aqui vários andros fugitivos passando por caçadores de cabeças de fora do Estado, à procura de um suspeito.
— Eu não sou andróide — retrucou Rick. — Pode me aplicar o Teste Voigt-Kampff. Fui submetido a ele antes e não me importo de passar pela mesma coisa outra vez. Mas sei quais vão ser os resultados. Posso telefonar para minha esposa?
— O senhor tem direito a um único telefonema. Prefere telefonar para ela ou para seu advogado?
— Telefonarei para minha esposa — decidiu Rick. — Ela pode me arranjar um advogado.
O policial à paisana entregou-lhe uma moeda de cinqüenta centavos e apontou:
— Há um videofone ali. — Ficou observando enquanto Rick se dirigia ao telefone. Em seguida, voltou ao exame do conteúdo da pasta.
Inserindo a moeda, Rick discou o número de casa. Ficou à espera durante o que lhe pareceu uma eternidade.
Finalmente, um rosto de mulher apareceu na videotela.
— Alô — disse ela.
Não era Iran. Nunca vira aquela mulher antes em toda sua vida.
Desligou e voltou em passos lentos para junto do policial.
— Sem sorte? — perguntou o policial. — Bem, pode dar outro telefonema, Nós temos uma política liberal a este respeito. Não posso lhe oferecer a oportunidade de telefonar para um defensor público porque seu crime é inafiançável. Quando for indiciado, contudo...
— Eu sei — retrucou amargo Rick. — Conheço bem o procedimento policial.
— Eis aqui sua pasta — disse o oficial. Devolveu-a a Rick. — Venha até meu gabinete... Gostaria de conversar mais com o senhor, — Começou a descer um corredor lateral, Rick atrás dele. Em seguida, parando e voltando-se para ele, disse: — Meu nome é Garland. — Estendeu a mão, que Rick apertou. — Sente-se — disse, quando abriu a porta do gabinete e se acomodou por trás de uma grande escrivaninha nua.
Rick sentou-se de frente para ele.
— Esse Teste Voigt-Kampíf que o senhor mencionou — disse Garland, indicando a pasta de Rick —, todo esse material que você leva — encheu e acendeu um cachimbo, tirando baforadas durante algum tempo — é um instrumento analítico para identificar andros?
— É o nosso teste básico — retrucou Rick. — O único que empregamos atualmente. O único capaz de identificar a nova unidade cerebral Nexus-6. Nunca ouviu falar neste teste?
— Ouvi falar de várias escalas de análise de perfil, para emprego com andróides. Mas não desse. — Continuou a olhar atentamente para Rick, pomposo o seu rosto. Rick não podia imaginar o que ele estava pensando. — Essas cópias a carbono apagadas — continuou Garland — que o senhor tem aí em sua pasta. Polokov, Srta. Luft...suas missões. O seguinte na lista sou eu.
Rick olhou-o fixamente e, em seguida, agarrou a pasta.
Um momento depois, as cópias a carbono estavam espalhadas à sua frente.
Garland dissera a verdade. Examinou a folha. Nenhum dos dois homens — ou melhor, nem ele nem Garland — falou durante algum tempo.
Em seguida, Garland pigarreou, e tossiu, nervoso.
— É uma sensação desagradável — disse ele — descobrir subitamente que se está na lista de missões de um caçador de cabeças. Ou o que quer que você seja, Deckard.
Apertou um botão na escrivaninha e disse: — Envie aqui um dos caçadores de cabeça. Não me interessa qual. Muito bem, obrigado. — Soltou o botão. — Phil Resch chega dentro de um minuto ou dois — disse a Rick. —Quero que você veja a lista dele, antes de eu continuar.
— O senhor acha que eu posso estar na lista dele? — perguntou Rick.
— É possível. Vamos saber logo. É melhor termos certeza a respeito destes assuntos críticos. Melhor não deixar nada ao acaso. Esta folha de informações sobre mim... — Indicou a cópia apagada. — Ela não me lista como inspetor de polícia. Inexatamente, dá minha ocupação como corretor de seguros. À parte isso, está correta quanto à descrição física, hábitos pessoais, endereço residencial. Sim, sou eu, tudo certo. Veja por si mesmo. — Empurrou a página para Rick, que a apanhou e leu rapidamente.
Abriu-se a porta nesse momento e entrou um homem alto, descarnado, feições duras, usando óculos de aro de osso e barba fofa em ponta. Garland levantou-se, indicando Rick.
— Phil Resch, Rick Deckard. Vocês dois são caçadores de cabeça e, provavelmente, chegou a ocasião de se conhecerem.
Apertando a mão de Rick, perguntou Phil Resch:
— A que cidade você está adido?
Garland respondeu por Rick:
— São Francisco. Aqui. Dê uma olhada na agenda dele. Este aqui é o próximo. — Entregou a Phil Resch a folha que Rick estivera examinando, a que continha sua descrição.
— Hei, Gar — comentou Phil Resch —, esse aí é você.
— E há mais — continuou Garland. — Ele tem também Luba Luft, a cantora de óperas, em sua lista de missões de aposentadoria, e Polokov. Lembra-se de Polokov? Está morto, agora. Este caçador de cabeças, ou andróide, ou o que quer que seja, pegou-o, e estamos neste momento fazendo um exame de medula óssea no laboratório. Para ver se há alguma base concebível para...
— Eu conversei com Polokov — disse Phil Resch. — Aquele Papai Noel grandalhão da polícia soviética? — Pensou um pouco, dando puxões na barba desalinhada. — Acho que será uma boa idéia fazer uma análise de medula óssea dele.
— Por que é que você diz isso? — perguntou Garland, evidentemente aborrecido. — Isto eliminaria qualquer base legal, na qual esse homem, Deckard, poderia alegar que não matou ninguém. Teria simplesmente "aposentado um andróide".
— Polokov pareceu-me frio — observou Phil Resch. — Externamente cerebral e calculador. Desligado.
— Um bocado de policiais soviéticos são assim — contestou Garland, visivelmente irritado.
— Quanto a Luba Luft — continuou Phil Resch —, não a conheço ainda. Embora tenha discos que ela gravou. A Rick, disse: — Você submeteu-a a um teste completo?
— Comecei — explicou Rick. — Mas não consegui uma leitura exata. Ela chamou o patrulheiro, que acabou com tudo.
— E Polokov? — perguntou Phil Resch.
— Tampouco consegui a mínima chance de submetê-lo a teste.
Principalmente para si mesmo, Phil Resch voltou a falar:
— E suponho que você também não teve uma oportunidade de submeter a teste o Inspetor Garland aqui.
— Claro que não — interrompeu Garland, sua face vincada de indignação. Calou-se, amargo e zangado,
— Que teste você usa? — quis saber Phil Resch.
— A Escala Voigt-Kampff.
— Não o conheço — Resch e Garland pareciam mergulhados em rápidos e profissionais pensamentos, mas não em uníssono. — Eu sempre disse — continuou ele — que o melhor lugar para um andróide esconder-se seria numa grande organização policial, como o W.P.O. Desde que conheci Polokov, quis testá-lo, mas não surgiu pretexto algum. E tampouco teria surgido. o que é um dos bons motivos por que um lugar desses seria bom para um andróide empreendedor.
Levantando-se devagar de sua cadeira, o Inspetor Garland olhou para Phil Resch e perguntou:
— Você também teve vontade de me testar?
Um discreto sorriso passou pelos lábios de Phil Resch. Começou a responder e, em seguida, encolheu os ombros. E continuou calado.
Não parecia receoso de seu superior, a despeito da visível raiva de Garland.
— Acho que você não compreende a situação — disse Garland. — Este homem, ou andróide, Rick Deckard, chega às nossas mãos vindo de um órgão policial fantasmagórico, alucinatório, inexistente, que supostamente opera a partir da velha sede departamental na Lombard Street. Nunca ouviu falar em nós e nós nunca ouvimos falar nele, embora, ostensivamente, estejamos trabalhando do mesmo lado da rua. Emprega um teste do qual nunca ouvimos falar. A lista que tem não é de andróides. É uma lista de seres humanos. Já matou uma vez, pelo menos uma vez, E se a Srta. Luft não houvesse conseguido chegar ao telefone, provavelmente a teria morto e, no fim, viria me caçar.
— H-h-hummm — comentou Phil Resch.
— H-h-hummm — imitou-o furioso Garland. Nesse momento, parecia que estava prestes a ter um ataque de apoplexia, — Isso é tudo o que você tem a dizer?
Uma voz feminina disse no intercomunicador:
— Inspetor Garland, acaba de chegar o laudo do laboratório sobre o cadáver do Sr. Polokov.
