sábado, 27 de dezembro de 2008

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 1/7


A edição da revista 'Astouding' de Outubro de 1940, trazia em suas páginas, um conto de Harry Bates intitulado 'Adeus ao Mestre' (Farewell to the Master). O conto passou despercebido para a maioria das pessoas, menos para um roteirista chamado Scott Pearson, que o mostrou para o diretor Robert Wise, que procurava uma boa história para seu próximo filme. Anos depois, e adquirido os direitos, Wise teria sido obrigado a aceitar o roteirista do estúdio (Twentieth Century-Fox), Edmund North, que fez consideráveis mudanças no material, adaptando-o ao gosto do público da época.
Lançado em setembro de 1951, 'The day the Earth stood still' aproveitava-se da onda de filmes com efeitos especiais, dentro da temática do 'perigo que vem do espaço', comum nos anos da Guerra-Fria.
O filme ganhou um Globo de Ouro e se tornou um cult.
Em 2008 ganhou uma nova versão, desta vez com Keanu Reeves no papel do 'embaixador Klaatu'.

O Capacitor Fantástico traz a íntegra de 'Adeus ao Mestre', o conto que deu origem a tudo.


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 1

Do alto da escada, acima do chão do museu, Cliff Sutherland estudava cuidadosamente cada linha e sombra do grande robô, então se virou para os visitantes saidos do salão do Sistema Solar para ver Gnut e o viajante, com seus próprios olhos, e ouvir mais uma vez sobre a fantástica e trágica história deles.
Ele mesmo sentia um interesse particular na exibição e com alguma razão.
Ele havia sido o único repórter fotográfico independente na Capital quando os visitantes vindos do desconhecido chegaram, e havia conseguido as primeiras fotos profissionais da nave.
Tinha testemunhado de perto cada evento naqueles dias loucos que se seguiriam. Depois disso havia fotografado muitas vezes o robô de seis metros, a nave e o belo embaixador assassinado, Klaatu, em seu imponente túmulo no Memorial, que se transformara no centro de atenção mundial para bilhões de pessoas, e agora mais uma vez, ele estava ali buscando mais fotos, e se possível de um novo ângulo.

Desta vez estava atrás de uma foto na qual Gnut parecesse ameaçador. Aquelas que havia tirado no dia anterior não haviam tido o efeito esperado e esperava consegui-las ainda hoje, mas a luz ainda não estava apropriada e ele esperava a chegada da tarde.
A última turma admitida estava exaltada diante das curvas esverdeadas do misterioso viajante do espaço-tempo, esquecidos completamente da nave, diante da visão espantosa do gigante Gnut.
Apesar de sua aparência quase humana ser familiar, nada na Terra tinha olhos como aqueles. Gnut possuía quase que exatamente a forma de um homem – um gigante – mas um homem – feito de metal esverdeado ao invés de pele, e músculos metálicos.
Exceto por um pano ao redor da cintura, semelhante a um saiote egípcio, ele estava nu.
De pé, como um poderoso Deus das máquinas saído de uma civilização cientifica nunca imaginada, sua face parecia trazer uma expressão pensativa e solene.
Aqueles que o observavam, não emitiam comentários ou faziam gestos, e aqueles mais próximos sequer falavam. Aqueles estranhos olhos vermelhos iluminados internamente davam a impressão a qualquer um, que estavam a observá-lo também, e transmitia uma sensação de que poderia a qualquer momento, dar um passo a frente em fúria e realizar algo inimaginável.

Um som desagradável veio dos auto-falantes escondidos no teto acima e fez com que todos prestassem atenção. A apresentação gravada estava prestes a começar.
Cliff suspirou resignado; sabia cada fala de cor e estivera presente quando fora gravada, e conhecera o dono daquela voz, um camarada chamado Stillwell.

