segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 2/7


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 2


No momento seguinte o grande gongo sobre a entrada, soou a hora de fechamento do museu e imediatamente seguiu-se uma voz vinda dos alto-falantes:
‘Cinco horas, senhoras e senhores. É hora de fechar, senhoras e senhores.’

Os três cientistas, surpresos por ser já tão tarde, correram para lavar as mãos, trocar as roupas e desapareceram por uma porta do corredor, sem ver o jovem debaixo da mesa.
O som dos pés no andar da exibição rapidamente desapareceu até se resumir aos passos dos dois guardas caminhando de uma ponta para outra, verificando que tudo estava certo. Apenas muito rapidamente um deles parou na porta do laboratório e se foi.
As portas de metal foram fechadas e então houve silêncio total.

Cliff aguardou alguns minutos, então cuidadosamente saiu debaixo da mesa. Assim que ficou de pé, um som de algo se quebrando soou perto do seu pé. Encontrou os restos de uma pipeta de vidro, que ele provavelmente tinha derrubado ao sair do esconderijo.
Aquilo fez com que pensasse em algo que até então não lhe ocorrera.
Um Gnut que podia se mover era um Gnut que poderia ver e ouvir; e realmente poderia ser perigoso. Teria que ter mais cuidado.

A sala era margeada por duas partições de fibra que acompanhavam a curva abaixo da nave.
Um dos lados da sala era a nave por si e a outra, ao sul, a parede daquela ala.
E quatro janelas altas. A única entrada era a passagem.

Sem se mover, apenas com seu conhecimento do prédio, bolou seu plano. A ala era conectada a oeste com o fim do museu por uma entrada nunca usada, e a sua extensão leste conduzia ao monumento de Washington. A nave ficava perto da parede sul e Gnut ficava em frente dela, não muito longe do canto norte e o final oposto da sala, próximo da entrada do prédio e do corredor que dava no laboratório. Tomando bastante cuidado, poderia sair no lado mais distante do robô e havia uma pequena plataforma baixa, com o painel do som. Esta mesa era o único lugar que oferecia um esconderijo no qual poderia observar o que acontecia. Os outros únicos objetos na sala eram os seis atendentes em formato do robô em estações fixas ao chão ao longo da parede norte, posicionados para atender as perguntas dos visitantes.
Então, tinha que chegar até aquela mesa.

Na ponta dos pés, deixou o laboratório e seguiu o corredor. Estava bem escuro lá fora, pois a luz de entrada da exibição havia sido apagada. Conseguiu chegar ao final da sala sem fazer som algum. De lado espiou a nave e Gnut. E teve um momentâneo choque. Os olhos do robô estavam fixos nele – ou pareciam estar.
Seria somente um efeito ou, pensou, que ele já fora descoberto? A posição da cabeça de Gnut não parecia ter sido alterada. Provavelmente estava tudo bem, mas ele desejava não precisar cruzar a sala com aquela sensação dos olhos do robô a lhe seguir.
Recuou, sentou-se e esperou.
Teria que estar totalmente escuro antes dele se arriscar chegar até a mesa.
Aguardou por uma hora até que a luz fraca das lâmpadas do lado de fora começou a tornar a sala mais clara, então se levantou e olhou para a nave mais uma vez.
Os olhos do robô pareciam atravessá-lo. Era algo aterrador.
Será que Gnut sabia que ele estava ali? Quais seriam seus pensamentos? O que poderia pensar uma máquina tão incrível quanto Gnut?

Chegara a hora de atravessar a sala; Cliff passou a alça da câmera pelas costas, ficando de quatro, e lentamente seguiu em direção a entrada do hall. Ali, de cócoras, encostado à parede o máximo possível, seguiu centímetro por centímetro sem parar, sem arriscar olhar para os enervantes olhos de Gnut. Levou quase dez minutos para atravessar o espaço de cem metros e estava suado quando seus dedos alcançaram a plataforma onde ficava a mesa.
Ainda devagar, silenciosamente, encontrou abrigo atrás da proteção da mesa de comandos.
Finalmente conseguira. Relaxou então por um momento, ansioso para saber se havia sido visto, e olhou cuidadosamente pelo lado da mesa.
Os olhos de Gnut estavam sobre ele mais uma vez. Ou pareciam estar.
Contra a escuridão geral, o robô assim mesmo emitia uma sombra misteriosa que fazia com que parecesse ter cinqüenta metros, dominando com sua sombra todo salão.
Não conseguia saber se sua posição se alterara ou não.
Mas se Gnut estivesse olhando para ele, ele ao menos não fizera nada além disso. A não ser por aquele movimento que Cliff descobrira, não parecia ter feito mais nada. Sua posição era a mesma que mantivera nos últimos três meses, na escuridão, na chuva e nas últimas três semanas no museu.