— Acho que deveríamos ouvi-lo — opinou Phil Resch.
Garland fitou-o, fumegando de raiva. Em seguida, inclinou-se, e apertou a chave do intercomunicador.
— Leia-o, Srta. French.
— O teste de medula óssea — leu a Srta. French — demonstra que o Sr. Polokov era um robô humanóide. O senhor quer um detalhado...
— Não, isso é suficiente. — Garland recostou-se em sua cadeira, olhando sombrio para a parede da sala. Não se dirigiu nem a Rick nem a Phil Resch.
— Qual é a base de seu Teste Voigt-Kampff, Sr. Deckard?
— Reação empática. Numa grande variedade de situações sociais. Principalmente, dizendo respeito a animais.
— O nosso é provavelmente mais simples — comentou Resch. — A reação de arco reflexo que ocorre nos gânglios superiores da coluna vertebral vários microssegundos mais num robô humanóide do que num sistema nervoso humano. — Puxando um bloco de papel da mesa do Inspetor Garland, fez um desenho com uma caneta esferográfica. — Utilizamos um sinal de áudio ou um pisca-pisca. O sujeito aperta um botão, e o tempo decorrido é medido. Tentamos isso um bocado de vezes, claro. O tempo decorrido varia em andros e humanos. Mas quando dez reações são medidas, achamos que temos uma pista segura. E, como no seu caso com Polokov, o teste de medula óssea confirma nossos resultados.
Ocorreu um intervalo de silêncio antes de Rick responder:
— O senhor pode me testar. Estou pronto. Naturalmente, eu gostaria de testá-lo, também. Se estiver disposto.
— Naturalmente — concordou Resch. Nesse momento, porém, ele olhava criticamente para o Inspetor Garland. — Eu digo há anos — murmurou — que o Teste de Arco Reflexo Boneli deve ser aplicado rotineiramente ao pessoal da polícia, quanto mais alto o indivíduo na cadeia de comando, melhor. Não digo, Inspetor?
— Isso é um direito que você tem — retrucou Garland. — E eu sempre fui contra isso. Com base no fundamento de que esse procedimento abaixaria o moral do departamento.
— Mas eu acho agora que o senhor tem que se submeter a ele — disse Rick. — Tendo em vista o laudo de seu laboratório sobre Polokov.
— Acho que sim — concordou Garland. Apontou um dedo para Phil Resch. — Mas estou-lhe avisando: você não vai gostar dos resultados dos testes.
— O senhor sabe o que é que eles vão ser? — perguntou Resch, visivelmente surpreso. Não parecia contente.
— Quase completamente — retrucou o Inspetor Garland.
— Muito bem. — Resch inclinou a cabeça. — Vou lá em cima apanhar o equipamento Boneli.
Foi até a porta, abriu-a, e desapareceu pelo corredor.
— Volto dentro de três ou quatro minutos — disse a Rick, antes de sair.
A porta fechou-se às suas costas
Mexendo na gaveta superior do canto direito da mesa, o Inspetor Garland procurou e achou um tubo laser, que virou até apontar para Rick.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
Fangoria 001 (1979)
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Nunca se sabe - Fanzine Mensal
Literatura Barata: NUNCA SE SABE -Vol. 1
Ficção Especulativa, Terror, Horror, Histórias em Quadrinhos e Pulp Fiction.
Mais de Hugo Máximo
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Capacitor Fantástico
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terça-feira, 8 de junho de 2010
Skoop
O skoob é o local onde você diz o que está lendo, o que já leu e o que ainda vai ler, seus amigos fazem o mesmo e assim, todos compartilham suas opiniões e críticas.
É também um lugar para fazer novos amigos, tem muita gente que gosta dos mesmos livros que você, nosso papel é ajudá-lo a encontrar essas pessoas e saber quais são suas dicas para a sua próxima leitura.
Como usar:
O primeiro passo é se cadastrar no skoob, tornando-se um "skoober", depois adicione seus livros à sua estante. A partir daí as coisas começam a ficar mais divertidas, existem várias ferramentas no site para você interagir com outros skoobers.
Projeto Livro Falado
Agência Brasil
RIO - O projeto Livro Falado lançou esta semana o site www.livrofalado.pro.br , onde deficientes visuais podem ter acesso a mais de 350 livros gravados, de cerca de 280 autores brasileiros. O objetivo também é atender pessoas com cegueira dos outros países de língua portuguesa: Portugal, Angola, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau disse à Agência Brasil a criadora do projeto, a mestre em teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Analu Palma.
Para isso, o projeto, que existe há dez anos, conta com patrocínio da BR Distribuidora e a parceria da Academia Brasileira de Letras (ABL). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, a prevalência de cegueira na população é de 0,3% e de baixa visão, 1,7%. A pessoa com baixa visão é aquela que mesmo após tratamentos ou correção óptica apresenta diminuição considerável de sua função visual.
O projeto Livro Falado pretende incluir os deficientes visuais em duas instâncias: na questão da literatura, de acesso ao livro; e no tocante à qualificação para o ator cego.
Analu Palma é autora do livro falado Uma História para Ler, Gravar e Ouvir, em que apresenta para as pessoas as habilidades e dificuldades de uma criança que não enxerga, além de ensinar como se grava livros para deficientes visuais. Com base nesses ensinamentos, ela começou a ministrar oficinas do livro falado. Já foram capacitados, até agora, mais de 400 ledores em todo o país.
Os ledores voluntários são qualificados e aprendem como transformar um livro impresso em uma obra acessível em áudio para uma pessoa que não enxerga. Outro procedimento é aprender a gravar em um programa de computador para que o livro já fique em CD. A terceira fase da oficina se refere à voz do voluntário, ou seja, ensina como ter uma boa dicção, além de boa leitura.
Para acessar os livros gravados, as pessoas cegas devem acessar o site Agência Brasil
RIO - O projeto Livro Falado lançou esta semana o site www.livrofalado.pro.br , onde deficientes visuais podem ter acesso a mais de 350 livros gravados, de cerca de 280 autores brasileiros. O objetivo também é atender pessoas com cegueira dos outros países de língua portuguesa: Portugal, Angola, Moçambique, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau disse à Agência Brasil a criadora do projeto, a mestre em teatro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Analu Palma.
Para isso, o projeto, que existe há dez anos, conta com patrocínio da BR Distribuidora e a parceria da Academia Brasileira de Letras (ABL). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, a prevalência de cegueira na população é de 0,3% e de baixa visão, 1,7%. A pessoa com baixa visão é aquela que mesmo após tratamentos ou correção óptica apresenta diminuição considerável de sua função visual. O projeto Livro Falado pretende incluir os deficientes visuais em duas instâncias: na questão da literatura, de acesso ao livro; e no tocante à qualificação para o ator cego.
Analu Palma é autora do livro falado Uma História para Ler, Gravar e Ouvir, em que apresenta para as pessoas as habilidades e dificuldades de uma criança que não enxerga, além de ensinar como se grava livros para deficientes visuais. Com base nesses ensinamentos, ela começou a ministrar oficinas do livro falado.
Já foram capacitados, até agora, mais de 400 ledores em todo o país.
Os ledores voluntários são qualificados e aprendem como transformar um livro impresso em uma obra acessível em áudio para uma pessoa que não enxerga. Outro procedimento é aprender a gravar em um programa de computador para que o livro já fique em CD. A terceira fase da oficina se refere à voz do voluntário, ou seja, ensina como ter uma boa dicção, além de boa leitura.
Para acessar os livros gravados, as pessoas cegas devem acessar o site www.livrofalado.pro.br .
Para obter a gravação de um livro específico, é preciso enviar e-mail para livrofalado@livrofalado.pro.br
A remessa é gratuita.
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Para obter a gravação de um livro específico, é preciso enviar e-mail para livrofalado@livrofalado.pro.br.
A remessa é gratuita.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Fantástica - Falando da Ficção Nacional
Apresentação da revista digital Fantástica:
É com satisfação que apresentamos este projeto, que será muito relevante à literatura nacional.
A FANTÁSTICA é talvez a primeira revista digital voltada EXCLUSIVAMENTE para a literatura fantástica nacional.
A grande motivação da FANTÁSTICA é criar um meio forte que consiga unir todos os públicos deste gênero, que ainda nos parecem um pouco dispersos.
A FANTÁSTICA é feita por autores e idealizada para todos os apreciadores deste gênero, tão adorado por tantos. Todos os envolvidos de alguma forma na ficção nacional, sejam leitores ou autores, terão seu espaço dentro da revista, que é GRATUITA, e está aí justamente para dar o suporte a todos que estiverem na batalha e acreditam em seu talento.
domingo, 6 de junho de 2010
Edmond Hamilton
Edmond Hamilton (21 de novembro de 1904 - 01 de fevereiro de 1977) nasceu em Youngstown, Ohio (EUA).
