quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O dia em que a Terra parou (Adeus ao Mestre - Harry Bates ) Parte 5/7


ADEUS AO MESTRE - HARRY BATES

Parte 5

Cliff ficou atrás das grades por toda aquela noite, até as oito da manhã seguinte, quando alguém do sindicato finalmente arranjou um advogado para tirá-lo de lá.
E quando estava saindo, um federal o segurou pelo pulso.
‘Você será levado para responder perguntas no Bureau Continental de Investigação’, o agente lhe disse. Cliff atendeu de bom grado.
Trinta e cinco oficias federais de alta patente estavam esperando-o numa sala de conferência, alguns secretários do presidente, subsecretários de estado, assessores do ministério da defesa, cientistas, um coronel, executivos, chefes de departamento e o terceiro escalão.
O velho Sanders de bigodes grisalhos, chefe da CHI, presidia a sessão.
Fizeram com que Cliff contasse várias vezes a história, e outra vez e mais uma vez, tudo de novo e mais uma vez ainda, não por que não acreditassem nele, mas por que pretendiam encontrar respostas para fatos sem explicação, como o comportamento misterioso de Gnut e os acontecimentos das últimas três noites.

Pacientemente, Cliff revirou sua cabeça em cada detalhe.
Chefe Sanders fazia a maioria das perguntas.
Por mais de uma hora, quando Cliff achou ter encerrado, Sanders vinha com mais perguntas, envolvendo a opinião de seu pessoal sobre o que ocorrera.
‘O senhor pensa que Gnut foi avariado de alguma forma pelos raios, ácidos, calor aplicado pelos cientistas?’
‘Não vi nenhuma evidência disso.’
‘Pensa que ele consegue ver?’
‘Estou certo que sim, ou tem outros poderes que equivalem à visão.’
‘Pensa que consegue nos ouvir?’
‘Sim, senhor. Quando sussurrei que Stillwell estava morto, ele se curvou para ver por si mesmo. E não me surpreenderia se ele entendesse o que falamos.’
‘Em momento algum ele falou, a não ser para emitir os sons que abriram a nave?’
‘Nenhuma palavra em inglês ou qualquer outra língua. Nenhum som de seus lábios.’
‘Em sua opinião, sua força pode ter sido afetada pelo nosso tratamento?’ perguntou um dos cientistas.
‘Já contei como ele levantou o gorila. Ele atacou o animal e o atirou de costas, depois disso o animal passou a ter medo dele.’
‘Como explica que nossas autópsias não revelem a causa da morte de nenhum deles, do gorila, do rouxinol ou dos dois Stillwell idênticos?’ perguntou um oficial médico.
‘Não posso explicar.’
‘Acha que Gnut é perigoso?’ perguntou Sanders.
‘Potencialmente muito perigoso.’
‘Ainda assim diz ter a impressão de que não é hostil?’
‘Para mim, quero dizer. Tenho esta sensação e não tenho nenhuma boa explicação para isso, exceto o fato dele ter me poupado por duas vezes quando me tinha em seu poder. Acho que pela maneira gentil com que segurou os corpos e talvez a tristeza que vi em sua face nas duas vezes.’
‘Se arriscaria a ficar no prédio uma terceira noite sozinho?’
‘Não, por nada deste mundo!’
Alguns riram.
‘Tirou alguma foto do que aconteceu lá na noite passada?’
‘Não senhor.’ Cliff esforçou-se para recompor-se, apesar da vergonha que sentia.
Um homem, quebrando o silêncio, salvou-o dizendo:
‘Poucos minutos atrás, usou a palavra ‘propósito’ em relação às ações de Gnut. Pode explicar melhor?’
‘Sim, esta é uma das coisas que me intrigou. Gnut não parecia mover-se sem razão. Podia mover-se com velocidade impressionante quando queria, vi quando atacou o gorila, mas na maioria das outras vezes andava como se metodicamente cumprindo uma tarefa simples. O que me lembra de uma coisa bastante peculiar, quando ele às vezes assumia uma posição, qualquer que fosse, reclinado ou observando, e ficava assim por muitos minutos. Como se a sua escala de tempo fosse diferente da nossa, algumas vezes era surpreendentemente rápido e em outras passava longos períodos imóvel.’
‘Isso é interessante. Como você explica ele mover-se apenas à noite?’ Perguntou um cientista.
‘Acho que ele está fazendo alguma coisa que não quer que ninguém veja, e de noite ele fica sozinho.’
‘Mas ele continuou mesmo com você lá.’
‘Eu sei. Mas não tenho outra explicação, a não ser que ele me considere inofensivo ou incapaz de impedi-lo, o que certamente é o caso.’
‘Antes de você chegar, nós estávamos considerando a possibilidade de prender Gnut dentro de um imenso bloco de glasstex. Acha que ele permitiria?’
‘Eu não sei. Provavelmente sim, ele permitiu os ácidos e os raios e o calor. Mas é melhor que seja feito de dia, pois a noite parece ser quando ele se move.’
‘Mas ele se moveu de dia, quando o viajante apareceu.’
‘Eu sei.’
Parecia que não tinham mais perguntas para ele. Sanders bateu a mão na mesa.
‘Bem, acho que é tudo, Mr. Sutherland. Obrigado pela sua ajuda e deixe-me congratulá-lo pela sua valentia, meu jovem homem de negócios.’
Sorriu gentil e continuou: ‘Está livre para ir embora, mas podemos precisar chamá-lo de volta. Veremos.’
‘Posso ficar um pouco mais, enquanto decidem-se pelo glasstex? Gostaria de poder dar esta notícia.’
‘A decisão já foi tomada. A notícia é sua. A operação de envolver Gnut em glasstex está prestes a começar.’
‘Obrigado senhor’ disse Cliff calmo e depois perguntou: ‘E o senhor poderia me autorizar estar presente do lado de fora do prédio esta noite? Tenho a sensação de que algo vai acontecer.’
‘O senhor quer outra exclusiva, eu percebo.’ Disse Sanders não muito simpático. ‘E provavelmente deixará a policia esperando enquanto acaba de realizar seus negócios.’
‘Não o farei de novo senhor. Se algo acontecer, eles serão os primeiros a saber.’
O homem hesitava.
‘Eu não sei... eu lhe direi o seguinte: todos os serviços de notícias vão querer um homem por lá, e nós não queremos isso, mas você poderá arranjar para ser o único representante, apenas você. Por minha parte, eu aceito. Nada irá acontecer, mas sua reportagem servirá para deixar os histéricos mais calmos.’
Cliff agradeceu e correu para telefonar para seu sindicato, para contar as novas – de graça – e a proposta de Sanders. Dez minutos depois ele era chamado de volta e ficou sabendo que estava tudo arranjado, e lhe disseram para ir descansar. Eles cobririam o evento.
Com o coração mais leve, Cliff voltou ao museu.

Centenas de curiosos cercavam o prédio, mantidos à distância por um cordão de isolamento policial. Não pôde passar, apesar de ter sido reconhecido, a polícia ainda estava zangada.
Não deu importância. Estava cansado e foi para o hotel e para a cama.
Tinha dormido apenas alguns minutos quando o telefone tocou.
Com os olhos fechados, atendeu. Era um dos caras do sindicato, com novidades.
Stillwell havia sido encontrado, vivo, muito vivo – o verdadeiro Stillwell.
Os dois outros mortos eram cópias; e ele não pudera explicar como. Ele sequer tinha irmãos.
Cliff permaneceu alguns minutos acordado então deitou-se.
Nada mais lhe pareceria fantástico, nunca mais.