Cliff não queria permitir-se ter medo, e agora tinha consciência de seu corpo. Aquela curta viagem havia lhe custado – seus joelhos e ombros doíam e as calças pareciam estragadas.
Mas isso não tinha importância se aquilo que ele esperava ver acontecesse. Se Gnut se movesse ele poderia pegá-lo com sua câmera infravermelho e, com o dinheiro da venda daquela história, poderia comprar cinqüenta calças iguais às que estava usando. E, se além disso, pudesse desvendar o propósito do movimento de Gnut, provando que existia um propósito, então ele teria uma história que faria o mundo ouvi-lo.

Sentou-se por um momento para esperar: não havia nenhuma dica de quando ele se moveria, se ele se movesse naquela noite. Os olhos de Cliff já estavam acostumados à escuridão e de tempos em tempos ele observava intensamente o robô, por bastante tempo até ser obrigado a piscar e descansar seus olhos para não dar vez à sua imaginação.
Mais um minuto, com o ponteiro do relógio percorrendo mais uma volta completa. A inatividade fazia Cliff menos cuidadoso e por um longo tempo permaneceu com a cabeça atrás da proteção da mesa de controle.
Assim que quando Gnut se moveu ele quase desmaiou de susto.

Estava um pouco aborrecido quando deu conta que o robô estava a meio caminho de seu esconderijo. E isso não era o mais assustador.
Mas sim quando percebeu que não conseguia vê-lo se mover. Ele havia parado como um gato em meio do movimento para agarrar o rato. Seus olhos agora mais brilhantes, sem dúvida estavam virados na sua direção. Ele olhava para Cliff!
Sem quase respirar, e meio hipnotizado, Cliff olhou de novo. Seus pensamentos estavam confusos. Qual era a intenção do robô? Por que tinha parado? Estaria cercando-o? Como conseguia mover-se tão silenciosamente?

Em total escuridão os olhos de Gnut moveram-se para mais próximo. Lentamente, mas em um ritmo perfeito que era quase imperceptível o som dos seus passos aos ouvidos de Cliff. Cliff que habitualmente era cheio de recursos, se viu paralisado de medo, incapaz de se mover, enquanto o monstro de metal com olhos de brasa se aproximava. Por um momento esteve a ponto de desmaiar, mas quando se recuperou, ali estava Gnut alçando-se de pé junto dele, com suas pernas quase tocando sua mão. Ligeiramente inclinado e cravando seus olhos nele.
Tarde demais para pensar em correr.
Tremendo como um rato acuado num canto, Cliff esperou ser esmagado.
Esperou uma eternidade. Gnut escrutinava-o sem mais se mover.
Para cada segundo que passou, Cliff esperou ser aniquilado de repente, rápido e completamente.
Então de repente, e sem esperar, tudo terminou. Gnut ficou ereto e afastou-se, virando-se. E então, com um ritmo muito pouco mecânico e que só ele possuía, voltou para o lugar onde estivera antes. Cliff não podia acreditar no que acontecera. Ele poderia tê-lo esmagado como a um inseto e simplesmente tinha se virado e se foi. Por quê? Não podia supor que um robô fosse capaz de considerações humanas.
Gnut chegara agora ao outro lado da nave. Parou e realizou uma curiosa sucessão de sons. Prontamente Cliff viu se abrir, mais escura do que a escuridão, uma abertura na lateral da nave, seguido pelo som da rampa deslizando até tocar o chão. Gnut subiu por ela, parou um segundo e desapareceu no interior da nave.

Pela primeira vez então Cliff lembrou-se da foto que viera tirar. Gnut havia se movido e ele não aproveitara a chance. Mas ao menos agora, ainda podia fotografar a rampa se conectando à porta aberta; então preparou a câmera na posição, ajustou para uma exposição longa e disparou.
Muito tempo transcorreu sem que Gnut reaparecesse. O que poderia estar ocorrendo lá dentro?
Cliff imaginava. Sua coragem já retornara e considerou a idéia de arrastar-se até a porta e olhar para dentro, mas não achou que tinha tanta coragem para isso.

Gnut não lhe fizera mal, porém nada poderia lhe dizer o quanto seria tolerante com ele.
Uma hora se passou então outra, e Gnut estava fazendo algo lá dentro, mas o quê?
Cliff não conseguia imaginar. Se o robô fosse um ser humano, saberia que ele daria uma espiadela, mas do jeito que as coisas estavam, era uma incógnita sem solução. Mesmo os mais simples robôs da terra, sob certas circunstâncias, faziam coisas inexplicáveis; e o que um ser deste tipo, vindo de alguma civilização desconhecida e impensável, com certeza a mais formidável criatura já construída – que superpoderes não poderia ter? Tudo que os cientistas da Terra haviam tentado não conseguiram avariá-lo. Ácido, calor, raios, terríveis golpes - ele suportara a tudo. Poderia enxergar perfeitamente no escuro. E mesmo ser capaz de ouvir, ou de outro jeito, saber precisamente a posição de Cliff.