‘Senhoras e senhores’ iniciava a voz clara e bem modulada, mas Cliff não estava mais prestando atenção. As sombras da face de Gnut começavam a ficar maiores e estava quase na hora de fazer as fotos. Escolheu algumas provas que havia feito no dia anterior e as analisou criticamente comparando com o objeto real.
Enquanto olhava sua testa se enrugou.
Não havia notado antes, mas agora percebeu que em comparação ao dia anterior, algo havia mudado em Gnut.
A pose que tinha diante de si era quase idêntica aquela das fotografias, cada detalhe parecia igual, mas assim mesmo, aquela sensação de estranhamento perdurava. Pegou seu visor de vidro e mais cuidadosamente comparou o objeto com as fotografias, linha por linha.
E então ele viu o que estava diferente.
Subitamente excitado, Cliff escolheu duas fotografias de diferentes exposições.
Ele sabia que devia ter esperado um pouco e ter tirado outras, mas parecia tão decidido a desvendar aquele mistério que tinha que sair dali. Guardou seu equipamento e desceu a escada deixando o lugar. Vinte minutos depois consumido pela curiosidade já processava as novas fotos em seu quarto de hotel.
O que Cliff viu, comparando os negativos tirados no dia anterior com os de hoje, causaram-lhe grande comoção.
Havia realmente uma inclinação diferente.
E aparentemente ninguém a não ser ele havia percebido!
Ainda assim, o que havia descoberto, apesar de lhe render a capa de todos os jornais do sistema solar, era afinal apenas uma pista. A história, do que realmente ocorrera, ele sabia melhor do que ninguém, seria seu trabalho descobrir.
O que significava dizer que precisaria entrar no prédio e permanecer lá durante a noite secretamente. Aquela noite mesmo; havia tempo para chegar lá antes de fechar.
Levaria consigo uma pequena câmera infravermelha capaz de ver no escuro e então conseguiria a foto e a história.
Arrumou-se e correu de volta ao museu.

O lugar estava cheio com outro grupo em fila e a apresentação estava ao fim.
Ele agradeceu a Deus que seu acordo com o museu permitia-lhe entrar e sai à vontade.
Já se havia decidido quanto ao que iria fazer.
Primeiro dirigiu-se ao guarda da ronda e fez-lhe uma simples pergunta já antecipando a resposta que ouviria. A segunda foi encontrar um local que lhe garantiria ficar fora das vistas do homem responsável por fechar o salão a noite. Só havia uma possibilidade, o laboratório que ficava atrás da nave.
Corajosamente ele mostrou suas credenciais ao segundo guarda parado na entrada do laboratório, justificando que viera entrevistar os cientistas e logo já estava no laboratório.
Já havia estado ali diversas vezes e conhecia o lugar.
Era uma área espaçosa, que servia aos cientistas no seu trabalho de conseguir uma entrada na nave, repleta de máquinas e instrumentos pesados, apetrechos de química, coberturas de asbestos, compressores, escadas, microscópios, e todo tipo de equipamento encontrado em laboratórios de metalurgia.
Três homes de branco estavam absorvidos em um experimento num lado distante dali.
Cliff aguardou um bom momento e escorregou para debaixo de uma mesa repleta de suprimentos de trabalho. Sentiu-se razoavelmente seguro ali.
Logo, logo, seria noite e os cientistas iriam para casa.

Além da nave pode ouvir uma outro grupo esperando para entrar - talvez, esperava, o último do dia. Sentou-se tão confortável quanto podia. Logo outra apresentação se iniciava de novo.
Teve que sorrir ao pensar em algo que seria dito na gravação.
A voz treinada e clara de Stillwell começou a ser ouvida.
Os passos e aclamações da multidão desapareceram e Cliff pode ouvir cada palavra, apesar do volume da grande nave que se colocava no caminho.