Na história da ficção científica, poucos autores foram capazes de fazer a transição, dos primeiros dias de pseudo-ciência, para a dura realidade do mundo pós-nuclear.
E entre os que fizeram, menos ainda foram aqueles capazes de se adaptar às mudanças, da Guerra Fria, às convulsões sociais dos anos 60. Poucos conseguiram escrever contos e romances ao longo de tudo isso: desde a criação da Space Opera, ao primeiro pouso na Lua e além.
Um desses autores foi Edmond Hamilton.
Criança prodígio, Hamilton entrou na faculdade aos 14 anos de idade, com o sonho de se tornar um engenheiro elétrico. Infelizmente as discrepâncias de idade entre Hamilton e os outros alunos, fizeram muito difícil para ele adaptar-se socialmente ao seu novo ambiente, e nunca concluíu o curso.
Aos 17 anos conseguiu um emprego na Pennsylvania Railroad, enquanto tentava descobrir o que fazer com o resto de sua vida.
Hamilton sempre foi um leitor voraz, especialmente das obras de Burroughs e apesar de nunca ter demonstrado qualquer inclinação para a escrita, em meados dos anos 20, decidiu ser um escritor.
Se esta decisão foi apenas um exercício intelectual ou nasceu da necessidade de melhorar de vida, não é conhecida, mas sua primeira tentativa literária, o conto "O Monstro da Mamurth-Deus", foi submetido a revista Weird Tales e aceito, e foi publicado em 1926.
Sua segunda história foi aceita com a mesma facilidade, e num tempo muito curto, Hamilton tornou-se um autor estabelecido.
Suas histórias de horror, assim como histórias de ficção científica, tinham o estilo "space opera" de EE "Doc" Smith.
Hamilton também ganhou o apelido de "Destruidor de Mundos", já que a maioria destes contos envolvia uma grande ameaça para a galáxia, e que tinha que ser derrotada, geralmente, por uma armada espacial e acabava com a destruição de um planeta ou dois.
Dos anos 20 até meados dos anos 40, Hamilton trabalhou como escritor freelance, e foi muito prolífico, escrevendo frequentemente vários contos, simultaneamente enquanto trabalhava em romances. Ele também escreveu mistério policial, durante os períodos de baixa na venda de ficção científica.
Algumas estimativas sugerem que sua produção de contos possui números na ordem das centenas, mas como alguns dos trabalhos de Hamilton foram publicados sob pseudônimo, o verdadeiro número não poderá nunca ser conhecido.
Hamilton também concebeu uma série de novidades na FC, incluindo a primeira utilização de um traje espacial, a primeira caminhada espacial, e o primeiro uso de uma espada de energia, o protótipo para o que George Lucas, um fã de Hamilton, chamaria de sabre de luz.
A final dos anos 40, Hamilton diminuiu sua produção como escritor. Primeiro por que casou-se com a autora de FC Leigh Brackett, depois porque decidiu dedicar-se aos quadrinhos, um mercado que começava a tomar corpo e pagar boas quantias aos escritores.
Exatamente como ele entrou para os quadrinhos é um mistério. Seu velho amigo e ex-editor, Mort Weisinger, tinha sido o editor sênior da Standard Magazine, antes de se mudar para a DC Comics em 1941.
Logo após, ele e Hamilton, criaram o personagem Captain Future, que posteriormente viraria uma franquia de sucesso comercial nos EUA.
O primeiro trabalho de Hamilton na DC Comics, que se tem registro, foi em Batman número 11.
Inicialmente contratado como escritor de Batman, Hamilton foi logo dando sugestões e criando histórias também para Superman e muitos outros.
Foi de Hamilton, o título mais famoso e prestigiado da revista Superman, entre os críticos de quadrinhos, "Superman Sob o Sol Vermelho", que apareceu em Action Comics num.300, em 1963, e que tem muitos elementos em comum com seu romance 'A Cidade No Fim do Mundo' (1951).
Em 1966, Hamilton anunciou sua aposentadoria, deixando os leitores da DC e os amantes da Ficção Científica tristes.
Edmond Hamilton (Children of the sun, Moon of unforgotten, Calling Captain Future, A conquest of two Worlds, A Yank at Valhala, Battle for the stars, Birthplace of Creation, The Comet Kings, The face of the Deep, Red sun of danger, The harpers of Titan, Pardon my nerves, Earthmen no more, Jupiter, Pluto, Mars, Futuria, Children of the Sun, Devoltuion, Doomstar, Exile, Fugitives of the stars, Murder in the Void, Starwolf Omnibus, The City at World's End, The Futuremen Collection, The Godmen, The Haunted Stars, The man who evolved, The Monster-God of Mamurth, The Monsters of Juntonheim, The Star Hunters, The Star Kings, The Stars my brothers, The Sun Smasher, The Three Planeteers, The Valley of Creation, What's it like out there, Exilio, Terra extrana ) [ Download ]
sábado, 5 de junho de 2010
O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 10)
NO ENORME ventre de baleia de aço e pedra construído para formar a velha e duradoura Casa da Ópera, encontrou em andamento um ecoante, barulhento e ligeiramente mal organizado ensaio.
Ao entrar, reconheceu a música, A Flauta Mágica, de Mozart, o primeiro ato da cena final. Os escravos do mouro — em outras palavras, o coro — iniciaram a canção um compasso mais cedo, e isto anulara o ritmo simples dos sinos mágicos.
Que prazer! Adorava A Flauta Mágica.
Sentou-se numa das poltronas do balcão nobre (ninguém pareceu lhe notar a presença) e se pôs confortável. Naquele momento, Papageno, em sua fantasia de pelagem feita de penas de aves, cantava juntamente com Pamina, as palavras que sempre lhe enchiam de lágrimas os olhos, quando e se pensasse nelas.
Kõnnte jeder brave Mann solche Glõckchen finden, seine Feinde -würden dann ohne Milhe sobivinden.
Bem, pensou Rick, na vida real não existem esses sinos mágicos que façam com que o inimigo desapareça sem esforço algum. Que pena! Mozart, não muito depois de ter composto A Flauta Mágica, falecera — na casa dos trinta anos — de uma doença renal. E fora sepultado num túmulo anônimo de indigente.
Pensando nisto, perguntou-se se Mozart tivera alguma intuição de que o futuro não existia, que já esgotara seu pouco tempo. Talvez eu tenha, também, pensou Rick, observando o desenrolar do ensaio. Este ensaio terminará, a representação terminará, os cantores morrerão, finalmente a última partitura da música será destruída, de uma forma ou de outra. No fim, o nome "Mozart" desaparecerá e a poeira terá vencido. Se não neste planeta, então em outro. Podemos evitá-la durante algum tempo. Como os andros podem me evitar e existir por um período finito um pouco maior. Mas eu os pego ou algum outro caçador de cabeças. De uma certa maneira, deu-se conta, sou parte do processo de entropia que destrói formas. A Rosen Association faz e eu desfaço. Ou, de alguma maneira, é assim que deve parecer a ela.
No palco, Papageno e Pamina iniciavam um diálogo.
Interrompeu a introspecção para escutar.
Papageno: "Minha criança, o que devemos agora dizer?
Pamina: "A verdade. É isso o que diremos "
Inclinando-se para a frente a fim de observar, Rick estudou Pamina, vestida em seu pesado hábito, de sua touca descendo o véu que lhe emoldurava os ombros e a face. Reexaminou a folha de informações e, em seguida, recostou-se, satisfeito.
Acabo de ver minha terceira andróide Nexus-6, compreendeu. Essa aí é Luba Luft.
Um pouco estranho o sentimento que seu papel exige.
Por mais vital, ativa e bonitona que seja uma andróide fugida, ela dificilmente pode dizer a verdade. De qualquer modo, sobre si mesma.
No palco, Luba Luft continuava a cantar e ele ficou surpreso com a qualidade da voz: comparava-se com as melhores, mesmo com as das notáveis em sua coleção de fitas. A Rosen Association construíra-a bem, isto tinha que reconhecer. E, mais uma vez, viu-se subespécie aetemitatis, o destruidor de formas, chamado pelo que ali ouvia e via. Talvez, o quanto melhor ela represente, o melhor cante, mais necessário eu seja. Se os andróides houvessem permanecido subpadrão, como os antigos q-40s fabricados pela Derain Associates, não haveria problema nem necessidade de minha perícia. Gostaria de saber quando é que devo fazer isto, pensou. Tão logo quanto puder, provavelmente. Ao fim do ensaio, quando ela se dirigir para o camarim.
