segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 3/7


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 3

Cliff acordou lentamente no principio sem se dar conta que as imagens que rodavam em sua cabeça eram memóriais reais e não um sonho fantástico.
Foi a lembrança das fotografias que havia tirado que o fez levantar-se e tratar de revelar aquelas em sua máquina.
Nas suas mãos estavam as provas que os eventos da noite passada haviam ocorrido. Ambas haviam saído muito boas. A primeira mostrava claramente a rampa descida da porta até tocar o chão como pudera ver de trás da mesa. A segunda, da porta aberta era desapontadora, pois uma parede impedia a visão.
Isso se devia ao fato de que nenhuma luz vinha do interior da nave quando Gnut lá dentro estava - assumindo que Gnut precisasse de luz para o que quer que fizesse lá.
Cliff olhou os negativos com vergonha de si mesmo. Que péssimo fotografo ele era, por ter apenas tirado duas fotos como aquelas. Tinha tido várias chances de realizar grandes fotos – fotos de Gnut em ação – Gnut lutando contra o gorila – mesmo Gnut segurando o rouxinol – fotos que dariam calafrios a quem as visse, e tudo que tinha eram duas fotos da porta.
Ah sim, tinham valor, mas ele era um grande burro.
E para completar sua brilhante performance, ele havia caído no sono.
Bem, era melhor ir para as ruas e descobrir o que estava acontecendo.

Tomou um banho rápido, barbeou-se e mudou de roupa e logo estava entrando em um restaurante freqüentado por fotógrafos e jornalistas.
Sentou-se em uma mesa e acenou reconhecendo um amigo e competidor.
‘O que vai beber?’ perguntou seu amigo tomando o lugar ao seu lado.
‘Nada, até que eu tenha comido alguma coisa.’ Cliff respondeu.
‘Então você não ouviu?’
‘Ouviu o quê?’ Disse Cliff, como se não soubesse o que estava acontecendo.
‘Você é demais’ comentou o outro. ‘Quando algo realmente grande acontece, você está dormindo na sua cama’.
Então ele contou o que havia sido descoberto esta manhã no museu, para o grande regalo dos jornalistas de todo o mundo. Cliff fez então três coisas.
Tomou seu café da manhã, agradeceu aos céus que ninguém havia o descoberto e continuou mostrando surpresa.
Ainda mastigando, correu de volta ao prédio do museu.

Uma grande multidão de curiosos de avolumava na frente, mas Cliff não teve problemas em entrar, depois de mostrar suas credenciais de repórter.
Gnut e a nave estavam na mesma posição de sempre, mas o piso estava coberto por pedaços dos robôs atendentes destruídos.
Muitos outros repórteres, seus competidores, estavam por perto.
‘Eu estive fora, perdi a coisa toda’ disse para um deles. ‘Gus, qual a explicação para tudo isso?’
‘Me pergunte algo fácil. Ninguém sabe realmente. Pensam que algo saiu da nave, talvez outro robô como Gnut. Mas me diga, onde você andou?’
‘Dormindo’.
‘Melhor prestar atenção. Milhões de bípedes estão apavorados. Vingança pela morte de Klaatu, é o que dizem. A Terra pode ser invadida a qualquer momento.’
‘Mas isso...’
‘Ah, eu sei que é loucura. Mas esta é a história que está correndo por aí e que vende jornais. Mas surgiu um ângulo totalmente novo, muito surpreendente. Venha aqui.’
Levou Cliff até a mesa onde um grupo olhava para algo com interesse, vários objetos guardados por um técnico. Gus apontou para aquilo que parecia serem pêlos marrom-escuros.
‘Aqueles pêlos vieram de um gorila macho.’ Disse Gus com a casualidade de um detetive particular. ‘Foram achados esta manhã pelo chão. Outros foram encontrados junto aos robôs atendentes destruídos’.
Cliff olhou atônito, ou tentou. Gus apontou para um tubo de testes cheio com uma substância.
‘Aquilo é sangue diluído – sangue de gorila. Estava nos braços de Gnut.’
‘Meu Deus!’ Cliff exclamou. ‘E não há explicação?’
‘Nem mesmo uma teoria. Esta é a sua grande chance, garoto maravilha!’
Cliff se afastou de Gus, sem poder continuar a encenar por mais tempo. Não sabia o que fazer com aquela história. O serviço de notícias pagaria bem por aquilo – pelas suas fotos – mas aquilo acabaria por tirar a matéria das suas mãos. Algo na sua cabeça lhe dizia que queria estar na ala novamente aquela noite, mas bem, ele estava com medo. Tivera maus momentos e ainda queria continuar vivo.
Andou por ali por algum tempo e contemplou Gnut.
Ninguém podia imaginar que ele se movia, ou que em seu rosto esverdeado pudesse caber uma expressão genuína de tristeza. Aqueles olhos estranhos.
Cliff pensou se podia estar olhando para ele naquele momento e reconhecendo-o como o intruso da última noite. De que matéria estranha era feito – aquele material colocado no lugar dos olhos por uma raça desconhecida pelos homens, e que toda ciência da Terra não conseguira danificar.
O que Gnut estaria pensando? Quais poderiam ser os pensamentos de um robô – de um mecanismo de metal diferente do barro do qual foi feito o homem? Estaria zangado com ele? Cliff achava que não. Ele o havia tido à sua mercê e o deixado viver.
Deveria se atrever a fazê-lo de novo?
Cliff pensou que sim. Saiu da sala pensando nisso.
Tinha certeza de que Gnut se moveria de novo.
Uma arma de raios Mikton poderia protegê-lo de outro gorila – ou cinqüenta gorilas.
Ele ainda não conseguira a história de verdade. Tinha conseguido apenas duas ridículas fotos de arquitetura.
Devia saber de imediato que iria ficar, em meio ao pó, armado com sua câmera e de uma pequena arma, mais uma vez sob a mesa de instrumentos no laboratório, e ouviria as portas de metal a se fechar à noite.
Desta vez conseguiria a história e as fotografias.
Se nenhum policial fosse destacado para passar a noite de guarda.