‘Senhoras e senhores. O instituto Smithsonian os saúda nesta nova ala interplanetária e as maravilhas que no momento presenciam.
Todos vocês devem saber sobre o que ocorreu aqui, três meses atrás, se é que não viram pela televisão. Os fatos são estes. Um pouco após as dezessete horas do dia 16 de Setembro, vários turistas visitando Washington, passaram por estas portas, perdidos em seus pensamentos. O dia era quente e agradável. Um grupo de visitantes deixava a entrada principal do museu, exatamente na direção para a qual estão voltados agora. Claro que não havia esta ala ainda. Todos estavam saudosos de casa, cansados sem dúvida pelas horas de pé, assistindo as exibições do museu e visitando as várias alas, quando então aconteceu.
Na área logo a sua direita, assim como está hoje, apareceram os viajantes do tempo.
Num piscar de olhos.
Não veio dos céus, dezenas de testemunhas podiam jurar, eles simplesmente apareceram.
Um momento não estava lá e no momento seguinte estava.
Apareceu neste mesmo ponto que os senhores estão vendo.
As pessoas mais próximas da nave foram tomadas pelo pânico e correram aos gritos. Uma onda de excitação varreu Washington. Radio, televisão e os jornalistas correram para cá. A policia formou um cordão de isolamento ao redor da nave e unidades do exército apareceram com atiradores.
Desde o inicio ficou claro que não se tratava de uma espaçonave vinda de alguma parte do sistema solar. Toda criança sabe que apenas duas espaçonaves foram feitas na Terra, e uma fora destruída ao ir contra o sol, a outra foi reportado ter chegado intacta em Marte. Além disso, tinham escudos de alumínio, e essa que vêem, é feita de um estranho metal esverdeado.
A nave simplesmente apareceu. Ninguém saiu de dentro e não havia sinal de que contivesse qualquer vida interior de qualquer tipo. Isto fez com que a excitação chegasse a um clímax. Quem ou o que estava lá dentro? Os visitantes eram pacíficos ou hostis? De onde havia vindo? Como havia chegado ali sem cair do céu?
Por dois dias a nave permaneceu ali, como vocês vêem, sem sinal de conter vida. Os cientistas já haviam explicado que não se tratava de uma espaçonave, mas de um viajante tempo-espacial, pois só um aparato assim deste gênero poderia se materializar daquele jeito.
Explicaram que este viajante, teoricamente estaria longe do nosso atual estágio de conhecimento, e que a nave ativada pelos princípios da relatividade, poderia ter vindo do canto mais distante do universo, de uma distância que a luz iria precisar de milhões de anos para atravessar.
Quando esta opinião foi disseminada, a tensão pública só fez crescer, até se tornar quase intolerável. De onde haviam vindo? Quem eram seus ocupantes? Por que a Terra? E acima de tudo, por que não se mostravam? Poderiam estar talvez preparando alguma terrível arma de destruição?
E onde ficava a porta da nave? Aqueles que se atreveram a procurar de perto não conseguiram achar uma. Nem sequer uma fissura na superfície perfeita e ovóide.
Uma delegação de altos oficiais que a haviam visitado, não puderam, convencer seus ocupantes a sair ou mesmo não sabiam se foram ouvidos.
Ao final, após dois dias, diante da vista de dezenas de centenas de pessoas presentes e sobre a proteção das armas dos militares, uma abertura surgiu na parede da nave e uma rampa deslizou para fora e abaixo e de dentro saiu um homem, como um deus em aparência humana, seguido de perto de um gigantesco robô. Assim que alcançaram o chão, a rampa recuou e a porta fechou-se como antes.
Ficou imediatamente claro para a platéia que o estranho era amigável.
A primeira coisa que fez foi erguer seu braço direito num gesto universal de paz, mas não foi isso que impressionou aqueles mais próximos, mas a expressão em sua face, irradiando generosidade, conhecimento, a mais pura nobreza. Em sua túnica roxa e delicada, ele parecia um benevolente deus.
Um grande comitê formado por altos membros do governo e oficiais das forças armadas, que aguardavam pela sua aparição, avançou para cumprimentar o visitante.
Com graciosidade e dignidade o homem apontou para si e depois para o robô companheiro e disse em perfeito inglês, com um peculiar sotaque.
‘Sou Klaatu’, ou algo assim, ‘e este é Gnut’.
Os nomes não foram bem entendidos no instante mas depois, revendo as gravações de áudio e vídeo, ficaram claros para todos.
Foi quanto ocorreu aquilo que seria conhecido para sempre como uma das maiores vergonhas para a raça humana. Do alto de uma árvore, uma centena de metros dali, veio uma luz violeta e Klaatu caiu.
A multidão ficou perplexa por um instante, sem compreender o que ocorrera.
Gnut, pouco atrás e ao lado de seu mestre, lentamente virou seu corpo em direção a ele, moveu duas vezes a sua cabeça e parou, nesta exata posição que vocês vêem agora.