Ao fim do ato, o ensaio foi suspenso temporariamente. Seria reiniciado, disse o maestro em inglês, francês e alemão, dentro de hora e meia. Em seguida, foi embora. Os músicos deixaram seus instrumentos onde estavam e se afastaram também. Levantando-se, Rick dirigiu-se para os bastidores, para os camarins; seguiu o rabo da fila do elenco, sem pressa, pensando. Será melhor assim, acabar logo com a coisa. Passarei algum tempo conversando com ela, testando-a na forma do possível. Logo que eu tiver certeza — mas, tecnicamente, não poderia ser senão depois do teste. Talvez Dave tivesse tido um palpite errado a respeito dela, conjecturou. Mas duvidava disso. Já, instintivamente, seu senso profissional reagira, E não cometera um erro ainda... em todos os seus anos no departamento.
Detendo um figurante, perguntou-lhe onde ficava o camarim da Srta. Luba Luft.
O figurante, usando a maquilagem e o trajo de lanceiro egípcio, apontou.
Chegou à porta indicada, viu uma nota escrita pregada nela, dizendo:
SRTA. LUFT - PARTICULAR, e bateu.
— Entre.
Entrou. Viu a moça sentada à penteadeira, uma bem usada partitura encadernada em pano sobre os joelhos, fazendo anotações aqui e ali com uma caneta esferográfica. Usava ainda a fantasia e a maquilagem, menos a touca, que colocara num cabide.
— Sim? — disse ela, erguendo os olhos. A maquilagem para o palco alargava-lhe os olhos, enormes e amendoados, que se fixaram nele e não se desviaram. — Estou ocupada, como o senhor pode ver. — No seu inglês, um leve vestígio de sotaque.
— Para mim a senhora é melhor do que a Schwarzkopf — disse Rick.
— Quem é o senhor? — O tom dela mantinha fria reserva — e aquele outro frio que ele encontrara em tantos andróides. Sempre os mesmos: grande intelecto, capacidade de realizar muito, mas também isto. Era uma coisa que deplorava. Mas sem isso não podia localizá-los.
— Sou do Departamento de Polícia de São Francisco — respondeu.
— Oh? — Os imensos e sérios olhos não pestanejaram, não reagiram. — O que é que o senhor quer aqui? — O tom de voz dela, estranhamente, parecia gracioso.
Sentando-se numa cadeira próxima, ele abriu o fecho da pasta.
— Fui enviado aqui a fim de aplicar na senhora um teste-padrão de perfil de personalidade, o que não levará mais de dez minutos.
— Isto é necessário? — Com um gesto indicou a grande partitura encadernada em pano. — Tenho muita coisa a fazer.
Nesse momento, ela começara a parecer apreensiva,
— É necessário. — Tirou da pasta os instrumentos Voigt-Kampff e começou a montá-los.
— Um teste de quociente de inteligência?
— Não. De empatia.
— Tenho que colocar meus óculos — Estendeu a mão para abrir a gaveta da penteadeira.
— Se a senhora pode marcar a partitura sem óculos, também pode submeter-se a este teste. Vou-lhe mostrar alguns desenhos e fazer diversas perguntas. Enquanto isto...— levantou-se, aproximou-se dela e pregou-lhe no rosto profundamente pintado os discos sensitivos. — E esta luz — continuou, ajustando o ângulo do fino feixe — E isto é tudo.
— O senhor pensa que eu sou andróide? É isso? — Sua voz caíra quase até o ponto de extinção, — Eu não sou andróide. Nunca fui nem mesmo a Marte. Nem nunca vi um andróide! — Seus cílios alongados tremeram involuntariamente e ele notou que tentava dar uma aparência de calma. — O senhor tem informação de que há um andróide no elenco? Eu teria prazer em ajudá-lo e, se fosse um andróide, eu teria esse prazer?
— Um andróide — observou ele — não se importa com o que acontece com outro andróide. Esta é uma das indicações que procuramos.
— Neste caso — disse a Srta. Luft — o senhor tem que ser um andróide. — Essas palavras deixaram-no surpreso. Olhou-a fixamente. — Porque — continuou ela — seu trabalho é matá-los, não? O senhor é o que chamam de... — Fez um esforço para se lembrar.
— Um caçador de cabeças a prêmio — respondeu Rick. — Mas eu não sou andróide.
— Esse teste que o senhor quer aplicar-me... — A voz dela começou a voltar. — O senhor já se submeteu a ele?
— Já — confirmou ele, inclinando a cabeça. — Há muito, muito tempo, quando comecei a trabalhar no departamento.
— Isso talvez seja uma falsa recordação Às vezes, andróides não têm falsas memórias?
— Meus superiores estão cientes do teste que fiz — disse Rick. — É compulsório.
— Talvez houvesse certa vez um ser humano que se parecia com o senhor e, no correr do tempo, o senhor matou-o e ocupou-lhe o lugar. E seus superiores não sabem disso. — Ela sorriu. Como se o convidando para que concordasse com ela.
— Vamos prosseguir com o teste — disse ele, tirando a lista das perguntas.
— Eu me submeterei ao teste — disse Luba Luft — se o senhor se submeter primeiro
Mais uma vez, ele olhou-a fixamente, sem saber o que dizer.
— Isto não seria mais justo? — perguntou ela. — Neste caso, eu teria certeza a seu respeito. Não sei, o senhor parece tão estranho, tão duro, tão peculiar. — Tremeu. E sorriu outra vez Esperançosamente.
— A senhora não seria capaz de administrar o Teste Voigt-Kampff. Ele exige grande experiência, Agora, por favor, ouça com toda atenção. Essas perguntas dizem respeito a situações sociais que pode encontrar e delas participar. O que quero da senhora é uma declaração de reação, o que faria. E quero a reação com tanta rapidez quanto puder. Um dos fatores que vou anotar é a defasagem temporal, se houver. —
Selecionou a pergunta inicial. — Está sentada assistindo à televisão quando, subitamente, descobre uma vespa andando pelo seu punho. — Olhou para o relógio, contando os segundos. E verificou, também, os mostradores geminados.
— O que é uma vespa? — perguntou Luba Luft.
— Um inseto que pica e voa.
— Oh, que coisa estranha. — Seus olhos imensos alargaram-se em aceitação infantil, como se ele lhe houvesse revelado o principal mistério da criação. — Existem? Nunca as vi.
— Morreram por causa da poeira. Não sabe, realmente o que é uma vespa? Você devia estar viva quando havia vespas. Isso foi há apenas...
— Diga-me a palavra alemã.
Ele fez um esforço para pensar na palavra alemã que significa vespa, mas não conseguiu.
— Seu inglês é perfeito — disse irritado.
— Meu sotaque — retrucou ela, corrigindo-o — é perfeito. Tem que ser, para papéis em obras como as de Purcell, Walton e Vaughan Williams. Mas meu vocabulário não é muito grande. — Olhou-o, tímida.
— Wespe — disse ele, lembrando-se da palavra alemã.
— Ach, sim, eine Wespe. — Riu. — E qual foi a pergunta? Já me esqueci.
— Vamos tentar outra. — Era impossível, nesse momento, obter uma reação significativa. — Você está assistindo a um velho filme na TV, um filme de antes da guerra. Mostra um banquete. A entrada — engoliu a primeira parte da pergunta — consiste de cachorro cozido, recheado com arroz.
— Ninguém mataria e comeria um cachorro — respondeu Luba Luft. — Eles custam um fortuna. Mas acho que seria um cachorro de imitação, um sucedâneo. Certo? Mas eles são feitos de fios e motores. Não podem ser comidos.
— Antes da guerra — disse ele em voz áspera.
— Eu não havia nascido ainda antes da guerra.
— Mas viu velhos filmes na TV.
— O filme foi feito nas Filipinas?
— Por quê?
— Porque — explicou Luba Luft — nas Filipinas o povo costumava comer cachorros cozidos e recheados com arroz. Lembro-me de ter lido isso.
— Mas, sua reação... — disse ele. — Quero sua reação social, emocional, moral.
— Ao filme? — Ela pensou durante um momento. — Eu desligaria e mudaria para Buster Amigão.
— Por que desligaria?
— Ora — disse ela irritada —, quem, diabos, quereria ver um velho filme passado nas Filipinas? O que foi que aconteceu nas Filipinas, exceto a Marcha da Morte de Bataan, e o senhor ia querer ver isso? —
Olhou-o, indignada. Nos mostradores, os ponteiros giraram em todas as direções.
Depois de uma pausa, ele disse, medindo as palavras:
— Você aluga uma cabana na montanha.
— Ja. — Ela inclinou a cabeça. — Continue. Estou esperando.
