quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 6/7


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 6

Às quatro da tarde, bastante descansado e com um visor infravermelho pendurado em seus ombros, Cliff passou através do cordão de segurança e entrou na ala interplanetária.
Ele era esperado e não houve problema.
Assim que seu olhar caiu em Gnut, uma estranha sensação percorreu-o e por alguma obscura razão ele quase sentiu pena do gigante.
Gnut jazia ma mesma posição de sempre, o pé direito ligeiramente avançado e a mesma expressão na face, mas agora parecia que havia algo mais.
Ele estava solidamente encapsulado em um enorme bloco de glasstex transparente.
Do chão ao topo dos seus seis metros e numa distância igual para a direita e para a esquerda, atrás e na frente, ele estava imerso em uma prisão transparente como água que confinava cada centímetro de sua superfície e que iria prevenir do mínimo movimento de seus impressionantes músculos.

Era um absurdo, sem dúvida, sentir pena de um robô, um mecanismo feito pelo homem, mas Cliff passara a pensar nele como um ser vivo de verdade, igual a um ser humano. Ele mostrara propósito e vontade, era capaz de executar tarefas complicadas, sua face era capaz de exprimir emoção de tristeza e muitas vezes parecia imerso em profundos pensamentos; tinha sido brutal com o gorila, gentil com o rouxinol e os outros dois corpos e tinha evitado magoar Cliff quando ele seria capaz. Cliff não duvidava que estivesse vivo, o que quer que ‘vivo’ significasse.
Mas do lado de fora esperavam os homens do rádio e da televisão; ele tinha trabalho a fazer.

Uma hora depois Cliff estava sentado sozinho a dez metros do chão, em uma grande árvore que ficava localizada do outro lado do passeio público em frente ao prédio, de onde podia ver, por uma janela, a parte superior de Gnut. Presos aos seus galhos ao seu redor, três instrumentos – seu visor infravermelho, um rádio e uma tevê infravermelha com som. O primeiro lhe permitiria ver na escuridão a imagem ampliada do robô como se fosse de dia, e os outros captariam sinais e sons incluindo de seus próprios comentários e os transmitiram para os estúdios através de milhares de quilômetros em todas as direções, através do espaço.

Nunca antes, provavelmente, um repórter fotográfico tivera tamanha importância – certamente não um que se esquecia de tirar fotografias. Mas agora isso era passado, e Cliff estava orgulhoso e preparado.
Longe dali, num grande círculo, uma multidão de curiosos e assustados. Será que o plástico glasstex prenderia Gnut? Se não o fizesse, ele tentaria se vingar por ter sido preso? Será que algo inimaginável sairia da nave e libertaria Gnut e, quem sabe, executaria a vingança?
Milhares esperavam agarrados a seus rádios; aqueles na distância não esperavam que algo acontecesse, ainda assim esperavam por algo e estavam preparados para correr.
Em lugares selecionados, não muito longe de Cliff, de todos os lados haviam baterias móveis de raios, manejados por unidades das forças armadas e bem à sua direita, um enorme tanque estacionado com um grande canhão.
Cada arma estava apontada para a porta da ala do museu.
Uma fileira de tanques menores e mais rápidos ao norte. Seus projetores de raios estavam virados para a entrada.
A noite caiu, os últimos oficias deixavam o prédio juntamente com políticos e outros privilegiados, e então as grandes portas foram fechadas e trancadas.
Logo Cliff ficou sozinho ali, a não ser pelos homens atrás das armas ao seu redor.
Horas passaram. Veio a lua.

De tempos em tempos Cliff relatava para o pessoal do estúdio que tudo estava quieto.
Seus olhos não podiam ver nada a não ser os dois pontos vermelhos dos olhos de Gnut, mas através do visor amplificador conseguia ver tudo em uma distância de cinco metros com clareza semelhante ao dia.
Exceto por seus olhos, não havia evidência de que havia algo senão metal não-funcional.
Mais outra hora. Agora e novamente Cliff verificava os níveis de seu pequeno monitor de rádio-televisão, apenas por alguns segundos de cada vez, para poupar a bateria.
A emissão não ia além de Gnut e por certa vez mostrara Cliff sentado em sua árvore, sozinho.
Poderosos televisores de infravermelho de grande distância continuavam a focalizá-lo de ângulos mais próximos.
Isso lhe dava uma sensação engraçada.
Então subitamente Cliff viu algo e rápido procurou o visor de amplificação.
Os olhos de Gnut se moviam, ao menos a intensidade da luz emitida estava variando.
Como se dois pequenos flashes vermelhos virassem de um lado para outro, cruzando como faróis o campo de visão de Cliff.
Excitado, Cliff sinalizou para os estúdios, iniciou a transmissão descrevendo o fenômeno. Milhões de pessoas vibravam excitadas com sua voz.
Poderia Gnut quebrar sua terrível prisão?