Mais tempo passou e então próximo das duas horas da manhã, algo completamente banal aconteceu e tão inesperado que por um instante destruiu o equilíbrio de Cliff.
Subitamente, através da escuridão do prédio silencioso ouviu-se um bater de asas e logo um doce canto de pássaro. Um rouxinol. Em algum lugar do salão, acima dele. Límpida e repleta de notas era seu canto, pequenas canções, uma depois da outra, sem pausas, uma canção de amor da primavera talvez, o mais belo cantor de toda natureza. E assim como começou, terminou.
Se todo um exército de invasão saísse da nave, Cliff ficaria menos surpreso.
Era dezembro e mesmo na Flórida os rouxinóis ainda não haviam começado a cantar. Então como um deles fôra entrar no museu? Como e por que cantava ali?
Aguardou cheio de curiosidade, até de repente ver Gnut já parado do lado de fora da porta.
Seus olhos brilhando na direção de Cliff.
Por um momento, o silêncio do local pareceu mais intenso, então foi quebrado por um barulho abafado perto do chão, onde Cliff estava.
A luz dos olhos de Gnut havia mudado e ele começou a andar de seu jeito na direção de Cliff. Quando estava bem perto, parou e se inclinou, pegando algo do chão. Por algum tempo ficou parado olhando para aquele pequeno objeto em sua mão. Cliff sabia, embora não pudesse ver, que se tratava do rouxinol. Pelo menos era seu corpo, mas já não cantava mais.
Então sem olhar para Cliff, Gnut se virou e entrou na nave mais uma vez.

Horas se passaram enquanto Cliff aguardava pela seqüência daquele surpreendente acontecimento.
Quem sabe sua curiosidade fosse responsável por perder o medo.
Certamente se o robô fosse hostil, se desejasse feri-lo, já teria feito antes, quando teve a oportunidade perfeita para isso.
Cliff estava cada vez mais nervoso por desejar dar uma olhada lá para dentro da nave. E tirar uma foto; tinha que se lembrar da foto. Vivia esquecendo o motivo que o trouxera até ali.
Já na mais profunda escuridão de uma falsa madrugada que ele juntou coragem bastante para tomar a iniciativa. Tirou os sapatos e, na ponta dos pés, com os sapatos amarrados e batendo juntos sobre os ombros, ele moveu-se rápido para uma posição mais próxima, então parou esperando algum sinal de que Gnut o percebera se mover.
Sem ouvir nada, passou por detrás de um atendente e parou, então assim, cuidadosamente alcançou a beirada da nave. E ficou desapontado. Nenhuma luz podia ser vista lá dentro, apenas escuridão e o silêncio permeando tudo.
Ainda assim, precisava daquela foto.
Ergueu a câmera, fez foco na escuridão e deu uma longa e boa exposição.
Então ficou lá, sem saber o que mais fazer em seguida.
Quando parou, passou a ouvir uma série de sons peculiares, aparentemente vindos de dentro. Sons de animais, primeiro bem baixo, depois acentuados por cliques, então ranger de dentes, interrompidos por mais rangidos e sons ofegantes, como se uma luta de algum tipo estivesse ocorrendo.

Então de repente, antes que Cliff pudesse se decidir por correr de volta ao seu esconderijo, uma forma baixa, larga e escura surgiu na frente da nave e imediatamente se virou e ficou do tamanho de um homem. Uma sensação de terror total tomou Cliff que reconheceu aquela forma de vida. No segundo seguinte, Gnut surgiu na entrada e, sem hesitar, começou a descer a rampa na direção daquela forma de vida.
Assim que avançou, ela recuou de lado levemente por um metro e então com os braços balançando ao lado do corpo, começou a bater contra o peito feito um tambor enquanto da sua garganta partia um profundo rugido de desafio.
Apenas uma criatura no mundo todo batia no peito daquela maneira e fazia um som como aquele. A criatura era um gorila.
E um gorila dos grandes.