— Numa área ainda luxuriante.
— Perdão! — Ela fez concha com a mão ao ouvido. — Nunca ouvi essa palavra.
— Ainda estão crescendo por lá árvores e arbustos. A cabana é rústica, feita de troncos de pinheiros e tem uma enorme lareira. Das paredes pendem velhos mapas, reproduções de Currier e Ives, e em cima da lareira há uma cabeça de cervo empalhada, um macho adulto com uma galhada bem desenvolvida. As pessoas que estão em sua companhia admiram o décor da cabana e...
— Eu não compreendo as palavras "Currier", "Ives" ou "décor" — disse Luba. Parecia esforçar-se, no entanto, para descobrir o que essas palavras significavam. — Espere.
— Ergueu a mão, animada. — Com arroz, como o cachorro. Currier é aquilo que dá cor ao arroz. É curry em alemão.
Ele não conseguia chegar a uma conclusão, Deus tivesse pena dele, se o nevoeiro semântico de Luba Luft tinha alguma finalidade. Depois de consulta consigo mesmo, resolveu tentar outra pergunta. O que mais poderia fazer?
— Você está namorando com um homem — disse — e ele lhe pede que o visite em seu apartamento. Enquanto está lá...
— O nein — interrompeu-o Luba. — Eu não iria lá. Essa é fácil de responder.
— Essa não é a pergunta!
— O senhor escolheu a pergunta errada? Mas eu compreendo essa. Por que a questão que eu compreendo é a errada? Não se espera que eu compreenda? — Mexendo-se nervosa, ela coçou o rosto, e soltou o disco adesivo, que caiu no chão e rolou para baixo da penteadeira. — Ach Gott — murmurou ela, abaixando-se para apanhá-lo. Um chiado, de tecido que se rasga. De sua caprichosa fantasia.
— Eu o pego — disse ele e afastou-a para o lado. Ajoelhou-se, procurou embaixo da penteadeira até que seus dedos localizaram o disco.
Quando se ergueu, viu que olhava para um tubo de laser.
— Suas perguntas — disse Luba Luft em voz seca, formal — começaram a mudar para sexo. Eu achei que, no fim, chegariam a isso. O senhor não é do Departamento de Polícia. O senhor é um tarado sexual.
— Pode examinar minha identificação. — Estendeu a mão para o bolso do casaco. A mão, notou, começara a tremer, corno acontecera no caso de Polokov.
— Se tocar aí — disse Luba Luft —, mato-o.
— Você matará, de qualquer maneira. — Perguntou-se como a coisa se teria desenvolvido, se houvesse esperado até que Rachael Rosen viesse ajudá-lo. Bem, de nada adiantava pensar nisso.
— Mostre-me mais algumas de suas perguntas. — Estendeu a mão e ele, relutante, entregou-lhe as folhas. — Numa revista, você encontra uma foto de página inteira de uma moça nua." Bem, esta é uma delas. "Você fica grávida do homem que prometeu casar com você O homem vai embora com outra mulher, sua melhor amiga. Você faz um aborto." A orientação de seu interrogatório é óbvia. Vou chamar a polícia. Segurando ainda o tubo de laser em sua direção, atravessou a sala, apanhou o videofone e discou telefonista: —
Ligue-me com o Departamento de Polícia de São Francisco — disse. — Preciso de um policial.
— O que você está fazendo — observou aliviado Rick — é a melhor coisa possível. — Ainda assim, parecia-lhe estranho que Luba houvesse resolvido fazer isso. Por que, simplesmente, não o matava? Uma vez chegasse o patrulheiro, a chance dela desapareceria e tudo mais lhe seria favorável.
Ela tem que pensar que é humana, decidiu ele. Obviamente, não sabe.
Minutos depois, durante os quais Luba manteve-o sob cuidadosa mira do tubo de laser, chegou um policial grandalhão usando seu arcaico uniforme azul e portando uma arma e uma estrela.
— Muito bem — disse ele imediatamente, dirigindo-se a Luba. — Guarde essa coisa. — Ela pôs de lado o tubo de laser e ele apanhou-o para ver se estava carregado. — Agora, o que é que está acontecendo aqui? — perguntou-lhe. Antes que ela pudesse responder, ele virou-se para Rick: — E quem é o senhor? — indagou.
— Ele entrou no meu camarim — explicou Luba Luft. — Nunca o vi antes em toda minha vida. Ele fingiu que estava fazendo uma pesquisa ou alguma coisa assim e queria me fazer perguntas. Eu pensei que não havia problema, disse que estava tudo bem, e então ele começou a me fazer perguntas obscenas.
— Mostre-me sua identificação — disse o policial a Rick, mão estendida.
Tirando-a, Rick explicou:
— Eu sou um caçador de cabeças a prêmio do Departamento.
— Eu conheço todos os caçadores de cabeça — disse o policial, examinando a carteira de Rick. — No Departamento de Polícia de São Francisco?
— Meu supervisor é o Inspetor Harry Bryant — disse Rick. — Eu fiquei com a lista de Dave Holden, agora que Dave está no hospital.
— Como eu disse, conheço todos os caçadores de cabeça — repetiu o policial —, e nunca ouvi falar em você. — Devolveu-lhe a identificação.
— Telefone para o Inspetor Bryant — sugeriu Rick.
— Não há nenhum Inspetor Bryant — retrucou o policial.
Rick compreendeu logo o que estava acontecendo.
— Você é um andróide — disse ao policial. — Como a Srta. Luft. — Dirigindo-se para o videofone, levantou o aparelho, — Vou ligar para o Departamento. — E se perguntou quanto tempo teria antes que os dois andróides o pegassem.
— O número — disse o policial fardado — é...
— Eu sei o número. — Discou e, no mesmo instante, apareceu o rosto da telefonista da polícia. — Quero falar com o Inspetor Bryant — disse.
— Quem está falando, por favor.
— Rick Deckard. — Ficou à espera. Enquanto isso, num dos cantos da sala, o policial tomava as declarações de Luba Luft. Nenhum dos dois lhe prestava a menor atenção.
Uma pausa e, em seguida, a face de Harry Bryant apareceu no vídeo.
— Um pequeno problema — explicou Rick.
— O que é que está havendo? — perguntou a Rick. — Um dos suspeitos que estão na lista de Dave conseguiu telefonar e chamar um guarda. Parece que não consigo provar a ele quem sou. Ele diz que conhece todos os caçadores de cabeça do Departamento e que nunca ouviu falar em mim. — E acrescentou: — E tampouco ouviu falar no senhor.
— Deixe-me falar com ele — ordenou Bryant.
— O Inspetor Bryant quer falar com você. — Rick estendeu-lhe o videofone. O guarda deixou de interrogar a Srta. Luft e veio atender.
— Guarda Crams — disse ele, em tom marcial. Uma pausa. — Alô. — Escutou, disse alô várias vezes mais, esperou e, em seguida, voltou-se para Rick. — Não há ninguém na linha. E ninguém na tela. — Apontou para a tela do videofone e nela Rick nada viu.
Tomando o aparelho da mão do guarda, disse:
— Sr. Bryant? — Escutou, esperou. Nada. — Vou discar outra vez. — Desligou, esperou e em seguida rediscou o conhecido número. O telefone tocou do outro lado, mas ninguém atendeu, e continuou a chamar sem parar.
— Deixe-me experimentar — disse o guarda Crams, tirando o aparelho da mão de Rick. — O senhor deve ter discado errado. — Discou. — O número é 842...
— Eu sei o número — disse Rick.
— Guarda Crams chamando — disse ao telefone. — Há algum Inspetor Bryant ligado ao Departamento? — Uma curta pausa. — Bem, e um caçador de cabeças chamado Rick Deckard? — Mais uma vez, uma pausa. — Tem certeza? Poderia ele ter sido recentemente...Oh, compreendo. Certo, obrigado. Não, a situação está sob controle. — O guarda Crams desligou e voltou-se para Rick.
— Eu o tive na linha — garantiu Rick. — Falei com ele. Ele disse que ia falar com o senhor. Deve ser problema com o telefone. A ligação deve ter caído em alguma parte. Vocês não viram ...o rosto de Bryant apareceu na tela e depois desapareceu? — Sentiu-se confuso.
— Eu tenho as declarações da Srta. Luft, Deckard. Assim, vamos até o Palácio de Justiça para eu dar parte de você.
— Muito bem — concordou Rick. A Luba Luft, disse: — Volto daqui a pouco. Ainda não acabei meu teste com você.
— Ele é um tarado — informou Luba Luft ao guarda Crams. — Ele me dá calafrios. — Tremeu toda.