Minutos se passaram e os flashes dos olhos continuavam, mas Cliff não conseguia captar movimentos no corpo do robô. Em breves relatos ele descrevia o que observava.
Gnut estava claramente ativo, não havia dúvidas de que ele lutava contra seu cárcere transparente, mas, a não ser que pudesse quebrá-lo, não se moveria de forma alguma.
Cliff olhava para o amplificador quando começou.
Seus olhos captaram algo fabuloso acontecendo, apesar de não ser registrado pelo aparelho. Um brilho vermelho envolvia agora o corpo do robô.
Com os dedos tremendo, reajustou as lentes do televisor, o que fez apenas o brilho crescer em intensidade. Parecia que o corpo de Gnut estava incandescente de tão quente.
Descreveu o ocorrido em fragmentos de excitação, pois sua atenção estava em ajustar corretamente as lentes.
A figura de Gnut tornava-se mais e mais brilhante. E então se moveu.
Sem dívida, se moveu.

Ele podia de alguma forma aumentar a temperatura de seu corpo e usou isso para explorar esta limitação do plástico. O glasstex, Cliff lembrou, era um material termoplástico, ganhava a forma pelo resfriamento e uma vez aquecido tornava-se novamente macio.
Gnut o estava derretendo.
Cliff descreveu a cena em três frases. O robô tornara-se vermelho como uma cereja, as extremidades do bloco igual a gelo perderam seu formato e toda a estrutura começou a ceder.
O processo se acelerou e viu que o robô já podia se mover lá dentro.
O plástico já estava na altura da sua cabeça, depois do pescoço e depois na cintura, e então Cliff viu que Gnut estava livre. Então, ainda vermelho como uma cereja, se moveu, saindo de sua visão.

Cliff não conseguia mais ver ou ouvir nada, nada além do ruído de aclamação dos curiosos além do cordão de segurança dos policiais e, mais baixo, as vozes de comando nas baterias de tiro ao seu redor. Eles possivelmente também haviam ouvido e visto as imagens e estavam aguardando.
Minutos passaram. Então se ouviu um som metálico quando as grandes portas da ala do museu se abriram e dali saiu o gigante de metal, que não brilhava mais. Parou com os olhos indo e vindo de um lado para outro, vasculhando a escuridão.
Vozes na escuridão ordenaram e num segundo Gnut era atingido por raios coloridos de luz que cruzavam de todos os lados.
Atrás dele as portas de metal derretiam, mas seu corpo verde não parecia sofrer.
Então o mundo pareceu ter chegado ao fim, ouviu-se um urro tremendo, e tudo à frente de Cliff explodiu em fumaça e caos.
Sua árvore tombou para um lado e esteve a ponto de cair dela. Pedaços de reboco e fragmentos caiam. O tanque-canhão dispara e com certeza acertara Gnut.
Cliff esforçava-se para conseguir enxergar através da poeira. Reparou em um movimento próximo dos restos da porta e mais distintamente a grande forma de Gnut ficando de pé.

Levantou-se lentamente e virou-se para o canhão e de súbito atirou-se na direção dele. A grande arma tentou acompanhar o movimento, mas o robô saiu de sua mira e logo já estava sobre ele. Só houve tempo dos tripulantes fugirem e ele o destruiu com apenas um soco e então se voltou para olhar direto para Cliff.
Começou a vir na sua direção e logo já estava junto da árvore. Cliff conseguira subir até a copa superior. Gnut pôs as duas mãos ao redor da árvore, deu um safanão e o tronco inteiro saiu do chão com raízes e tombou. Antes que Cliff atingisse o chão, o robô o segurou com suas mãos.
Cliff pensou que sua hora havia chegado, mas muitas coisas estranhas ainda estavam por acontecer para ele naquela mesma noite.