Gnut continuava vindo e quando chegou bastante perto, abaixou-se e abraçou a fera.
Cliff não imaginava que Gnut pudesse se mover tão rápido.
No escuro, não conseguia ver os detalhes do que ocorria, tudo que sabia era que dois grandes vultos: o titã de metal Gnut e o baixo, porém terrivelmente forte gorila.
Eles se fundiram por um instante; o silêncio do robô e os grunhidos e rugidos da besta - e quando os dois se separaram, o gorila estava de costas no chão.
O animal se ergueu rapidamente se pondo a rugir alto.
Gnut avançou contra ele.
Eles se atracaram mais uma vez e ainda uma outra, como ocorreu antes de se separarem. O robô permanecia inexorável e o gorila agora retrocedeu até a parede dos fundos do prédio. Subitamente a fera correu contra a figura do atendente e com um movimento rápido a derrubou, decapitando-o.
Tenso de medo, Cliff se colocou abaixado atrás de um dos robôs atendentes.
Graças a Deus, Gnut estava entre ele e o gorila, que continuava avançando.
O gorila mais uma vez atirou-se contra o robô atendente seguinte e com força quase inacreditável, levantou-o arrancando do chão e o atirou na direção de Gnut. Com um som de metal contra metal, o atendente acertou o robô e o da terra voou para longe detendo-se ao chão.
Cliff amaldiçoou a si mesmo, pois novamente esquecera completamente de fotografar.
O gorila continuava arrancando e destruindo todos os robôs atendentes com ferocidade sem igual e ainda atirava pedaços e peças no implácavel Gnut.

Logo chegaram perto da mesa de controles e Cliff agradeceu por não estar mais lá.
Então seguiu-se um breve silêncio. Cliff, de onde estava não podia ver o que estava acontecendo, mas imaginou que o gorila alcançara o canto da ala e estava encurralado.
Se assim foi, foi apenas por um momento. O silêncio foi quebrado de repente por um rugido e logo o vulto do animal se aproximou na direção de Cliff, ficando entre ele e a porta da nave.
Cliff rezou pelo retorno de Gnut, pois agora restava apenas um robô atendente entre ele e a criatura enfurecida.
E Gnut apareceu.
O gorila mais uma vez se colocou de pé, batendo no peito e rugindo desafiadoramente.
Então, algo bem estranho ocorreu, pois a besta caiu nas quatro patas e rolou de costas como se estivesse fraco ou ferido.
Fazendo ruídos pavorosos, fez-se de pé novamente para enfrentar Gnut que se aproximava.
E enquanto esperava, foi atraído pelo ultimo atendente e talvez por Cliff, abaixado junto dele. Com um acesso repentino de fúria o gorila atirou-se na direção de Cliff, que apesar do pânico viu que o animal movia-se com dificuldade, severamente machucado. Saltou para trás a tempo de se esquivar: o gorila saltou contra o atendente robô e atirou-o violentamente contra Gnut, por pouco não o atingindo.
Fora seu último esforço.
A fraqueza o envolveu e tombou em seguida de lado, rolando de costas.
Estremeceu e então não mais se moveu.

O primeiro clarão pálido da manhã insinuava-se no salão.
Do canto onde se refugiara, Cliff viu o grande robô.
Pareceu-lhe que se comportava estranhamente.
Parou junto ao gorila morto, olhando para baixo com o que num humano poderia ser chamado de tristeza. Cliff reparou com precisão; as feições esverdeadas seriamente contraídas, pensativas e que ele nunca vira antes. Ficou assim algum tempo então como um pai com sua criança doente, ergueu o grande animal nos braços de metal e suavemente o carregou para a nave.
Cliff procurou abrigo de novo na mesa de instrumentos, sentindo medo por conta dos acontecimentos inexplicáveis e perigosos.
Pensou que seria mais seguro abrigar-se no laboratório e, com os joelhos tremendo, fez o caminho até lá, escondendo-se atrás de um grande forno maciço.
Rezou pela luz do sol. Seus pensamentos eram caóticos.
Rapidamente, um após outro, os eventos daquela noite preencheram sua mente, mas tudo era mistério, não parecia haver uma explicação racional para aquilo tudo.
O rouxinol. O gorila. A expressão de tristeza de Gnut e sua docilidade.
Nada explicava tal mescla fantástica de acontecimentos.

Gradualmente a luz do dia chegou.
Um longo tempo se passara. Afinal, começou a acreditar que escaparia vivo dali.
As oito e trinta, ouviu ruídos na entrada e o som maravilhoso de vozes humanas chegou-lhe aos ouvidos. Deixou o forno industrial e caminhou pela passagem.
Os ruídos cessaram subitamente e houve uma exclamação de espanto e o som de pés correndo e então silêncio de novo.
Temeroso, Cliff espiou ao redor da nave.
Lá estava Gnut em sua pose costumeira, na mesma posição que assumira após a morte de seu mestre, junto da nave e sozinho mais uma vez, em meio aos escombros espalhados pelo salão.
As portas da entrada estavam abertas e, com o coração na boca, Cliff correu para fora.
Minutos depois, salvo no seu quarto de hotel, esgotado por total, sentou-se na cama e logo adormecera assim sentado.
Mais tarde, ainda usando as mesmas roupas e ainda sonado, rolou pela cama.
Não voltaria a acordar até o meio dia.