— Que ópera a senhora está ensaiando? — perguntou o guarda Crams.
— A Flauta Mágica — respondeu Rick.
— Eu não perguntei a você. Perguntei a ela. — Lançou-lhe um olhar de desagrado.
— Estou ansioso para chegar ao Palácio de Justiça — disse Rick. — Este assunto precisa ser esclarecido. — Dirigiu-se para a porta do camarim, a pasta firme em sua mão.
— Primeiro, vou passar você em revista.
Habilmente, o guarda Crams correu-o com as mãos e descobriu a pistola de serviço de Rick e o tubo de laser. Confiscou a ambos, depois de cheirar por um momento o cano da pistola. — Esta aqui foi disparada recentemente — disse.
— Acabei de aposentar um andróide — explicou Rick. — Os restos dele estão ainda no meu carro, lá em cima no telhado.
— Muito bem — disse o guarda Crams — vamos subir até lá e dar uma olhada.
A Srta. Luft acompanhou os dois até a porta do camarim:
— Ele não vai voltar, vai, seu guarda? Estou realmente com medo dele. Ele é tão estranho.
— Se ele está com o cadáver de alguém que matou lá em cima no carro — respondeu Crams —, ele não vai voltar.
Empurrou Rick para a frente com o cotovelo e, juntos, os dois tomaram o elevador em direção ao telhado da Casa da Ópera.
Abrindo a porta do carro de Rick, o guarda Crams examinou em silêncio os restos do corpo de Polokov.
— Um andróide — disse Rick. — Recebi ordens de pegá-lo. Ele quase me pegou, fingindo ser ...
— Vão tomar seu depoimento no Palácio de Justiça — interrompeu-o o guarda Crams. Empurrou-o para seu carro policial estacionado próximo, marcado claramente. Nele, pelo rádio, chamou alguém para vir apanhar o que restava de Polokov.
— Muito bem, Deckard — disse, desligando —, vamos embora.
Com os dois a bordo, o carro de patrulha levantou vôo do telhado e dirigiu-se para o sul.
Alguma coisa, notou Rick, não era o que devia ser. O guarda Crams dirigia o carro na direção errada.
— O Palácio de Justiça fica ao norte — disse —, na Lombard.
—Aquele era o velho Palácio de Justiça — explicou Crams. — O novo fica em Mission. Aquele velho prédio está se desintegrando. É uma ruína. Ninguém o usa há anos. Passou tanto tempo assim desde a última vez em que você foi preso?
— Leve-me para lá — pediu Rick. — Para a Lombard Street. — Compreendia tudo naquele instante, percebia o que os andróides, trabalhando juntos, haviam conseguido. Ele não sobreviveria a este passeio. Para ele, era o fim, como quase fora para Dave — e com toda probabilidade seria, mais tarde.
— Aquela pequena é bem bonitona — observou o guarda Crams. — Claro, com aquela fantasia a gente não pode saber sobre o corpo. Mas eu diria que é bem bacana.
— Confesse que você é um andróide — disse Rick.
— Por quê? Eu não sou. O que é que você faz, anda por aí matando gente e dizendo a si mesmo que eles são andróides? Compreendo porque a Srta. Luft ficou com medo. Foi bom para ela ter nos chamado.
— Neste caso, leve-me para o Palácio de Justiça, na Lombard.
— Como eu disse...
— Isto só vai levar uns três minutos — insistiu Rick. -— Quero vê-lo. Todas as manhãs eu me apresento para o trabalho. Quero ver se está abandonado há anos, como o senhor diz.
— Talvez você seja um andróide — replicou o guarda Crams. — Com uma falsa memória, como a que lhes dão. Pensou nisso? — Sorriu friamente e continuou a dirigir para o sul.
Consciente de sua derrota e fracasso, recostou-se no assento. E, impotente, ficou à houvessem planejado, agora que se tinham apossado dele.
Mas peguei um deles, disse espera do que viria em seguida.
O que quer que os andróides a si mesmo. Peguei Polokov. E Dave pegou dois.
Pairando sobre Mission, o carro policial do guarda Crams iniciou a descida para o pouso.
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sexta-feira, 4 de junho de 2010
Simulacron-3 - Daniel F.Galouye
Uma jovem loura na frente do batalhão rumou diretamente para mim. Antes que eu pudesse me mexer, ela havia passado meu braço em torno de sua cintura. Seus olhos estavam excessivamente pintados e mechas de cabelo platinado caíam-lhe sobre os ombros nus.
- Sr. Hall, não é fascinante... aquela pedra marciana? O senhor tem alguma coisa a ver com ela? Suspeito que sim.
Olhei de soslaio para Siskin, que se afastava discretamente. Então reconheci a pequena como uma de suas secretárias particulares. A manobra era clara. Ela ainda estava trabalhando. Apenas que sua missão agora era extracurricular, conciliatória, e fora dos limites do Escritório Geral de Siskin.
- Não, foi tudo idéia do seu chefe.
- Oh! - disse ela, olhando para ele com admiração enquanto nos afastávamos. - Que homenzinho engenhoso! Ora, Ele é apenas um bonequinho, não é? Um bonequinho ativo e simpático!
Tentei escapar, mas ela tinha sido bem instruída.
- E seu campo, Sr. Hall, é sim... simulação?
- Simuletrônica.
- Fascinante! Sei que quando o senhor e o Sr. Siskin completarem a máquina - posso chamar de máquina, não posso... ?
- É um simulador total do ambiente. Conseguimos eliminar todos os defeitos - na terceira tentativa. Chamamo-la de Simulacron-3.
-... quando o simulador estiver funcionando, não haverá mais necessidade dos "metidos".
Ela se referia, naturalmente, aos pesquisadores de opinião pública, ou simplesmente "pesquisadores", como são mais comum ente chamados. Prefiro a última denominação, pois nunca nego a um homem a oportunidade de ganhar a vida, mesmo que isso signifique um batalhão de... bem, de "metidos", espreitando os hábitos e ações diários do público.
- Não pretendemos tirar o trabalho de ninguém expliquei. - Mas quando a pesquisa de opinião se tornar completamente automatizada, será preciso fazer certas modificações nas práticas de emprego.
Ela me conduziu para a janela.
- Qual é a sua intenção, Sr. Hall? Fale-me do seu... simulador. E todo mundo me chama de Dorothy.
- Não há muito a dizer.
- Oh, não seja tão modesto. Estou certa de que há.
Se ela pretendia continuar com esta manobra planejada por Siskin, não havia nenhuma razão para eu não manobrar também - em um nível um pouco acima de sua compreensão.
- Bem, a senhorita compreende, vivemos em. uma sociedade complexa que prefere não correr riscos nos negócios. Assim, existe uma infinidade de organizações de pesquisa de opinião pública. Antes de lançarmos um produto, queremos saber quem vai comprá-lo, com que frequência, quanto poderá pagar; qual a melhor tática para fazer as pessoas mudarem de religião; quais as probabilidades de que o governador Stone seja re-eleito; se a Tia Bessie vai preferir o azul ou o rosa para os vestidos da próxima estação.
Ela me interrompeu com um risinho.
- "Metidos" escondidos atrás de cada moita.
Concordei.
- Pesquisadores em profusão. Amolações, naturalmente. Mas Eles são protegidos pela Lei dos Pesquisadores de Opinião Pública.
- E o Sr. Siskin vai acabar com tudo isso - o Sr. Siskin e você?
- Graças a Hannon J. Fuller, descobrimos um meio melhor. Podemos simular eletronicamente um ambiente social. Podemos povoá-lo com análogos subjetivos - unidades de identidade. Manipulando o ambiente, estimulando as unidades ID, podemos estimar o comportamento em situações hipotéticas.
O sorriso dela esmaeceu, deu lugar a uma expressão de espanto, e então voltou em plena forma.
- Compreendo - disse. - Mas era evidente que não havia compreendido. O que encorajou minha tática.
- O simulador é um modelo eletro-matemático de uma comunidade normal.
Permite previsões de comportamento a longo prazo. E essas previsões são ainda mais válidas que as que se pode obter com um exército de pesquisadores - "metidos" - percorrendo a cidade.
Ela riu sem entusiasmo.
- Mas naturalmente. Puxa, nunca pensei... seja bonzinho, Doug. Arranje-nos uma bebida. Qualquer coisa.
Devido à algum senso mal orientado de fidelidade a Siskin, talvez eu tivesse mesmo ido apanhar uma bebida para ela. Mas havia quatro filas de pessoas em volta do bar, e enquanto eu hesitava, um dos rapazes da promoção se dirigiu confiantemente para Dorothy,
Aliviado, passei até a mesa do bufê. Ali perto, Siskin, ladeado por um colunista e o representante de uma cadeia de televisão, enumerava as maravilhas do simulador da RESA.