Um pandemônio seguiu-se.
A polícia arrancou o assassino de Klaatu das árvores. Um sujeito mentalmente incapaz que gritava que o diabo viera matar a todos nós na Terra. Ele foi detido e Klaatu, morto, foi levado a um hospital mais próximo, na tentativa de que algo pudesse ser feito para reavivê-lo.
Confusas e assustadas, as pessoas se dispersaram pela Capital, permanecendo vagando pela tarde e por quase toda noite.
A nave permaneceu silenciosa e quieta como antes e Gnut também, nunca se moveu da posição em que ficou. Gnut nunca se moveria de novo.
Permaneceu exatamente como vêem por aquela noite e todos os dias depois.
Quando o mausoléu foi construído, a cerimônia de enterro de Klaatu teve vez neste mesmo lugar onde estão, presenciado pelas maiores autoridades do mundo.
Não foi apenas a coisa mais apropriada a se fazer como também a mais segura, pois se existissem criaturas vivas dentro da nave, elas poderiam perceber a sincera manifestação de pesar dos homens da Terra e pelo que havia acontecido.
Se Gnut estivesse vivo, ou se ainda, melhor dizendo, continuasse operacional, não havia sinal algum. Permaneceu como vêem por toda a cerimônia. Mesmo quando seu mestre foi levado para dentro do mausoléu e encerrado pelos séculos. E ficou ali parado, dia após dia, noite após noite, no sol ou na chuva, sem se mover ou demonstrar o menor sinal de que tinha noção do que ocorreu.
Após o ocorrido, esta nova ala foi construída ao redor do robô e da nave e anexada ao museu, a fim de cobrir e protegê-los. Nada mais poderia ser feito, pois como se descobriu, ambos Gnut e a nave, são pesados demais para serem movidos com segurança por qualquer meio que conhecemos.
Vocês devem ter ouvido dos esforços dos nossos metalúrgicos desde então na tentativa de penetrar no interior da nave e que resultou em total fracasso.
Atrás da nave hoje, como podem ver, uma sala foi acrescentada para este trabalho em especial e tentativas ainda estão sendo feitas. Apesar das tentativas, este maravilhoso metal esverdeado tem se provado inviolável. Não somente não conseguimos entrar, mas sequer descobrimos o ponto exato pelo qual Klaatu e Gnut emergiram.
Muitas pessoas temem que Gnut só esteja temporariamente danificado e que ao retornar ao funcionamento poderá ser perigoso, porêm todos os cientistas desmentiram esta possibilidade.
O metal esverdeado do qual é feito, o mesmo da nave, não pode ser danificado, eles pensam, nem encontraram um jeito de penetrar em seu interior. Atualmente eles estão experimentando aplicar correntes elétricas de alta voltagem e amperagem através deles. Já tentaram com o calor extremo. Os deixaram imersos por dias em gases e ácidos e soluções corrosivas, e já os bombardearam com todo tipo de raios conhecidos.
Não precisam ter medo dele agora.
Ele possivelmente não possui mais a habilidade de funcionar de qualquer jeito.
Mas, uma palavra de atenção. As autoridades sabem que os visitantes não irão mostrar qualquer desrespeito dentro deste prédio. Pode ser que a impensável e poderosa civilização da qual vieram Klaatu e Gnut, possa enviar outros emissários para ver o que aconteceu com eles.
Caso façam ou não, nenhum de nós deve mostrar-se inamistoso com nossa atitude.
Nenhum de nós é capaz de antecipar o que aconteceria, todos nos sentimos pesarosos, mas ainda temos reconhecimento da nossa responsabilidade e devemos fazer o que for preciso para evitar qualquer possível retaliação.
Vocês poderão permanecer por mais cinco minutos e então soará um gongo e pedimos que todos por favor, deixem o local prontamente. Os atendentes ao longo da parede responderão as dúvidas que tiverem.
Olhem bem, diante de vocês estão os símbolos absolutos da realização, do mistério e da fragilidade da raça humana.’

A gravação cessou.
Cliff cuidadosamente moveu com cuidado seus membros doloridos e sorriu.
Se eles soubessem o que eu sei!
Suas fotografias contavam uma história um pouco diferente da apresentação. Uma das linhas do chão, ontem estava visível, próxima ao pé do robô, e hoje estava coberta.
Gnut havia se movido!
Ou sido movido, pensou sem achar ser provável. Onde estaria a outra evidência de seu deslocamento? Não podia ter sido feito em uma noite apenas e todos os sinais apagados. E por que o fariam? Ainda assim, para ter certeza, ele perguntara ao guarda. E ainda se lembrava de sua resposta:
‘Não. Gnut nunca se moveu ou foi movido desde a morte de seu mestre. Tiveram o cuidado de mantê-lo como estava, na posição que assumiu quando da morte de Klaatu. O chão foi construído debaixo dele e os cientistas levantaram seus aparatos ao redor dele. Não precisa ter medo.'
Cliff sorriu de novo. Ele não tinha medo.
Não ainda.