Gnut olhou para ele em sua mão e depois o ergueu até sentá-lo em um de seus ombros, as pernas ao redor do pescoço. Virou-se então e começou a seguir pelo caminho leste deixando a área do prédio. Cliff não tinha como escapar.
Enquanto cruzavam o parque, via as bocas das armas se movendo acompanhando Gnut e a ele mesmo, nas suas miras. Mas não dispararam.
Ao colocá-lo em seus ombros, Gnut se assegurara de que não o fariam – Cliff esperava.
O robô seguiu para o memorial. A maior parte dos soldados os seguia hesitantes, à distância. Cliff pode ver ao longe que uma onda escura e confusa tomava a área antes vazia – a área de contenção policial havia se desfeito. A sua frente, uma clareira estreita rapidamente se fez, enquanto avançava entre a multidão, num corredor estreito, ouvia os gritos e insultos, que terminava alguns metros depois; poucos se atreviam a chegar muito perto.
Gnut não prestava atenção nisso ou em sua carga, como se fosse uma mosca. Seu ombro era um assento pouco confortável para Cliff, mas com a diferença de que havia o movimento de músculos flexionado a cada movimento, acompanhando o que se esperava em um ser humano.
Cliff ficou assombrado com aquela musculatura viva.
Reto como o vôo de uma abelha, acima dos caminhos, através das cercas e das fileiras de arvores menores, seguia Gnut, com o jovem ao ombro e o soar de milhares de vozes seguindo-o de perto.
Acima deles, helicópteros e jatos, ao redor carros da polícia com suas sirenes irritantes.
Logo à frente, o lago do Memorial e o tumulo de mármore onde repousava o embaixador Klaatu. Brilhando em negro gélido à luz das dezenas de faróis acesos na noite.
Seria aquilo uma visita ao morto?
Sem hesitação, Gnut entrou na água que lhe chegava até os joelhos, então até a cintura e logo os pés de Cliff estavam na água.
Marchando através das águas escuras até o túmulo, o robô seguiu seu caminho inexorável.
A massa escura de mármore subia alto quando chegaram perto.
O corpo de Gnut emergia das águas e já estava praticamente seco quando pisou o primeiro dos degraus da pirâmide.
Logo estavam no topo, na estreita plataforma cujo centro estava o túmulo oblongo.
Brilhando na luz dos refletores, o gigante caminhou ao redor dele e então curvou-se e desferiu um empurrão em sua tampa. O mármore se partiu e a tampa se partiu em pedaços.
Gnut se ajoelhou e olhou para dentro, trazendo Cliff para bem perto da borda.
Do lado de dentro, um caixão de plástico transparente na sombra, apesar das luzes de fora, selado a vácuo para preservar seu conteúdo ao rolar dos séculos, o corpo mortal de Klaatu, o visitante vindo do grande desconhecido.
Deitado, como se adormecido, o rosto transparecendo a nobreza de um quase deus que levara a alguns ignorantes a acreditar que se tratava de um ser divino.
Vestia a túnica com que chegara. Nada de flores, presentes ou ornamentos, que seriam profanos. Ao pé do caixão, uma pequena caixa selada, também de plástico transparente, contendo todos os registros feitos na Terra por ocasião da sua visita – uma descrição dos eventos que se deram com sua chegada, fotos de Gnut e do viajante e um filme capturando para sempre seus breves atos e palavras.
Cliff sentia-se solitário, desejando poder ver o rosto do robô.
Gnut também não se movia mais daquela posição de reverência e contemplação, mas não por muito tempo.
Ali na brilhante e iluminada pirâmide, sob os olhos da multidão amedrontada, Gnut prestava um cumprimento respeitoso e final ao seu belo e adorado mestre.
E então acabou.
Gnut agarrou a pequena caixa com os registros, ficou de pé e começou a descer os degraus.
De volta através da água, direto para o prédio do museu, através dos jardins e cercas como antes, em seu caminho inexorável. Atrás dele a turba caótica de pessoas se movia, seguindo-o o mais próximo que podia, se esbarrando e caindo e esforçando-se para mantê-lo à vista.
Não houve gravação televisionada deste seu retorno. Todas as câmeras haviam sido danificadas no seu caminho até o túmulo.
Ao se aproximarem do prédio, Cliff viu que o projétil do tanque fizera um buraco de uns doze metros estendendo-se do chão ao teto. As portas permaneciam abertas e Gnut, sem variar seu ritmo de passadas, passou por sobre os destroços e seguiu para a traseira da nave.
Cliff pensava se o deixaria ir. Deixou.
O robô o largou ao chão e apontou para a porta, então se virou e fez aqueles sons responsáveis por abrir a porta. A rampa desceu e ele entrou.
Então Cliff fez a coisa mais louca e corajosa que o tornaria famoso por uma geração.
Assim que a rampa começou a recuar, ele pulou para cima dela e entrou na nave.
As portas se fecharam.