Ele sorria efusivamente.
- Na verdade, é possível que esta nova aplicação da Simuletrônica - é um processo secreto, vocês sabem - tenha um tal impacto sobre nossa cultura que o resto dos Estabelecimentos Siskin tenha que se curvar ante a Reações S. A.
O homem da televisão fez uma pergunta e a resposta de Siskin foi imediata.
- A Simuletrônica é uma coisa primitiva comparada com isto. A previsão baseada em computadores convencionais está limitada a uma única linha de investigação de estímulo-resposta. O simulador total de ambiente da RESA - que chamamos de Simulacron-3 -, por outro lado terá uma resposta para qualquer pergunta referente a qualquer reação hipotética ao longo de todo o espetro do comportamento humano.
Ele estava, naturalmente, repetindo as palavras de Fuller.
Mas na boca de Siskin as palavras eram apenas jactâncias. Fuller, ao contrário, acreditava no simulador como se ele fosse um deus, e não um edifício de três andares cheio de circuitos complicados.
Simulacron-3 - Daniel F.Galouye [ Download ]
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O Planeta de Neanderthal - Brian Aldiss
Máquinas ocultas variavam os cinco axiomas do Posto Esquadrinhador.
Estes se processavam através de séries de sistemas arbitrários, compostos de aparelhos finitos Kolmogorovianos, harmoniosamente contraponteados, um a um, por uma tarefa de números reais não-negativos, de modo que as áreas parietais mudavam constantemente em rigorosas relações projetadas por Mestre Bof, no fundo de Manhattan.
O Esquadrinhador-Chefe - pretendia-se Euler - olhava pacientemente as modulações enquanto esperava um chamado. Auto-consistência - era esse o princípio da ação. Devia governar todas as fases da vida.
Era o princípio estético das máquinas.
Todavia, a menos de cinco quilômetros de distância, os selvagens robôs se divertiam e se agitavam no mato.
Uma luz ambarina acendeu seu painel beta. Ele imediatamente modulou seu número de chamada.
O sinal que chegava se decodificou no seguinte: “Localizamos Anderson, chefe.”
O anônimo telégrafo de aletas deu as coordenadas e a transmissão cessou.
Bof sabia quanto tempo: sete dias para localizar Anderson depois da fuga.
Fizeram o que era lógico e procuraram-no por toda parte. Mas o homem não era lógico; permanecera quase debaixo da cúpula de Nova Iorque. Euler impulsionou um canal da Mente Colmeia, interrompendo a busca.
Ligou os jatos e partiu.
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
O Terror Rithiano - Damon Knight
Um monstro estava à solta, escondido num ponto qualquer da cidade. Thorne Spangler, apoiado no encosto macio da limousine, deixou que sua mente se concentrasse no assunto, com a satisfação de uma criança comendo um pedaço de doce.
Imaginou o monstro a caminhar numa rua iluminada, ou sentado em algum quarto de hotel barato, com os tentáculos enrolados debaixo do invólucro que o fazia parecer um homem - ou uma mulher - esperando. Em sua volta, a vida da cidade continuava despreocupada: - Jeff! Você já ouviu? Estão parando todos os carros.
Deve ser por causa de um espião... Minha irmã quis tomar um avião para sair de Tucson, mas não permitiram que embarcasse... Meu primo que trabalha no espaçoporto me disse que nada pode entrar ou sair, só espaçonaves militares. Deve ser um caso importante.
O monstro, alerta, ouvia tudo e percebia que a rede estava se apertando em sua volta.
Spangler achou que a tensão estava aumentando: pairava no ar, nas ruas estranhamente vazias. Era ate possível ouvi-la: o silencio começava a sobrepujar o costumeiro zunido de colméia - um silencio em passo de espera, que convidava a parar e a segurar o fôlego.
Spangler observou Pembun, sentado tranqüilo ao seu lado. Será que ele esta percebendo? - pensou. Afirma-lo seria impossível: ninguém conseguia adivinhar os pensamentos de um colonial. Achou que provavelmente desejava estar em seu próprio planeta atrasado, longe de todas estas confusões do Universo.
Para Spangler, o acontecimento representava o ponto alto de sua vida. O monstro - que era um Rithiano - era apenas o catalisador, como uma pedra lançada a superfície tranqüila da água. O fato mais importante era que naquele momento e pelo tempo necessário a operação, todo o imenso mecanismo do Império Terrestre revolvia em volta de uma minúscula esfera: o Departamento de Segurança Terrestre, Distrito Norte-Americano, Setor Sudoeste. Durante este breve período um único homem, Spangler, era mais importante que qualquer outro dentro da Administração do Império.
O carro desacelerou e parou.
Dois homens fardados, com as calcas cinza - perola da patrulha urbana, estavam barrando o caminho com as armas automáticas apontadas.
Atrás deles, o vulto achatado de uma Unidade de tiro tomava a metade do leito da rua.
Outros dois patrulheiros se aproximaram, abriram as quatro portas e arredaram ate uma posição de fogo cruzado.
- Todo mundo para fora - falou o patrulheiro com os galões de sargento. - Revista de segurança. Depressa!
Quando Spangler passou em sua frente, o sargento colocou a mão no peito: - Boa-noite, Comissário.
- Sargento - respondeu Spangler com voz tranqüila, sem se dar ao trabalho de olhar diretamente para o militar.
Ao mesmo tempo, levou Pembun e o motorista para o fim da fila.
Enquanto a fila avançava, Spangler se virou e viu que Pembun esticava o pescoço pela curiosidade.
- Aquilo e um fluoroscópio estereóptico - explicou Spangler com ar de superioridade.
- Os Rithianos não podem se submeter a um teste deste tipo, mesmo que seu disfarce humano seja perfeito.
Temos uma dessas estações no cruzamento de cada décima avenida e cada quinta rua transversal. Se o Rithiano passar por um fluoroscopio será logo reconhecido. Se ele não passar, vamos encontrá-lo durante as revistas domiciliares. Não poderá escapar.
Spangler se colocou entre a tela e os dois projetores bulbosos e observou na tela a imagem tridimensional de seu próprio esqueleto. A mancha quadrada no pulso esquerdo e a outra mancha menor correspondiam ao seu comunicador e seu relógio de polegar. As outras manchas de formas diversas, mais embaixo, eram objetos metálicos no bolso de seu cinto - projetores de chaves, calculador, memocubos e coisas assim.
O técnico que se encontrava acima dos projetores, falou: - Vire-se. Certo. O próximo.
Spangler esperou por Pembun, parado ao lado do carro. O rosto largo do homem baixinho, com seu nariz achatado, mostrava surpresa, um certo interesse e mais alguma coisa que Spangler não chegou a definir.
- Como foi que o senhor conseguiu juntar tantos fluoroscópios portáteis em tão pouco tempo? - perguntou com seu sotaque caipira.
- Não e milagre, Sr.Pembun, somente o resultado de cuidadosos preparativos.
Estes fluoroscopios foram armazenados em 2018 e guardados até agora, em vista de uma emergência como a atual.
- Quinhentos anos! - exclamou Pembun, admirado. - Puxa! E esta e a primeira vez que vocês tiveram que usá-los?
- A primeira vez - confirmou Spangler e acenou para que Pembun subisse na limousine. Depois de entrar também, continuou:
- Bastou uma meia hora para estabelecer uma rede completa. Os planos pormenorizados de toda a operação também estavam guardados como os fluoroscopios. Só precisei mandar busca-los no arquivo.
O carro passou pelo posto de bloco.
- Que coisa! - voltou a murmurar Pembun. - Tenho a impressão de ser uma espécie de nariz sobressalente. - Na semi-escuridao seus olhos brilharam.
- Como foi que disse? - perguntou Spangler.
- Quero dizer - explicou Pembun - que acho que o senhor esta realmente precisando de mim.
Spangler pensou que aquele sotaque grosseiro acabaria por irritá-lo. Afinal, aquele homem recebera uma educação terrestre; por que não falava de maneira civilizada?
- Acredito que suas opiniões poderão trazer um beneficio incalculável, senhor Pembun - disse em tom diplomático... - Afinal, não temos ninguém aqui que já... teve algum contato amistoso com os Rithianos.
- Pois e, eu quase esqueci - concordou Pembun. - Estamos tão acostumados com os Rithi que a gente quase não se lembra que a Terra nunca travou relações comerciais com aquele povo. - Pronunciou "Rithi" de maneira esquisita, com um som fricativo entre o z e o s, e a ultima vogal acentuada. Spangler imaginou que esta forma era mais fácil que "Rithiano", o termo usado em Inglês Padronizado
Provavelmente Pembun falava o idioma Rithiano com a mesma facilidade que o inglês.
Spangler tentou imaginar como ele próprio viveria no mundo de Pembun, no meio de uma rale que descendia de meia dúzia de grupos diferentes, abaixo do padrão, emigrados da Terra ha. seis séculos.
Haitianos, Africanos ocidentais francofones, Jamaicanos, Porto-riquenhos Gente de pouca instrução, de olhar embrutecido, mulherengos, preguiçosos, beberrões e briguentos, que falava um idioma inacreditável, resultado da corrupção de inglês, francês e castelhano vernacular.
Eram mesmo coloniais - não de nome, mas de fato.
Damon Knight - O Terror Rithiano [ Download ]
Imaginou o monstro a caminhar numa rua iluminada, ou sentado em algum quarto de hotel barato, com os tentáculos enrolados debaixo do invólucro que o fazia parecer um homem - ou uma mulher - esperando. Em sua volta, a vida da cidade continuava despreocupada: - Jeff! Você já ouviu? Estão parando todos os carros.
Deve ser por causa de um espião... Minha irmã quis tomar um avião para sair de Tucson, mas não permitiram que embarcasse... Meu primo que trabalha no espaçoporto me disse que nada pode entrar ou sair, só espaçonaves militares. Deve ser um caso importante.
O monstro, alerta, ouvia tudo e percebia que a rede estava se apertando em sua volta.
Spangler achou que a tensão estava aumentando: pairava no ar, nas ruas estranhamente vazias. Era ate possível ouvi-la: o silencio começava a sobrepujar o costumeiro zunido de colméia - um silencio em passo de espera, que convidava a parar e a segurar o fôlego.
Spangler observou Pembun, sentado tranqüilo ao seu lado. Será que ele esta percebendo? - pensou. Afirma-lo seria impossível: ninguém conseguia adivinhar os pensamentos de um colonial. Achou que provavelmente desejava estar em seu próprio planeta atrasado, longe de todas estas confusões do Universo.
Para Spangler, o acontecimento representava o ponto alto de sua vida. O monstro - que era um Rithiano - era apenas o catalisador, como uma pedra lançada a superfície tranqüila da água. O fato mais importante era que naquele momento e pelo tempo necessário a operação, todo o imenso mecanismo do Império Terrestre revolvia em volta de uma minúscula esfera: o Departamento de Segurança Terrestre, Distrito Norte-Americano, Setor Sudoeste. Durante este breve período um único homem, Spangler, era mais importante que qualquer outro dentro da Administração do Império.
O carro desacelerou e parou.
Dois homens fardados, com as calcas cinza - perola da patrulha urbana, estavam barrando o caminho com as armas automáticas apontadas.
Atrás deles, o vulto achatado de uma Unidade de tiro tomava a metade do leito da rua.
Outros dois patrulheiros se aproximaram, abriram as quatro portas e arredaram ate uma posição de fogo cruzado.
- Todo mundo para fora - falou o patrulheiro com os galões de sargento. - Revista de segurança. Depressa!
Quando Spangler passou em sua frente, o sargento colocou a mão no peito: - Boa-noite, Comissário.
- Sargento - respondeu Spangler com voz tranqüila, sem se dar ao trabalho de olhar diretamente para o militar.
Ao mesmo tempo, levou Pembun e o motorista para o fim da fila.
Enquanto a fila avançava, Spangler se virou e viu que Pembun esticava o pescoço pela curiosidade.
- Aquilo e um fluoroscópio estereóptico - explicou Spangler com ar de superioridade.
- Os Rithianos não podem se submeter a um teste deste tipo, mesmo que seu disfarce humano seja perfeito.
Temos uma dessas estações no cruzamento de cada décima avenida e cada quinta rua transversal. Se o Rithiano passar por um fluoroscopio será logo reconhecido. Se ele não passar, vamos encontrá-lo durante as revistas domiciliares. Não poderá escapar.
Spangler se colocou entre a tela e os dois projetores bulbosos e observou na tela a imagem tridimensional de seu próprio esqueleto. A mancha quadrada no pulso esquerdo e a outra mancha menor correspondiam ao seu comunicador e seu relógio de polegar. As outras manchas de formas diversas, mais embaixo, eram objetos metálicos no bolso de seu cinto - projetores de chaves, calculador, memocubos e coisas assim.
O técnico que se encontrava acima dos projetores, falou: - Vire-se. Certo. O próximo.
Spangler esperou por Pembun, parado ao lado do carro. O rosto largo do homem baixinho, com seu nariz achatado, mostrava surpresa, um certo interesse e mais alguma coisa que Spangler não chegou a definir.
- Como foi que o senhor conseguiu juntar tantos fluoroscópios portáteis em tão pouco tempo? - perguntou com seu sotaque caipira.
- Não e milagre, Sr.Pembun, somente o resultado de cuidadosos preparativos.
Estes fluoroscopios foram armazenados em 2018 e guardados até agora, em vista de uma emergência como a atual.
- Quinhentos anos! - exclamou Pembun, admirado. - Puxa! E esta e a primeira vez que vocês tiveram que usá-los?
- A primeira vez - confirmou Spangler e acenou para que Pembun subisse na limousine. Depois de entrar também, continuou:
- Bastou uma meia hora para estabelecer uma rede completa. Os planos pormenorizados de toda a operação também estavam guardados como os fluoroscopios. Só precisei mandar busca-los no arquivo.
O carro passou pelo posto de bloco.
- Que coisa! - voltou a murmurar Pembun. - Tenho a impressão de ser uma espécie de nariz sobressalente. - Na semi-escuridao seus olhos brilharam.
- Como foi que disse? - perguntou Spangler.
- Quero dizer - explicou Pembun - que acho que o senhor esta realmente precisando de mim.
Spangler pensou que aquele sotaque grosseiro acabaria por irritá-lo. Afinal, aquele homem recebera uma educação terrestre; por que não falava de maneira civilizada?
- Acredito que suas opiniões poderão trazer um beneficio incalculável, senhor Pembun - disse em tom diplomático... - Afinal, não temos ninguém aqui que já... teve algum contato amistoso com os Rithianos.
- Pois e, eu quase esqueci - concordou Pembun. - Estamos tão acostumados com os Rithi que a gente quase não se lembra que a Terra nunca travou relações comerciais com aquele povo. - Pronunciou "Rithi" de maneira esquisita, com um som fricativo entre o z e o s, e a ultima vogal acentuada. Spangler imaginou que esta forma era mais fácil que "Rithiano", o termo usado em Inglês Padronizado
Provavelmente Pembun falava o idioma Rithiano com a mesma facilidade que o inglês.
Spangler tentou imaginar como ele próprio viveria no mundo de Pembun, no meio de uma rale que descendia de meia dúzia de grupos diferentes, abaixo do padrão, emigrados da Terra ha. seis séculos.
Haitianos, Africanos ocidentais francofones, Jamaicanos, Porto-riquenhos Gente de pouca instrução, de olhar embrutecido, mulherengos, preguiçosos, beberrões e briguentos, que falava um idioma inacreditável, resultado da corrupção de inglês, francês e castelhano vernacular.
Eram mesmo coloniais - não de nome, mas de fato.
Damon Knight - O Terror Rithiano [ Download ]
terça-feira, 1 de junho de 2010
Coleção Extraneus
Desde 1996, o site Estronho e Esquésito vem divulgando contos de literatura fantástica, de autores do Brasil e Portugal, assim como as poesias góticas e grotescas também de autores dos dois países, tendo como marco de um aumento significativo de qualidade e quantidade, a partir de 2004, quando autores que já começavam a ficar conhecidos no cenário da literatura fantástica brasileira, começaram a publicar seus textos no site.
Chegou a hora de ultrapassar a barreira virtual e espalhar o talento de nossos autores no mundo das escritas em papel. A coleção EXTRANEUS é ao mesmo tempo, uma merecida homenagem ao site - que há tanto tempo vem se mantendo no ar, sem apoio, patrocínio ou investimentos de terceiros -, e mais uma ferramenta para divulgação das obras de nossos escritores.
O Volume 1 tem o título de Medieval Sci-Fi, e sua proposta é publicar contos em que os elementos medievais se misturem com os da ficção científica. Os autores terão total liberdade de criação, podendo fazer as misturas que quiserem entre esses dois temas.
Podem ser misturados cavaleiros e dragões, com viagens espaciais, alienígenas, troca de tecnologia e tudo aquilo que envolver esses dois gêneros. Mas é essencial que haja a mistura. Não serão aceitos contos que sejam ambientados em apenas um desses gêneros.
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